Nilson Ribeiro: Todas as Copas do Mundo por uma vida

Uma reflexão sobre futebol e as difíceis questões sociais – e íntimas – que enfrentamos

Foi com pesar e estarrecimento que acompanhei o noticiário das 12 mortes dos jovens campineiros na semana passada. E foi com estarrecimento igual que notei o fato de que, para alguns organizadores da Copa do Mundo, a repercussão negativa.

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Foi com pesar e estarrecimento que acompanhei o noticiário das 12 mortes dos jovens campineiros na semana passada. E foi com estarrecimento igual que notei o fato de que, para alguns organizadores da Copa do Mundo, a maior preocupação foi com a repercussão internacional da chacina.

Chamei Edmundo, nosso cão aqui de casa, de lado e disse a ele:

“Amigo, tem algo muito estranho acontecendo com algumas pessoas. Doze jovens vidas são tiradas a sangue frio e eles estão ainda preocupados com a Copa do Mundo!” .

Edmundo me olhou desolado.

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Não vou entrar no mérito. Quem eram, o que faziam. Já disse muitas vezes que não levanto mais bandeiras.

Acredito que a mudança que esperamos não virá de fora, da boa vontade daqueles que elegemos ou do sistema político que adotamos no país. Não virá de uma revolução social ou das demandas econômicas dos países ricos que esmagam vergonhosamente o resto do planeta. Porque o cerne, a motivação central mora em outras paisagens mais ocultas, onde raramente procuramos ou queremos olhar.

Uma verdadeira mudança precisa vir do centro, de dentro, do íntimo de cada um de nós. E é exatamente para esse lugar que evitamos tanto voltar nossa atenção. Porque tememos ver o que não queremos.

É lá que mora nossas mesquinharias, nossa pequenez, nossa confusão, nossa guerra pessoal. Mas também é onde reside nossa real força de transformação, nossa grandeza e nossa lucidez. Temos um enorme medo de olhar para dentro.

Quando exercitamos essa prática, vamos reconhecer, por exemplo, nossa imensa parcela de culpa em desmandos como essa horrível chacina nos bairros de Campinas. De certa forma permitimos que isso aconteça.

De certa forma, quando evitamos olhar para o quanto queremos arrastar a melhor sardinha para o nosso belo prato, é porque sabemos que esse tipo de ação desencadeia, num processo intrinsicamente nocivo, aquilo que classificamos como desigualdade social. E essa desigualdade leva, somada a outras causas e condições, à existência da marginalidade, por exemplo. E depois dizemos:

“Eram apenas marginais!”. Quanta inocência!

Ok. Vamos olhar para qualquer outro lado e tentar esquecer que de alguma forma apertamos alguns gatilhos. Afinal, este é o país de futebol. Vamos nos postar em algum dos lados, contra ou a favor dessa chacina (porque eu sei que existem os que são a favor). Temos bons argumentos para sustentarmos nossas teorias. Temos nossas grandes hipóteses e um ponto de vista cirúrgico sobre a questão.

Eu não consigo fazer isso.

Eu não sei para onde estamos indo. Eu não sei o que dizer aos meus filhos. Eu não consigo explicar nada. Eu olho no espelho e me pergunto o que mais eu posso fazer para evitar que jovens caiam na marginalidade, que crianças encontrem na droga o único refúgio para suas dores e dificuldades, que pais abandonem seus filhos à qualquer sorte.

Mas eu não encontro respostas. Eu vejo no espelho um homem entristecido com essas perdas. Um homem que, se tivesse essa força, barganharia todas as taças e copas do mundo pelo poder de trazer de volta uma única dessas vidas que fosse. Qualquer uma, por mais errática que pudesse ser.

Eu olho para o nosso cão Edmundo…. Eu estou tão desolado quanto ele.