Homens de coragem e homens de covardia. Qual é o seu lobo?
Por que podemos expressar a força da dignidade e superação mas também o olhar nocivo do preconceito?
Eu havia me decidido a não escrever sobre os novos casos de preconceito e racismo que estamos acompanhando na mídia esportiva. É tão hostil e violento, é tão ultrapassado e baixo, tão sem propósito que decididamente não deveríamos mais estar falando sobre essa questão. Me enoja o ser humano preconceituoso, seja qual for o alvo de sua ira. Mas, quando vi os competidores do Cross Country nas Paraolimpíadas de Inverno, pela tevê, não pude resistir.
Explico.

Sem os movimentos da cintura para baixo, 21 competidores percorreram 15 quilômetros (!!!) esquiando apenas com a força dos braços. Fiquei assistindo a esse espetáculo sem conseguir me desligar um minuto da tela. Estava boquiaberto, emocionado, num estado de admiração profunda pelo potencial humano.
Que homens são esses que vencem todas as barreiras, que superam todos os obstáculos, que vão além de qualquer impensável força humana? Me dei conta que são seres humanos, extraordinários sim, mas ainda assim seres humanos, como eu, como você, como o ridículo torcedor que se esconde entre iguais para ofender um atleta por causa da cor da sua pele.
Então não pude deixar de refletir. O que faz com que um ser humano possa demonstrar tanta dignidade, força, capacidade de superação e um outro, da mesma espécie, demonstre apenas sua mediocridade, sua visão limitada da vida e do mundo, sua total falta de inteligência e bom senso?
Quando olho nos olhos de outro homem vejo um igual.
Vejo um ser repleto de sonhos e de obstáculos comuns à jornada comum sobre este planeta. Vejo alguém capaz de sorrir e chorar, de se enganar sobre muitas coisa, de vibrar com seus êxitos. Se prestar mesmo muita atenção, vejo a mim mesmo, com outros olhos, outros traços, outra estatura e cor de pele. Mais músculos ou menos cabelos, um carro melhor ou apenas os pés doídos e descalços da estrada.
Enxergo claramente minhas dúvidas, meus anseios, minhas angústias, meus medos, minha esperança naquele ser diante de mim. Vejo isso nos meus filhos, nos meus amigos, nas pessoas que passam por mim pelas calçadas. E se me demoro um pouco mais, se aprimoro um tanto a minha visão, vejo o sagrado.
Então, quando assisto esses caras chegando ao limite de suas forças (nem sei se pelo país e bandeira que defendem, se pelo puro prazer de superar esses obstáculos ou por qualquer outro motivo desconhecido e muito pessoal), mas quando acompanho esses atletas vencendo cada metro de neve com todo esforço, também me vejo neles. Sei que essa capacidade também repousa em algum lugar em mim, e basta eu me esforçar para encontrá-la. Somos o mesmo tecido.
Mas quando me chega a notícia de que alguém foi hostilizado pela sua cor de pele, pela sua preferência religiosa ou sexual, pela sua posição social ou compleição física, chego a não querer acreditar que esse ofensor também seja meu espelho. Mas o fato é que ele o é.
E daí passo a procurar em mim mesmo também essas preferências ocultas, esse olhar nocivo, algum preconceito muito escondido em minhas opiniões. Vigio cada pensamento, cada certeza, cada argumento. E se, em algum lugar desse pequeno espaço que ocupo no universo, encontro qualquer semente de preconceito, trato de extirpá-la imediatamente.

Então, na igualdade que me une aos seres humanos, caminham juntas a capacidade extraordinária de superação e incapacidade absurda de não saber respeitar as diferenças. A força da determinação de vencer os mais incríveis obstáculos e covardia inacreditável que pode se revelar no olhar preconceituoso.
São como, numa antiga lenda indígena, os dois lobos que habitam nossa alma: o lobo da luz, da generosidade, da sabedoria e da lucidez e o lobo das sombras, da arrogância, da violência e da estupidez. São lobos que lutam na nossa consciência dia e noite.
Quem vence?
O lobo que alimentamos!





































































































































