Ponte Preta ainda arrebenta com o coração da septuagenária Conceição

Torcedora símbolo sofrerá sozinha no duelo contra o São Paulo nesta quarta

0002048133874 img

Campinas, SP, 27 (AFI) – Imaginem quem já se sacrificou viajando em porta-malas de um automóvel Opala para assistir à uma partida da Ponte Preta em Bauru. Em 1980, imaginem quem, pouco menos de uma hora da madrugada de uma quinta-feira, sem o jantar, ‘matou’ a fome através de um pão com manteiga e pingado na estação rodoviária de Marília, após derrota da Ponte Preta.

Imaginem quem esperava a chegada dos representantes da arbitragem no portão correspondente do Estádio Moisés Lucarelli para cobrá-los acintosamente sobre atuação decente. Imaginem quem só faltava morder o alambrado quando o bandeirinha marcava impedimento inexistente do ataque pontepretano. Imaginem quem fazia rifa pra se programar em viagens dos jogos da Ponte Preta.

Imaginem quem um dia foi questionada pelo marido pra responder ou ele, ou a Ponte Preta, e a destemida torcedora respondeu de boca cheia: a Ponte Preta.

0002048133915 img

Não imagine mais. Aquela Maria Conceição Rodrigues, que fazia coisas que até Deus duvidava já não tem saúde para aquelas maluquices. Nem por isso ela perdeu a fé de um dia ver a sua amada Ponte Preta campeã.

Por isso, este 27 de novembro amanheceu bem diferente para ela. O sonho de a sua Ponte Preta avançar à final da Copa Sul-Americana se misturou com o medo de mais uma das incontáveis decepções que o time lhe provocou ao longo do acompanhamento do clube, que data de 1954.

“Ari, será que a Ponte ganha?”

Outrora esta torcedora símbolo da Ponte Preta jamais deslizaria para o condicional. Diria “nós vamos ferver pra cima deles”.

AVC
Hoje, aos 75 anos de idade, a saúde debilitada tirou-lhe certezas do passado, e por isso acordou já aflitiva nesta quarta-feira. O filme do AVC (Acidente Vascular Cerebral) há três anos voltou-lhe à cabeça, e com ele as lembranças de como a sua vida mudou de lá pra cá.

“Foi num final de tarde de sábado que eu caí em frente à porta de minha casa. Desmaiei. Só fui saber aquilo que tinha acontecido comigo a cerca de cinco meses depois”, foi o início da narrativa.

0002048133874 img

O lado direito do corpo de Conceição ainda está paralisado e por isso ela só se locomove numa cadeira de rodas, transportada excepcionalmente para assistir jogos da Ponte Preta no Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas.

“Veja como minha perna direita tá fininha. E hoje ela tá doendo”, aponta. Apesar disso, o andador lhe ajuda a se manter em pé por alguns segundos.

“Tenho fé em Deus que ainda vou voltou a andar. E vou ferver naquele campo da Ponte”.

Duas vezes por semana uma fisioterapeuta a visita em sua residência no condomínio Sírios, na Vila Padre Manoel de Nóbrega, e coloca em prática exercícios especializados que asseguram gradativa recuperação.

– Mãeêêê! – foi o grito surpreendente para a babá Cida, que a acompanha diariamente na residência

– Como é o nome da moça que trata de mim?”

A mãe é um tratamento carinhoso à babá, solícita a qualquer pedido.

Grata àqueles que lhe estenderam a mão no momento aflitivo, Conceição faz questão de citar o presidente licenciado da Ponte Preta, Sérgio Carnielli (foto acima), que até então, anonimamente, bancava o tratamento médico. A gratidão também é extensiva ao ex-presidente Lauro Moraes Filho, segundo ela quem a ajudou na aquisição do apartamento.

“Eu rezo bastante pro doutor Lauro de Moraes. Se não fosse ele eu não teria isso aqui”.

Pelé e Romário
Com o seu jeito original e a singularidade como propagava o nome da Ponte Preta, Conceição passou a ser respeitada e admirada por jogadores de equipes adversárias, tanto que já foi presenteada por Pelé e Romário com as respectivas camisas.

0002048133916 img

Aí, a fala é cortada pelo choro. A dor n’alma é intensa quando lembra que toda coleção de camisas ganhadas de jogadores da Ponte e dos outros clubes desapareceu durante o período de UTI e internação hospitalar. (veja áudio e vídeo com as explicações).

De lembranças de brindes ou objetos alusivos à Ponte Preta restou apenas uma xícara de café com emblema do clube, que gentilmente oferece aos visitantes.

Não fosse a mesquinharia dos cartolas do São Paulo de tirarem a partida de Campinas, muito provavelmente o fanático pontepretano Mineirinho se incumbiria de levá-la pra vibrar com a Ponte neste jogo decisivo contra o São Paulo.

“Aviso que o meu jogador preferido na Ponte é o Baraka, porque ele dá o sangue”.

De certo esta opinião dela é compartilhada por parte significativa dos torcedores pontepretanos que cobra entrega total dos jogadores em qualquer circunstância.

‘Meus meninos’

Apesar da predileção por Baraka, Conceição ainda identifica indistintamente os atletas de sua equipe como “meus meninos”.

Em Mogi Mirim, assim como nos jogos fora de Campinas, Conceição recorre ao radinho de pilha ou televisão para acompanhar jogos da Ponte Preta. E na noite desta quarta-feira, já avisou que não quer companhia.

“Vou sofrer sozinha com a minha Ponte Preta”.