Álvaro Negrão confirma renúncia com toda a diretoria executiva do Guarani

Dirigentes não enxergam perspectiva de solução para o clube e jogam à toalha pressionados por grupos de conselheiros, associados e cornetas

Se onde há fumaça há fogo, o Guarani continua num inferno de chamas. Nesta noite o presidente da diretoria executiva, Álvaro Negrão, sem ver perspectivas para sua administração.

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Campinas, SP, 3 (AFI) – Se onde há fumaça, há fogo, o Guarani se tornou um verdadeiro inferno de chamas. Nesta noite o presidente da diretoria executiva, Álvaro Negrão, sem ver perspectivas para sua administração, renunciou ao cargo. Junto com ele saiu toda a diretoria, o que significa que o clube, mais uma vez, está entregue ao vento.

Por estatuto, quem assume a presidência de forma provisória é Paulo Souza, presidente do conselho deliberativo. Ele terá até 60 dias para convocar e promover uma nova eleição.

Há alguns dias já se comentava no assunto. Negrão viajou por duas semanas de férias com a família para os Estados Unidos, confirmando a pressão familiar para se afastar do cargo. Na verdade ele estava abandonado na presidência, sem apoio político e sem retaguarda financeira para cumprir com os compromissos mais urgentes do clube.

Renúncia assinada por Negrão e pela diretoria

Renúncia assinada por Negrão e pela diretoria

Tanto que nesta tarde era esperado que Negrão fosse pagar débitos com os jogadores, bem como cumprir um acordo firmado com o a comissão técnica, sob o comando de Vágner Benazzi, na semana passada.

BRINCO SERIA ÚNICA SAÍDA
Em dois anos este é o terceiro presidente a deixar o cargo. Antes deles tentaram comandar o clube o veterano Leonel Martins de Oliveira, que presidiu o clube nos anos 70 e 80, e depois Marcelo Mingone, de família tradicional na cidade.

Negrão estava no cargo há menos de um ano e também viu alguns pequenos grupos opositores inviabilizarem o que parecia ser a única alternativa para sanar com as dívidas estimadas em R$ 200 milhões, entre ações trabalhistas e encargos fiscais: a venda parcial ou total da área do Estádio Brinco de Ouro, pouco mais de 80 mil metros quadrados perto da região central de Campinas.

Um dos projetos era vender, para uso imobiliário, os arredores do Brinco, que seria destruído e em seu lugar construído um estádio bem menor, com capacidade de cerca de 20 mil torcedores. Mas este e outros projetos foram todos derrubados pelo conselho deliberativo, o que também inviabilizou qualquer “aceite” a eventuais propostas para a negociação.

CARTA EXPLICA SAÍDA

Álvaro Negrão, abandonado por todos, deixa a presidência do Guarani

Álvaro Negrão, abandonado por todos, deixa a presidência do Guarani

Negrão fez entregou uma carta renúncia no início da noite, alegando não ter condições de administrar o clube “diante das inúmeras campanhas que estão empreendidas (por pessoas) sem que o desejo seja de beneficiar o clube”. E completou:

“E tomara que outro grupo de torcedores possa, com maior peso político e financeiro, fazer do Guarani a administração profissional que se faz necessário”.

O ex-presidente comentou ainda que está pessoalmente esgotado e sem recursos para conduzir os destinos do clube. E ressaltou que “jamais usamos do cargo por interesses políticos”. Negrão citou ainda na carta de despedida que “muitos clubes tradicionais admitem até mais de três meses de atrasos salariais” e afirmou que, no momento, deixa um mês e meio de salários sem cumprir “efetivamente por falta de condições de levantar receita”.

CRISE INTERMINÁVEL

O Guarani brilhou no final dos anos 80 e 90 com o presidente Luiz Roberto Zini. Ele entregou o cargo, com problemas de saúda, em 1999. A partir daí, a administração ficou nas mãos de José Luiz Lourencentti, que além de não ter conhecimento na administração acabou se enfraquecendo com a Lei Pelé. Na época, a grande receita do Guarani, como dos clubes do Interior, era obtida com a venda de jogadores.

A administração Lourecentti “enterrou” o clube em ações trabalhistas e em dívidas até 2006. Mais recentemente, outros dirigentes tentaram resolver estas questões, como o ultrapassado presidente Leonel Martins de Oliveira, que também caiu, através de um impeacheament histórico.

Ainda mais perto, outro dirigente que presidiu o clube foi Marcelo Mingone, que trabalhou na base do clube com o próprio Leonel Martins. Na verdade, Mingone foi eleito sob a alcunha de Leonel Martins, segundo a oposição, para “encobrir a sujeira que havia ali dentro”. Quando se viu perdido politicamente, Leonel fez uma manobra e colocou Mingone na presidência. Ele presidiu o clube por um ano e meio, conquistando como melhor resultado o vice-campeonato paulista de 2012 – perdendo para o Santos de Neymar e Companhia.

Mas logo em seguida, Mingone também perdeu apoio político e fez algo pior ainda praticamente negociando os principais jogadores revelados no clube. Desta forma, teria “faturado” perto de R$ 5 milhões. O dirigente insistiu sempre em desmentir tal acusação dos opositores. POuca gente acreditou na versão dele.


CONFIRA O TEXTO INTEGRAL DA CARTA DE RENÚNCIA DA DIRETORIA EXECUTIVA

Prezados Torcedores, Associados, Conselho Deliberativo e Conselho Fiscal do Guarani Futebol Clube.

