Boca Juniors deixa lições para a treinadorzada

Boca Juniors deixa lições para a treinadorzada

De certo você já está de “saco cheio” de ouvir e ler opiniões sobre a vitória do Boca Juniors sobre o Grêmio na finalíssima da Libertadores. Pois é, cansaram-lhe de citar que o resultado foi justo, que o Grêmio não jogou bem e por aí vai. Que tal mais uma caminhada sobre o assunto com focos pouco explorados? Vamos nesta?

Saiba que o Boca coloca em xeque esse tal de fator campo e torcida, tão considerado nas avaliações que antecedem os jogos. Saibam que torcida ajudava o time mandante a ganhar jogos nos tempos em que árbitros entravam em campo intimidados por pressão e agressão. Hoje, com segurança indispensável, o juizão marca pênalti até discutível contra o time da casa, não hesita em expulsar jogador do mandante ainda no primeiro tempo. E a torcida? Oras, fica só no xingo. Foi-se o tempo em que se considerava o “gogó” o combustível indispensável para o mandante.

Então, quem dispõe de time bem montado e, em tese, é superior ao adversário, não tem essa de só se preocupar com a opção do contra-ataque quando jogar fora de casa, né?

O fator campo tem um relativo favorecimento se o piso do adversário for muito irregular, se as dimensões do gramado forem reduzidas ou coisa que o valha. Do contrário, num piso normal, basta não maltratar a tal de bola, correto? A melhor condição técnica tende a prevalecer.

Terceiro: chega de se falar que a probabilidade de um time raçudo perder jogo é pequena? Futebol é uma competição de estilo e quem tem técnica – aliada a uma adequada preparação física – vai certamente ocupar melhor os espaços do campo, vai fazer o adversário cansar mais depressa e tem mais possibilidade de jogar jogo. Raça em campo não é virtude, é obrigação de qualquer jogador profissional.

Se é correto que o Grêmio impôs um ritmo alucinante contra o Boca, que seus laterais chegavam nas proximidades da área adversária incontáveis vezes, não é menos verdade que o nível de aproveitamento foi pobre. De nada adianta levar a bola ao fundo do campo “centas” vezes e só ficar alçando-a inconseqüentemente à área adversária. Já dizia mestre Otacílio Pires de Camargo, o técnico Cilinho, que mais vale um passe calculado do lateral do que uma bola alçada para se ver aquilo que acontece.

O Boca, no velho estilo argentino, fez a bola rolar naquela final de Libertadores. Os treinos bi-toque ou um toque na bola, que pra nós parecem obsoletos, pra eles continuam na moda e ampliam o reflexo dos jogadores. Só quem exercita esse tipo de atividade pode colocá-la em prática. Assim, quando era sufocado pelo Grêmio e conseguia recuperar a posse de bola, a “becaiada” argentina raramente rifava-a Nada de devolvê-la gratuitamente aos gremistas, para que recomeçassem as jogadas. Mesmo marcados sob pressão na saída de bola, na maioria das vezes os argentinos colocaram qualidade no passe e isso é vital para se chegar, igualmente, ao campo do adversário e incomodá-lo.

Quarto aspecto: apontem um jogador extremamente técnico neste time do Grêmio? Evidente que Carlos Eduardo, que atua basicamente como ponteiro-esquerdo à moda antiga, é driblador. Como só driblar não é sinônimo de criatividade, ele ainda precisa amadurecer para conhecer os atalhos do campo.

E mais: o técnico Mano Menezes, elogiadíssimo pela mídia, mostrou que pode até trabalhar duro durante a semana, que condiciona adequadamente sua equipe no plano físico e sabe inflamar seus jogadores para os jogos, mas ficou claro a dívida sobre variação tática. Viu-se, na segunda partida contra o Boca, uma manjadíssima jogada pelo lado esquerdo do campo e bolas alçadas para o grandalhão atacante Tuta. A rigor, teve gente de televisão antecipando que a defesa do time argentino é fraca no jogo aéreo e que por ali estaria a mina de ouro.

Neste nosso “brasilzão” é assim: comentarista de futebol de gorda conta bancária também fala asneira e dez minutos depois o telespectador nem lembra mais. E ainda sobre Mano Menezes, ressalta-se que a troca de jogadores naquela ocasião foi ainda mais inconsistente, principalmente a entrada de Everton no lugar de Tuta.

Escreva aí e cobre depois: esse time do Grêmio não passa de mediano. Será surpresa se atingir as primeiras posições neste Campeonato Brasileiro. Por fim, para não alongar a conversa e não aprofundar em detalhamento tático, só mais essa: tivesse no lugar do Boca, no segundo tempo da finalíssima em Porto Alegre, a maioria dos times brasileiros encolheria para sustentar o empate ou perder de pouco. Mas o time argentino optou por prender a bola no campo do adversário. Soltou os laterais, adiantou os meias e tocou a bola sem pressa, até surgir uma brecha, um descuido de marcação do adversário, para aniquilá-lo . Eis uma estratégia que não é usual no futebol brasileiro.

Que nossos extremamente zelosos treinadores – principalmente aqueles que dispõem de elencos categorizados – copiem o bom exemplo do Boca. A valorização da posse de bola no campo do adversário é fundamental para, no mínimo, você equilibrar a partida.