Clube-empresa é utopia e Bolsa não salva ninguém

Ninguém é contra o aporte de recursos aos clubes, mas a realidade é mais difícil e cruel do que se pensa. É utópico.

Ninguém é contra o aporte de recursos aos clubes, mas a realidade é mais difícil e cruel do que se pensa. É utópico.

0002050303785 img

São Paulo, SP, 25 (AFI) – Márcio Papa, que hoje não está mais entre nós, sempre sonhou com o futebol em nível empresarial e com gestão transparente, inclusive defendia que os clubes se transformassem em empresas e lançassem ações na Bolsa de Valores. No papel é muito bonito e, às vezes, isso encanta alguns incautos, que acham ser uma solução para enriquecer o nosso futebol.

Outro dia, o Figueirense apresentou seu projeto de clube-empresa numa matéria editada pela Folha de São Paulo. A reportagem, inclusive, foi contestada pelo próprio presidente do clube. Claro que ninguém é contra o aporte de recursos aos clubes, mas a realidade é mais difícil e cruel do que se pensa.

Primeiro, porque é preciso diferenciar as coisas: o clube-empresa e com ações na Bolsa é uma coisa. Clube com cotas majoritárias por pessoas físicas ou jurídicas é bem diferente, como é o caso do Figueirense. Seu investidor tem 95% das cotas ou ações e o clube é proprietário de 5%.

UMA AGRAVANTE
No caso presente uma agravante, os personagens que entraram no projeto não eram nada republicanos. Os investigadores que rondaram o projeto, passavam pelo doleiro Alberto Youssef, da Lava Jato e também Claudio Honigman que conhecia empresários que poderiam aportar recursos ao Figueirense.

Ricardo Teixeira só deixou a CBF sob muitas denúncias

Ricardo Teixeira só deixou a CBF sob muitas denúncias

Ocorre que esse cidadão também entrou no radar do Ministério Público em 2011, por lavagem de dinheiro. E ele ainda teve negócios com Ricardo Teixeira e Sandro Rosell, que está preso na Espanha.

Esses três personagens – Honigman, Sandro e Ricardo – trouxeram um avião para o Brasil, comprado por um dólar(!).

Isto sem falar que ainda desviaram dinheiro de amistosos da seleção brasileira.

MAIS PERSONAGENS
Outros personagens passaram pelo projeto, entre eles Carlos Meira, que aceitou o desafio de participar da transação de clube sem fins lucrativos para clube-empresa. Botou dinheiro. Meira preferiu fazer um contrato de mútuo com o presidente do Figueirense Claudio Vernalha. Achou que era arriscado injetar diretamente no clube sem garantias.

Além disso, outros se juntaram ao projeto. Um deles foi Alex Bourgeois, ex-genro de José Serra, mas que acabou demitido, coisa que também aconteceu com ele em sua passagem pelo São Paulo e Santos.

Figueirense tenta se tornar clube empresa pelas mãos de Claudio Nervalha

Figueirense tenta se tornar clube empresa pelas mãos de Claudio Nervalha

Como parte do negócio, as dívidas do Figueirense em torno de 85 milhões de reais, serão pagas pela holding Elephant, de propriedade do presidente Claudio Vernalha. O fundo comprou do Figueirense 95% das cotas por 20 anos, com opção de mais 15 na renovação.

O Figueirense cuidará dos outros esportes, não mandará no futebol, mas tem direito de manter o Conselho Deliberativo – a turma que não entende nada, mas tem o direito de bater bumbo quando o time for mal, ou faltar dinheiro.

OS PECADOS DO FUTEBOL
O futebol tem seus pecados, pecadilhos, pecadões e os pecados veniais. Além desses nomes cotados aí acima, principalmente aqueles que passaram por caminhos da Lava Jato, consta o nome do Sr. Marco Meira.

Ele fez assessoria para a Odebrecht, de quem recebeu 11,2 milhões por serviços prestados a essa empresa campeã de corrupção, não só aqui, mas também em quase toda a América do Sul. O

pai de Meira foi juiz do STJ e considerou prescrita uma dívida de 500 milhões de reais, cobrada pela Procuradoria Geral da Fazenda, da Braskem, braço direito do conglomerado Odebrecht.

CHANCES DE SUCESSO
Mas voltemos ao projeto do Figueirense: quais são as chances de sucesso nesse projeto? Difícil dizer porque o problema maior do futebol não é mais receita, ser empresa ou não, mas sim uma gestão séria e compliance. O futebol brasileiro está fora da realidade. Somos um país que gasta o que não pode e, por consequência, não consegue pagar suas dívidas.

E por várias razões:

1) Ainda que surjam recursos de televisão, publicidade, bilheteria e outras receitas, nem sempre são suficientes para fazer frente aos custos, tudo porque jogamos dinheiro pela janela.

2) Por isso, atrasamos salários, que, muitas vezes, são irreais e incompatíveis com as receitas, e perdemos vínculos com jogadores por calote salarial trimestral. A consequência é que o jogador fica livre e o clube perde mais um ativo. Parte do ativo também vai para os intermediários (empresários).

3) Outro problema é que o futebol é barato – e nem dá para cobrar mais caro porque nossa renda per capita é um lixo. O salário mínimo do Paraguai, por exemplo, é maior do que o nosso. (400 dólares).

4) O tíquete médio por jogo de um time grande em São Paulo varia de 50 a 80 reais. E o futebol é muito onerado por seus custos nos jogos. Hoje, um jogo leva de 34 a 40% do borderô. De uma renda bruta de 2,5 milhões sobra um terço. E olhe lá.

5 ) O futebol precisa de uma gestão calcada na realidade. E a salvação não está em formar sociedade anônima ou coisa que o valha. A Bolsa de Valores não salva ninguém. E o fim do passe enfraqueceu ainda mais os clubes. Os empresários tomam porre nessa receita que os clubes perderam, graças à Lei Pelé. Desculpe-me Márcio Papa: a bola na Bolsa é uma utopia.