Como é feita a recuperação dos jogadores de futebol para a partida seguinte

A conversa com Walmir Cruz, preparador físico, destaca a importância que a área de saúde vem ganhando na estruturação dos clubes

Ouvimos profissionais da área para saber o que acontece nas 24 horas de recuperação de um jogador após cada disputa

Como é feita a recuperação dos jogadores de futebol para a partida seguinte
Foto: Divulgação/CRF

Foram várias tentativas, mas as ligações para o celular do preparador físico Walmir Cruz só caíam na caixa postal. Até que o retorno veio pelo WhatsApp.

“Desculpe a demora, estou muito ocupado por causa da montagem do time, que está muito difícil, e a gente está quebrando a cabeça para compor a equipe para a próxima partida”, explicou.

O Estadão se propôs a ouvir os profissionais da área para saber o que acontece nas 24 horas de recuperação de um jogador após cada disputa. O trabalho requer muitas etapas, como banheira de gelo, repouso e alimentação.

A declaração de Cruz, preparador físico experiente e consagrado, atualmente no Náutico, serve para ilustrar a importância que a área de saúde vem ganhando na estruturação dos clubes, em meio a um calendário com jogos em excesso.

Uma equipe de alto rendimento, se disputar todos os títulos, pode fazer até 92 partidas em um ano. São menos de quatro dias entre cada uma delas, sem descontar os meses de recesso e pré-temporada. E, mesmo se cair em fases anteriores, muito possivelmente irá longe, totalizando um número de jogos próximo a esse.

Funções como a de preparador físico, médico, fisiologista, psicólogo (se incluído no departamento) e nutricionista ganharam ainda mais importância. Eles também se tornaram gestores de elencos. Ainda mais quando, em função da evolução científica, as partidas se tornaram mais intensas. Na década de 80, um jogador percorria em média 8 km nos 90 minutos. Hoje, esse número ultrapassa os 11 km.

Tal intensidade, aliada ao excesso de jogos, desafia a ciência a encontrar recursos para que os atletas se recuperem mais rápido para a próxima disputa em campo.

“Com os recursos de 20 ou 30 anos atrás, creio que seria mais difícil um atleta se recuperar com maior rapidez diante da intensidade do jogo. Teríamos de tratar o atleta como um todo, meio que no escuro, sem saber qual área estaria mais desgastada. Seria uma recuperação geral, sem direcionamentos”, observa Cruz.

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Time do Náutico treinando no CT do Retrô-PE (Foto: Tiago Caldas / Divulgação / CNC)

Os recursos atuais, até certo ponto, possibilitam que os jogadores atuem em uma sequência de três ou quatro jogos, conforme observa Cruz. Isso dependendo do histórico e das características do atleta. No geral, porém, o procedimento é comum a todas as equipes, com instrumentos mais modernos e precisos na análise das condições físicas de cada jogador.

PROCESSO DE RECUPERAÇÃO

A cada fim de jogo se inicia um verdadeiro ritual, em que a massagem se mistura com processos de compressão muscular, liberação de toxinas, relaxamento, hidratação e alimentação, conforme conta Cruz, que no Brasil já foi preparador no Corinthians, Palmeiras, Ceará, Bragantino, Juventude, Santos, Portuguesa Santista e Avaí. Já trabalhou na Turquia e Japão. Em 2021, atuou na comissão técnica de Fábio Carille, no Al Ittihad, da Arábia Saudita.

Cruz explica que, nos minutos seguintes ao apito final, a recuperação já começa para aqueles que não tiveram lesões. O atleta, assim que entra no vestiário, normalmente utiliza a crioterapia (tratamento com baixas temperaturas, em banheiras de gelo), juntamente com ingestão de líquidos, carboidratos e proteínas. Alguns precisam fazer massagem assim que encerram o jogo, além de iniciarem a alimentação adequada.

No dia seguinte, o processo de recuperação tem continuidade. Essas 24 horas iniciais serão determinantes para a boa recuperação. Nela, os atletas são submetidos à chamada liberação miofascial e depois à bota de compressão e descompressão do corpo, para facilitar a irrigação sanguínea, conta o profissional.

A liberação miofascial (mio: músculo; fascio: tecido) é feita com rolinhos revestidos, carregando pontos de pressão nos músculos, para depois relaxá-los. Isso ameniza as dores musculares causadas por tensão e desgaste. Já as botas pneumáticas realizam uma drenagem, ao comprimirem as pernas, pressionando a circulação sanguínea e depois a liberando, para que se torne mais intensa. Todos esses métodos aceleram o processo de recuperação.

“Nas primeiras 24 horas se utiliza a recuperação ativa (bicicleta, por exemplo), liberação miofascial, drenagem com botas pneumáticas, mobilidade, massagem e banheira quente também. Nas 48 horas, ocorre o trabalho de força para membros superiores, buscando anabolizar para otimizar a recuperação. É quando aparecem as dores.”

O trabalho de anabolizar ocorre quando o jogador está com muita dor muscular nas pernas. Neste caso, se exercita a parte superior, para fortalecer o core (região ao redor do tronco). É a parte de exercícios abdominais, ou o trabalho de peito, de braço, de costas para que se consiga chegar nos grupos musculares.

“Isso faz com que a circulação fique mais rápida e comece a eliminar de repente alguns ácidos da musculatura da perna. Essa prática serve para trabalhar grupos superiores para, depois, atingir os inferiores, das pernas, se estiverem muito cansadas, pesadas, liberarem toxinas musculares”, destaca Walmir Cruz.

