Nilson Ribeiro: A alquimia de Muricy

A chegada de Muricy é a única explicação para reação do São Paulo? Veja a opinião do colunista FI!

Alguns torcedores mais exaltados já falam numa subida na classificação em direção ao cobiçado G4. E, claro, apontam a competência do técnico Muricy Ramalho como responsável pelo novo momento. Calma lá!

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A torcida tricolor paulista está comemorando a arrancada de seu time no Campeonato Brasileiro depois de um período de maus resultados consecutivos. O São Paulo, com duas vitórias, deixou a zona de rebaixamento. Alguns torcedores mais exaltados já falam numa subida na classificação em direção ao cobiçado G4. E, claro, apontam a competência do técnico Muricy Ramalho como responsável pelo novo momento.

Calma lá! Ninguém em sã consciência vai me provar que em duas semanas de trabalho um técnico pode realmente transformar chumbo em ouro somente por arrumar melhor um time em campo ou encontrar uma escalação perfeita que outros profissionais que passaram pelo comando não enxergaram. O caso da recuperação do São Paulo FC – que ainda precisa ser confirmada nas próximas rodadas para fazer jus ao clamor otimista de sua torcida – é mais um entre tantos que já aconteceram no decurso da história e que merece uma observação menos apaixonada.

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Vamos raciocinar juntos. Quais são os fatores determinantes para que um time seja vitorioso? Primeiro, claro, um bom elenco. Ninguém é capaz de tirar leite de pedra ou fazer omelete sem ovos. Clubes que são rebaixados, via de regra, possuem um elenco abaixo da média, geralmente com um grupo jogadores operários mas sem aqueles que realmente fazem a diferença.

É o caso de nossa gloriosa Ponte Preta neste campeonato, candidatíssima à série B. Não o São Paulo. O elenco do tricolor é forte. Pode-se até dizer que alguns jogadores ainda não renderam o que podem. Mas dizer que um elenco que possui Ceni, Jadson, Ganso, Oswaldo, Luís Fabiano, Wellington e até o afastado Lúcio, entre outros bons nomes, seja um grupo fraco, é contrassenso.

Outros fatores contribuem, porém, para uma campanha vitoriosa. O preparo físico é um deles. Nesse aspecto, parece que grande parte dos times já aprenderam e fazem certo a lição de casa. Importante também é o bom momento de seus principais jogadores. Isso faz a diferença. Porque ninguém rende 100% o tempo todo. Até Pelé teve seus dias de Ditão! Mas, na minha opinião, os dois fatores mais importantes são confiança e sorte.

Foi sorte que faltou à Seleção de Telê em 82 para trazer o título para casa. Sorte que sobrou a Paolo Rossi e à Itália naquele fatídico jogo. A imagem de Júnior, desesperado, levantando a mão, pedindo impedimento de Rossi no terceiro gol é emblemática. Parecia dizer: “Deus, faça que isso não seja verdade!”

E confiança é a base sobre a qual é possível se construir um time vencedor. E é aí que entra a magia alquímica de Muricy Ramalho no São Paulo. Ninguém mais se lembra que ele saiu enxotado pela torcida há alguns meses. Existe uma identificação profunda do treinador com o clube e com o torcedor. E seja lá o que ele tenha dito a seus comandados, parece ter dado resultado. Essa confiança que Muricy inspira somada a um pouquinho de sorte pode tirar o São Paulo do indevido buraco onde havia se metido.

E a sorte parece começar a sorrir para os lados do Morumbi. Contra a Ponte Preta e Vasco foram jogos muito parelhos, equilibrados, mas com um pouquinho de sorte, lá estava o São Paulo levando os três pontos para a casa. As vitórias alimentam a confiança, e a confiança alimenta o bom rendimento dos jogadores e, consequentemente, do bom time que o são Paulo possui.

Não é o trabalho de Muricy, nem sua competência (que é real) que, neste momento, está fazendo reluzir o brilho oculto que o São Paulo já possuía. É a relação afetiva que tem com o clube e a confiança que ele inspira em seus comandados. Não vai durar a vida toda. Mas como tratamento de choque parece perfeito.