Assumimos a gestão do nosso amado Guarani Futebol Clube no último dia 1º de Abril de 2014 com esperança, ânimo renovado e a expectativa de, com nossos esforços, relacionamentos e toda a capacidade que reunimos ao longo de nossas vidas pessoais e profissionais, conseguirmos reverter o grave momento de crise financeira, administrativa e institucional que nosso Clube atravessa.

Inúmeras foram as vezes em que esgotamos todos os nossos limites na tentativa de suprir as necessidades sempre urgentes que nos apareceram no decorrer de todos os dias de nossa gestão.

Mas acima de tudo e de todos nós, entendemos que está o Guarani Futebol Clube, único motivo que nos uniu e promoveu o trabalho em conjunto por nós elaborado e por isso hoje, diante de todas as questões apresentadas por todos os Órgãos internos do nosso Clube e seus presidentes, infelizmente temos a comunicar que estamos apresentando nossos termos de renúncia do Conselho de Administração do Guarani.

Tomamos esta decisão diante das inúmeras campanhas que vemos neste momento em conjunto empreendidas e que, no nosso entendimento, visam tudo, menos a preservação da entidade que comandamos.

Envolvidos em uma interminável briga política, ora motivada pelo desejo do poder, ora motivada pelo desejo de representar interesses que em nada se alinham aos do Clube, entendemos que neste momento a melhor decisão a tomar é apresentar nosso pedido de renúncia imediata e em caráter irrevogável para que outros grupos de torcedores, afinal, todos somos apenas isso, meros torcedores, possam, detentores de maior estrutura, alinhamentos de parcerias e peso político junto à sociedade de modo geral, empreender ao Guarani a gestão profissional tão necessária.

Se o problema do Guarani Futebol Clube passa pelas pessoas que o comandam através de seu Conselho de Administração, neste ato abrimos mão de nossos cargos para que outras pessoas possam representar este Clube gigante da forma como ele deve ser representado.

Neste trabalho nós todos envolvemos esforços e recursos pessoais poupados aos longo dos anos de árduo labor que se esgotaram. Pessoalmente estamos esgotados, financeiramente esgotamos todos os recursos que tínhamos. Antes de recorrermos àquilo que muitos tratam como pejorativo, mas que manteve este Clube minimamente nos trilhos, os novos contratos de empréstimo, encerramos aqui a nossa condução à frente da gestão do Guarani Futebol Clube.

Apenas ressaltamos a todos que jamais utilizamos de nenhuma artimanha política ou desonesta. Utilizamos os poucos recursos que obtivemos para o fiel cumprimento das obrigações e pagamentos que o Clube exigia que fossem feitos. Conquistamos espaços, brigamos por estas cores, por nossa bandeira e pelo nosso distintivo, mas hoje, em nome de um Guarani maior, melhor e fortalecido, que passará a ser comandado por um grupo maior, mais articulado e que conta com o apoio em massa da maioria da nossa torcida, aqui abrimos mão de nossos cargos e prerrogativas estatutárias.

Agora nos juntamos a todos os torcedores na fiel expectativa e certos que, a partir deste nosso ato, as pessoas que tanto brigaram, se juntaram e se articularam para tornar a nossa gestão cada dia mais dificultada, finalmente se unirão em nome do Guarani Futebol Clube e garantirão o cumprimento destes compromissos. Temos certeza que parcerias financeiras estão garantidas, contratos estão elaborados e acordos estão encaminhados e que, com a nossa renúncia, um novo momento se iniciará no dia seguinte nesta entidade que tanto amamos e a qual tanto nos dedicamos, afinal, sem tais garantias não acreditamos que tamanho trabalho de bastidor fosse feito exatamente para acabar com a mínima estrutura que conseguíamos manter.

Antes de encerrar, lamentamos não ter conseguido cumprir com a integralidade dos compromissos que assumimos, mas ainda nos resta observar que, diante de todas as dificuldades vividas por absolutamente todos os clubes de futebol profissional deste país sendo de conhecimento público que clubes que disputam competições internacionais e a própria Série A do Campeonato Brasileiro admitem atrasos superiores a três meses de vencimentos, sejam em relação a salários em carteira e os contratos de direito de imagem, resta a nós esclarecer que, no Guarani Futebol Clube, atletas e comissões técnicas tem até este momento o equivalente a um mês e meio de atraso junto ao seu departamento de futebol profissional.

Apenas lamentando não termos conseguido antes de tomar esta decisão, cumprir com o pagamento que assumimos que minimizariam esta situação.

Todos, sejam atletas, comissões técnicas, departamentos de futebol amador e profissional e a eles se juntam os colaboradores contratados pelo Clube e seus prestadores de serviço merecem no mínimo, receberem pelos serviços que prestaram.

Nossos recursos se esgotaram, por isso aqui apenas agradecemos a todos aqueles que, de alguma forma contribuíram durante todo este período para que nossa gestão pudesse ao menos tentar enfrentar os problemas graves e sérios que o Guarani Futebol Clube atravessa. Não serão algumas pessoas que resolverão tais problemas, mas sim o envolvimento de todas as pessoas que amam este Clube e a ele dedicam seus pensamentos em todo momento.

Lamentamos e ao mesmo tempo renovamos aqui os votos de sucesso a todos os que nos sucederão.

Campinas, 03 de Setembro de 2014.

Álvaro Negrão de Lima

Felipe Ramos Roselli

Adriano Hintze

Maria Cristina Orlando Siqueira