Outro ponto salientado é que existem alguns atletas que têm dificuldade para recuperar o peso após o jogo. Esse tipo de atleta merece atenção especial e, muitas vezes, é aquele que costuma ser poupado nos rodízios nos elencos, que se tornaram comuns.

“É preciso ficar atento e fazer alguns trabalhos especiais para que ele possa ficar em condição para o próximo jogo. Muitas vezes os atletas jogam três, quatro jogos seguidos e aí é preciso tirar porque ele não vai recuperar a ponto de estar preparado para a próxima partida. A recuperação vai na mesma linha com base na alimentação e essas situações das botas, do rolinho facial, isso é praticamente igual em quase todos os clubes que têm essa estrutura”, ressalta Cruz.

GAMA DE INFORMAÇÕES

Auxiliado pela fisiologia, as informações sobre as características físicas do jogador são fundamentais no processo.

“Tem atleta que demora para recuperar, dependendo da questão da formação, como é que ele foi formado na base, se tem uma base física boa, tudo isso interfere”, ressalta.

A fisiologia, conforme conta Antonio Carlos Fedato Filho, especialista em fisiologia do exercício pela Unifesp, tem contribuído, em função da evolução tecnológica na área.

“Esses recursos da fisiologia fazem uma leitura da condição física em que o atleta volta do jogo, como a termografia, a análise de biomarcadores sanguíneos, o ultrassom, leitor de ondas ômega cerebral, variabilidade de frequência cardíaca, entre outros”, ressalta o profissional, que já atuou em clubes como Palmeiras, Corinthians (onde foi campeão mundial em 2012) e em países como Catar e Emirados Árabes Unidos.

A chamada multidisciplinaridade já ocorre assim que o árbitro encerra o jogo. Os clubes estão preparados para isso. Uma rede de profissionais já se mobiliza para iniciar o processo de recuperação. E a fisiologia, a parte de nutrição e a fisioterapia compõem esse conjunto, diz Fedato. “Em décadas passadas, com intensidades e deslocamentos menores durante os treinamentos e as partidas, as técnicas de recuperação ainda eram básicas, mas supriam as necessidades, com massagem e gelo. A alimentação não era controlada, a composição corporal e algumas variáveis físicas não eram tão exigidas também como hoje.”

Fedato diz que o trabalho é mais detalhado e serve tanto para os preparadores físicos quanto para os nutricionistas, médicos e fisiologistas, entre outros. Ele conta que é feita uma leitura de como o jogador voltou do jogo, tudo o que ele perdeu, o que foi exigido fisicamente (análise do GPS) e fisiologicamente (análise de biomarcadores sanguíneo), testes físicos e anamnese, que são entrevistas do atleta com os médicos.

Em caso de dúvida com relação a lesão, são realizados exames clínicos ou os médicos encaminham o jogador para ultrassom ou ressonância magnética. “Assim é criado um mapa e o atleta entra em um processo para iniciar sua recuperação”, ressalta. Tudo isso em 48 horas após o jogo.

LIMITES HUMANOS

Grande parte da base da fisiologia utilizada no futebol teve como origem o atletismo. A partir dos trabalhos físicos realizados nos atletas com alta explosão muscular para as corridas, aos poucos os processos foram se adaptando às exigências do futebol.

“Isso fez com que o atleta de futebol fosse direcionado para uma melhor recuperação através do seu condicionamento, com uma utilização do lactato, por exemplo, como fonte de energia, com trabalhos com altas cargas musculares elevando alguns hormônios importantes para o rendimento. Esses fatores ajudaram muito o atleta a suportar esse aumento de exigência”, diz.

O lactato é uma forma do ácido láctico, produzido pelos músculos e que se torna fonte de energia química acumulada com os exercícios.

Para o médico do esporte Marcelo Aragão Moraes, pós-graduado na Unifesp, esses métodos irão possibilitar que os atletas alcancem marcas ainda melhores. Ele também cita a importância da multidisciplinaridade dos profissionais e os avanços da ciência para tal evolução. E acrescenta outro fator importante para que, em futuro breve, a recuperação dos jogadores seja ainda mais rápida: exercícios que fortaleçam o raciocínio e beneficiem o funcionamento do cérebro, para o bem do próprio organismo.

“Acredito que a prática de jogos, leituras, a música, trabalham áreas cerebrais, controlando o nível de cortisol e, consequentemente, promovendo uma modulação no estresse dos atletas”, defende.

Em relação à superação de limites, Moraes lembra do avanço da genética como um fator essencial. “A engenharia genética e o estudo de genomas também poderão, no futuro, ser utilizados de uma maneira prática. Isso em função da identificação cada vez maior de particularidades para otimizar o rendimento, a recuperação e evitando lesões. Hoje, já vemos atleta disputando varias provas ou até torneios dentro de uma mesma competição”, destaca.

O limite, no entanto, não é possível de ser mensurado ainda. A diminuição das marcas e do tempo de recuperação é uma conquista diária da ciência. Mas, dentro do nosso conceito de tempo, requer paciência. Não se pode imaginar neste momento um jogador de futebol precisando apenas de duas ou três horas para estar pronto para o próximo jogo. Nem um corredor de 100 metros chegando à marca dos 5 segundos. Isso um dia ocorrerá?

“Acredito que em alguns anos a marca baixará dos 9 segundos (o recorde é 9s58). Em todos os anos temos visto atletas ultrapassando o que hoje seria o limite humano e vamos continuar ultrapassando. Não sabemos qual é o limite, acredito que as gerações futuras já chegam com evoluções para bater sempre os limites que atingimos agora”, completa Fedato.

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