Nilson Ribeiro: Os craques também choram
As lágrimas de Cristiano Ronaldo e Pelé na cerimônia da Bola de Ouro demonstram a sensibilidade dos fortes
As lágrimas de Cristiano Ronaldo e Pelé na cerimônia da Bola de Ouro demonstram a sensibilidade dos fortes
Meu pai bem que tentou, quando eu era ainda um garotinho com o joelho esfolado e um pedido de socorro nos olhos umedecidos pela dor e pela frustração. Mas ele mesmo, no final da vida, também virou um chorão. Com os netos no colo, ou surpreendido por uma homenagem, o velho deixava escapar suas tão fortemente aprisionadas lágrimas. Eu também derrubei muitas quando ele se foi…

Chorar é do homem. Os verdadeiros homens choram. Fortes são aqueles que não temem demonstrar suas emoções, seus medos, suas confusões, ansiedades, fraquezas, sombras, dores, tristezas… Mais fortes ainda são os que, apesar dessas tantas pedras, mantêm firme sua caminhada sobre esta terra de mistérios. Chorar é para homens corajosos.
Vendo as lágrimas de Pelé e Cristiano Ronaldo, transmitidas para milhões de telespectadores e fãs espalhados pelo mundo todo, tive uma ponta de esperança renovada na condição humana.
Quem sabe a emoção desses dois ícones do futebol possa amolecer, que seja um tantinho, corações ainda empedernidos de muitos homens e mulheres que julgam a demonstração pública de sentimentos uma espécie de fraqueza humana.
Está mais do que na hora dos verdadeiros valores serem cultivados nos corações das pessoas. Se temos os sonhos de deixar um mundo melhor para nossos filhos é melhor que também nos esforcemos por deixar filhos melhores para este mundo. E a sensibilidade é uma das principais forças matrizes para a construção de um futuro menos opressor. A sensibilidade é, em últimaanálise, responsável pela compaixão, pela generosidade, pelo reconhecimento do outro.
E encontrar e acolher o outro é um bom caminho para conquistar alguma felicidade. Creio muito nisso. Pelé e Cristiano não precisam de reconhecimento público. Eles sabem quão diferenciados são. Pelé é o craque de todos os tempos e certamente não é uma bola de ouro que vai acrescentar qualquer láurea às credenciais que ele já possui. Ronaldo sabe que é um jogador espetacular, extraordinário. A nenhum dos dois uma “Bola de Ouro” é necessária para que sejam reconhecidos. De onde vem, portanto, essa emoção? É fácil.

Os homens Edson Arantes e Cristiano Ronaldo jamais deixaram de ser crianças. Nós nunca abandonamos, em nossos corações, os sonhos que semeamos na infância. Ronaldo agradeceu à mãe presente. Pelé, certamente, viu o velho Dondinho sorrindo em algum lugar, prenhe de orgulho de seu filho-rei.
Quase todos nós (senão todos!) passamos a vida buscando o olhar de admiração de nossos amados. É para eles, pais, mães, filhos, irmãos, amigos e companheiros, e por eles, que travamos a batalha diária de nos tornarmos pessoas melhores. Queremos aquele sinal de aprovação, uma leve oscilação da cabeça, um sorriso de orgulho. Freud tentou explicar. Só tentou.
É bom que possamos e saibamos chorar. É muito bom que grandes ídolos chorem em público e que isso não seja mais tomado como uma demonstração de fraqueza, e sim de um recurso a mais dos homens de coragem. Por tempo demais ficamos aprisionados nos velhos conceitos de que o homem forte precisa ser uma rocha. Uma bobagem que certamente engessou a felicidade de muitos.
Um homem pode ser um rio e refletir tudo à sua volta. Refletir sol nos dias claros, nuvens densas em dias de tempestades. E fluir, junto a uma lágrima tranquila, sem esconder nada, sem culpa, sem nunca mais precisar aprisionar as emoções que fiam o verdadeiro tecido da vida.





































































































































