Nilson Ribeiro - Era romântica do futebol vai deixando um profundo rastro de saudade
A molecada de hoje só pode ver as jogadas geniais de Eusébio por DVDs
A nova geração, semeada na terra dos aparelhos e jogos eletrônicos cada vez mais excitantes, regada a aplicativos de última geração para androides e rodeada de muita música, comida e filosofias descartáveis e de qualidade duvidosa (para dizer o mínimo!) certamente não conheceu pessoalmente alguns dos maiores craques do futebol brasileiro e mundial, quando esse esporte ainda proporcionava espetáculos memoráveis, verdadeiras óperas, clássicos inesquecíveis.

É possível conferir um pouco disso em antigas gravações, hoje já remasterizadas em modernos DVDs em HD (sim, porque a evolução também tem boas coisas). Algumas dessas gravações guardam as memoráveis partidas das copas do mundo das décadas de 60 e 70.
Através dessas gravações, aqueles que não conhecem podem ser apresentados a um jogador extraordinário, de uma elegância ímpar e de Inteligência muito acima do normal. Seu nome, Eusébio, o Pantera Negra, craque português nascido em Moçambique.
Ele levou a Seleção Portuguesa ao terceiro lugar na Copa de 66, depois de eliminar a poderosa artilharia brasileira pelo caminho. Os que conheceram o craque vão sentir certa melancolia e uma profunda tristeza pela perda desse grande homem, que nos deixou no último final de semana.
Eusébio é de uma época em que a bola corria mais que os jogadores no campo, muito diferente de hoje, onde, pelos campos, há muitos mais atletas que jogadores de futebol. Era um tempo onde havia espaço para a habilidade e inteligência.
Desfilavam Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Bobby Charlton ao lado de Gérson, Tostão, Jair, Rivelino, Clodoaldo, Pelé… Cada partida, mesmo contra equipes menos credenciadas, era uma certeza de espetáculo. Jogadores de cabeça erguida, divisando o gramado sob uma perspectiva especial, lendo cada jogada como se fosse um roteiro de Fellini.
Sempre houve jogadas duras, mas muito poucas vezes desleais. Havia uma certa cordialidade implícita, um respeito ao adversário e ao público. As torcidas ainda conviviam pacificamente e iam aos gramados de terno e gravata. Porque um jogo de futebol era um espetáculo, como uma sinfonia, uma obra de arte a ser admirada.

Ainda podemos ver nesses DVDs as mulheres com seus vestidos e chapéus floridos e uma alegria inocente no rosto de cada um desses maravilhados torcedores.
Há muito que esse tempo se foi. E agora seus mais autênticos representantes estão nos deixando. Garrincha, Nilton Santos, Djalma Santos, Eusébio… Fico assistindo aos jogos da Copa São Paulo procurando reencarnações de alguns desses craques.
Por vezes noto características especiais neste ou naquele garoto. E fico pensando que infelizmente não há mais espaço para esse tipo de jogador lúcido, elegante, inteligente. O futebol não permite mais um segundo de lucidez. Craque hoje precisa somar a tudo isso muita força física e velocidade, não só de raciocínio, mas nas pernas também. Porque há sempre um volante ou zagueiro duro pronto para afiar a botina na canela do adversário. Uma pena.
Sou um romântico. Sinceramente não me agrada esse futebol truncado, de muita força física e desempenho atlético. Mas sei que o tempo não anda de ré.
Vamos nos conformando com um pouco de brilho nos pés de Neymar, de Messi, Cristiano Ronaldo, PH Ganso. Um pouco do reflexo das grandes estrelas de primeira magnitude que vão aos poucos povoando as constelações de craques nos céus. E que agora possui mais uma estrela, uma estrela negra: Eusébio.





































































































































