Nilson Ribeiro: Triste “futebol de resultados”

Um manifesto contra o futebol medroso e uma pegada no pé do técnico Renato Gaúcho

Até pouco tempo, Galvão Bueno costumava dizer, sobre seleções “retranqueiras” que jogavam contra o Brasil: “jogam alguma coisa parecida com futebol”.

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ALÉM DAS LINHAS
Nilson Ribeiro

Até pouco tempo, Galvão Bueno costumava dizer, sobre seleções “retranqueiras” que jogavam contra o Brasil: “jogam alguma coisa parecida com futebol”. O mesmo comentário era repetido exaustivas vezes, como é costume de Galvão, para que o torcedor brasileiro pudesse concluir que quem praticava o verdadeiro futebol era a seleção canarinho, tentando furar ferrolhos irlandeses, suecos, escandinavos. Ah, como os tempos mudam.

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Tentando acompanhar o triste Campeonato Brasileiro da “Série A”, vejo melancolicamente proliferar o futebol de pernas bambas, medroso, aferrolhado, de treinadores mais preocupados com seus bons empregos e gordos salários do que oferecer ao respeitável público um pouco de espetáculo, que é, em última análise, na minha opinião, o que deveria oferecer o futebol.

Como sempre, temos as honrosas exceções. O Cruzeiro tem jogado o fino. O Atlético Mineiro, de Cuca, perdendo ou ganhando, mantém seu futebol leve em busca do gol adversário. E até a Lusa, mesmo tomando uma saraivada do Cruzeiro, não perdeu a linha e apresenta um futebol gostoso de se ver, vertical, estocando o adversário todo o tempo.

Já na escola do futebol sem inspiração, o aluno mais aplicado neste momento é o Grêmio, de Renato Portalupi. O treinador gaúcho levou sua cara de bom moço recuperado para desfilar no programa “Bem Amigos”, na última segunda-feira. No discurso bem afiado, a resposta pronta para qualquer ataque dos participantes da mesa:

“O Grêmio pratica um futebol de resultados. Meu time é vice-líder da competição”.

Que me desculpe Renato “Portaluvas”… O Grêmio pratica aquilo que Galvão sempre chamou exaustivamente de algo “parecido” com futebol. Triste. A derrota para o Criciúma dentro de casa na última rodada mostra a fragilidade de quem, por livre vontade, decide manter-se na UTI o tempo todo contra os adversários, esperando um milagre para somar os pontos. Ficou na UTI contra São Paulo, contra Botafogo… acabou não resistindo.

Renato “Portamalas” pode ter bom discurso e bons motivos para “primeiro não tomar gols, e, se der, fazer um”, como mostra sua estratégia escandinava. Mas o Grêmio transformou-se em time proibido para torcedores cardíacos.

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Há pouco tempo, o todo poderoso Corinthians também se vangloriava desse “futebol operário”. Mas a completa falta de inspiração do time tem irritado seus torcedores, que já não vêm graça nenhuma em jogar para não perder. Tite e Renato “Guadalupi” adoram os “jogadores que assumem várias posições no time”, ou “atacantes que voltam para marcar”, ou ainda “atletas que se desdobram pelo jogo em equipe”.

A tradução dessa retórica é “futebol medroso”. E se isso é futebol moderno, prefiro o antigo. Prefiro me lembrar dos grandes jogadores cerebrais, inteligentes, que faziam a bola trabalhar ao invés de ficar feito vaca-louca correndo o campo todo, ajudando na marcação, se entregando e suando sangue em campo. A camisa de Zidane saía sem suor do campo. E se um treinador pedisse a Zizu que ajudasse a marcar, certamente teria que se contentar com um sorriso irônico do craque.

Maradona só arrancava se fosse na direção do gol. Assim como Sócrates, Gerson e uma lista longa de craques que não caberiam hoje no fenomenal time de Renato “Guardanapo”. Assim como não cabe o craque Zé Roberto, o melhor que o Grêmio possui a título de elegância em campo.

Sou saudosista. Talvez não exista mesmo mais espaço para espetáculos no Brasil. Treinadores que sofrem três derrotas seguidas ficam com empregos ameaçados. Muitos torcedores cobram apenas resultados. Quanto a mim, tenho mais respeito e saudade da seleção de Telê que perdeu a copa de 82 do que de todas as seleções montadas por Parreira, mesmo que tenha levantado título.

Vejo futebol pelo espetáculo e não pelo resultado. Quero meu time jogando em busca do gol, em qualquer divisão. Não engulo os argumentos de Renato “Guarda-roupa”. Mas não sou treinador da primeira divisão, e, portanto, não sei o que é perder um emprego de muitos milhares de reais por mês. Deve ser triste. Tão triste quanto o futebol apresentado por esses profissionais na tentativa de garantir seus empregos.