Assim, a torcida organizada vira PCC ou uma CUT das arquibancadas

Se continuarmos nessa passividade e impunidade, logo teremos grupos fortes para tornar o nosso futebol um inferno.

As torcidas já têm sua representação, pulverizadas nos clubes, e lincadas numa entidade representativa de âmbito nacional

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O PCC nasceu numa pelada de futebol num dos presídios do Vale do Paraíba. Um jogo inocente de gente nada inocente. Eram oito do mesmo grupo. E dali nasceu uma organização criminosa que tomou conta do país e chegou até a formação do Narco-Sul, para comercializar e distribuir drogas e também vender armas. O que tem isso a ver com um problema sério que é a violência das torcidas organizadas? Se continuarmos nessa passividade e impunidade, logo teremos grupos fortes para tornar o nosso futebol um inferno.

Sem querer comparar no momento, pois são problemas diferentes, mas maléficos e perigosos à sociedade, as torcidas já têm sua representação, pulverizadas nos clubes, e lincadas numa

Palmeiras foi o primeiro grande clube paulista a romper com as organizadas. Resultado: Allianz Parque cheio sempre.

Palmeiras foi o primeiro grande clube paulista a romper com as organizadas. Resultado: Allianz Parque cheio sempre.

entidade representativa de âmbito nacional. Os dados são preocupantes, de acordo com as informações reveladas por Mauricio Murad, doutor em Sociologia dos Esportes pela Universidade do Porto (Portugal):

1 – Existem hoje 2 milhões de brasileiros – 85% homens e 15% mulheres, agrupados em 700 torcidas organizadas, sendo 435 as mais atuantes e 107 filiadas à Anatorg, associação nacional da categoria. Se me permitem, chamarei isso de a CUT das torcidas. Claro que esta tem componentes políticos e ideológicos e foram cooptadas pelo governo atual e com muito dinheiro. Os cutistas vermelhos e outras entidades alinhadas com o governo recebem, anualmente, 50% do salário-dia, descontados de todos os trabalhadores, o que dá uma receita anual de um bilhão de reais.

2 – A Anatorg, a futura CUT das arquibancadas, não recebe nada, mas suas filiadas são contempladas com ajuda dos clubes para viagens nacionais e internacionais, ingressos de graça ou subsidiados e outras regalias.

3 – Cansei de ir às reuniões no 2º Batalhão de Choque da PM para reunião da polícia com as organizadas. Comia-se muito churrasco, aumentava-se o colesterol da moçada e a violência só crescia. Essas torcidas têm apoio de deputados e foram se infiltrando nos conselhos dos clubes. Quando o time perde, alguém tem culpa. As brigas se sucedem e no dia seguinte, seus membros vão reclamar nos clubes a ameaçam bater nos jogadores. Isto sem falar que eles depredam patrimônio público e particular.

Polícia Militar teve que proteger torcedores comuns das organizadas do São Paulo

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4 – Ainda assim, tem gente que acha que não se pode radicalizar com quem pratica a violência – quantos já não morreram por causa dessa insanidade? – e agora, com a história de torcida única, o argumento, que não é novo, é de que nem todos são violentos. Ora, no jogo do São Paulo, a torcida não brigou. Ela foi vítima dos insanos, que nem puderam entrar no jogo. As garrafas de vidro atiradas até na Polícia eram dos vendedores do lado de fora. Esses, por sua vez, pagam às uniformizadas para vender álcool, quando se sabe que servir cerveja era proibido antes da Copa. Depois, relaxaram. As uniformizadas exigem propina de ambulantes para faturar, pois as fontes

Briga com morte na final da Copa São Paulo de 1995 no Pacaembu

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nos clubes secaram.

5 – Os cartolas têm culpa nisso porque sempre usaram as uniformizadas, mas davam o retorno com benesses e uma certa presença política, como, por exemplo, um diretor de futebol do Corinthians foi indicado pela torcida. O clube tolera porque precisa de um negociador com a torcida quando a crise no futebol se faz presente.

6 – O tráfico de drogas tem infiltração em algumas torcidas. Os casos são denunciados, mas depois ninguém fica sabendo como ficaram os inquéritos, quantos foram punidos? Seria importante que o Ministério Público investigasse, principalmente depois daquela chacina de uma parte da torcida Pavilhão 9 na Vila Leopoldina. O narcotráfico espalha seus tentáculos e o futebol é uma fonte que atende aos interesse dos traficantes.

Corintianos presos na Bolívia após morte de garoto. Alguns voltaram a ser vistos em brigas

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7 – A impunidade é muito grande. Dizem que só 5% dos uniformizados são violentos. Aparentemente é pouco, mas esse percentual sobre 2 milhões de pessoas soma muita gente – é quase um Maracanã superlotado. Pior é que todos os inquéritos abertos pela Polícia só 3% dos delitos foram apurados e punidos. Uma prova de que somos o país do prende e solta. As torcidas têm seus advogados de plantão. No caso da morte do menino boliviano até o Itamarati ajudou a aliviar a situação e depois o corintiano acusado do crime na Bolívia foi preso numa briga generalizada contra palmeirenses em São Paulo.

8 – Enquanto isso temos uma lei frouxa, atitudes cosmésticas, tópicas, estatuto do torcedor e um promotor que lembra muito Sancho Pança contra os moinhos de vento, mais essa cretinice de torcida única, e a sociedade continua refém dos violentos que marcam brigas na periferia. Eles sabem que nos estádios está ficando mais difícil brigar, embora o caso do jogo do São Paulo tenha mostrado, que a violência começou de fora para dentro do Morumbi.

Não adianta querer curar doença grave com diclofenaco ou recorrer ao placebo para conter a violência dos cafajestes. A sociedade está cansada de ouvir e ler diagnósticos, sem o governo usar os medicamentos necessários para libertar a sociedade da sanha desses violentos. Chega de impunidade. Do jeito que vai, no futuro poderemos ter um PCC ou uma CUT das arquibancadas.