Blog do Ari: Luiz Carvalho de Moura, quase 94 anos de idade e ainda de olho na Ponte

Luizinho tem uma história de atleta e dirigente da Macaca

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O rádio de Campinas deu uma bela encorpada neste meio de semana ao enviar profissionais da reportagem à Argentina. Parabéns, portanto, aos comandantes Carlos Batista, Alberto Cesar, José Henrique Semedo e Claudinei Corsi pelo válido investimento.

Pela Libertadores da América, viajei com o Guarani para o Paraguai, Chile e Peru, e minha lamentação profissional for ter feito reportagens apenas convencionais, acrescidas, claro, com panorama geral da cultura de cada país.

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Talvez, se tivesse na Argentina reportaria sobre o comportamento do torcedor pontepretano por lá, informações adicionais sobre o Vélez, e tentaria localizar o treinador Cesar Luis Menotti, campeão mundial pelo selecionado argentino em 1978.

Sempre considerei extremamente conceitual a frase de Menotti de que o drible é dispensável se não for aplicado nas proximidades da área adversária.

Por aí dá pra se projetar o quão bom seria sugar um pouco do muitíssimo conhecimento de Menotti sobre futebol, um profissional que o treinador Tite, do Corinthians, o rotula como referência.

Menotti, que em dezembro completará 75 anos de idade, foi vítima do tabagismo e por isso se afastou do futebol após se submeter a cirurgia para retirada de tumor no pulmão há dois anos.

POLTRONA DE CASA

Nem foi preciso ir à Argentina para fazer uma deliciosa entrevista informal com o amigo Luiz Carvalho de Moura, o Luizinho, um dos mais antigos pontepretanos, e que certamente acompanhará o destino de sua Ponte contra o Vélez, nesta quinta-feira, pela televisão, na poltrona de sua residência.

Pra quem vai completar 94 anos de idade em janeiro próximo, Luizinho tem incontáveis histórias sobre Ponte Preta, a começar pela adolescência quando freqüentava o salão de baile do clube nas esquinas das ruas General Osório e Dr. Quirino.

Depois, entre 1941 a 1944, foi o centroavante titular do time pontepretano, e gabava-se de marcar gols de todo jeito.

“O Nico me viu jogar pelo Bonfim justamente num dia em que eu acabei com o jogo. Aí o Dr. Olímpio Dias Porto, que era presidente da Ponte, foi lá em casa me buscar”.

Na época, dirigentes de futebol já tinham a esperteza do risco de jogadores envolvidos na noite, e por isso Luizinho foi buscado no salão de baile do Campinas, extinto clube da Vila Industrial, justamente na véspera de um confronto com a Ponte.

O futebol já atravessava período do amadorismo marrom, e Luizinho não conseguiu conciliar o trabalho de fotógrafo ao de atleta. Por isso preferir ser empregado de loja por oito anos.

Dinâmico, montou seu próprio estabelecimento – a Fotoelétrica – e a administrou por mais de 40 anos na Rua Conceição, ao lado da também sepultada farmácia São Luiz.

Evidente que a paixão pela Ponte Preta não permitia que dela se distanciasse. Por isso foi membro ativo da comissão de obras do Estádio Moisés Lucarelli e transportava tijolos, areia e cimento no porta-malas de seu Fordinho-38.

“Formavam-se filas de 15 a 20 carros a espera para descarregar os materiais de construção. Eu comprava com o próprio dinheiro e doava”.

E por ter acompanhado a extrema dedicação de Moisés Lucarelli para liderar a campanha de construção do estádio é que Luizinho também se aborreceu quando suspeitaram que o comandante levava vantagem no empreendimento.

“Falaram que o Lucarelli estava roubando, ele se irritou, e nunca mais voltou ao estádio”, conta Luzinho, que diz ter se afastado do clube anos depois, com a justificativa de que não aceitava pessoa até então ligada ao Guarani integrada ao corpo diretivo da Ponte Preta.

Luizinho alterna períodos de plena lucidez e por isso não consegue precisar as datas com exatidão. Se empolga, entretanto, com histórias do tempo de diretor de futebol da Ponte nos anos 50.

“Eu e o Natal Gabeta fomos ao Estado do Paraná e raptamos o centroavante Baltazar, que batia um bolão”, foi a narrativa da primeira corajosa empreitada.

“Em outro dia eu estava numa praia em Santos e vi um rapazinho comendo a bola na areia. Fui até a casa dele e convenci o pai para que o rapaz jogasse na Ponte. Este cara bom de bola é o Célio”.

Dados biográficos de Célio Taveira constam a passagem pela Ponte em 1958 e como lateral-esquerdo. Na sequência ele foi atuar como atacante, com passagens pelo Vasco, futebol uruguaio e Corinthians.

LIGA CAMPINEIRA

Ao se desligar da diretoria da Ponte Preta, Luizinho começou a comandar a Liga Campineira de Futebol, que na década de 60 estava instalada precariamente em um porão na Rua Regente Feijó, no prédio da antiga Prefeitura de Campinas.

E como Luizinho pauta pela longevidade, jogou futebol até os 73 anos de idade, no time em que era dono e levava o nome de sua loja.

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Vitimado por um AVC (acidente vascular cerebral) há seis meses, Luizinho perdeu os movimentos do lado direito do corpo, e em conseqüência disso deixou de andar. Agora se locomove em cadeira de rodas. Também houve um relativo comprometimento da fala.

Aquilo que jamais perdeu foi o entusiasmo pra contar a sua trajetória na bola e histórias de brigas. Talvez aquela que ganhou maior repercussão foi com o jornalista Sérgio Jorge, com ameaças mútuas.

O problema é que Luizinho sempre andou armado e temia-se por atos inconseqüentes.

Felizmente a amizade com Sérgio Jorge foi reatava com interferência do também jornalista Zaiman de Brito Franco, amigos de ambos.

“E hoje o Sérgio Jorge é um dos amigos que ainda frequenta a minha casa”, conta Luizinho, seguido de uma gostosa gargalhada pra mostrar quanta ignorância as pessoas cometem por nada.

Pois este Luizinho pontepretano desde a década de 20 será mais um, entre dezenas de milhares espalhados por todos os cantos, com olhos atentos na televisão na noite desta quinta-feira.

Será que esta danada Macaca vai presenteá-lo com a inédita classificação à semifinal da Sul-Americana?

Se a dúvida será desfeita apenas quando a bola rolar, o certo é que o custo para uma histórica reportagem sobre Luizinho custou-me R$ 3 das duas horas que fiz uso do bilhete único do transporte coletivo.