Copa, razão e desejos
Tudo que eu gostaria nesta véspera da Copa do Mundo é estar redondamente enganado
Tudo que eu gostaria nesta véspera da Copa do Mundo é estar redondamente enganado
Razão. Há quem não economize forças para possuí-la. A razão dá um certo sentido às próprias convicções. E convicção é aquele cordão frágil onde costumamos dependurar as certezas ainda mais frágeis que, somadas, resultam em nossas fragilíssimas verdades.
Tudo é pó.
Nas portas da abertura da Copa do Mundo existem grupos distintos defendendo suas verdades, suas convicções, suas razões. O batalhão dos críticos e o pelotão dos defensores. Em jogo, muito mais que uma taça. Mas, sim, a dignidade, reputação e competência de um governo.
Não se engane, amigo. Todos eles possuem um cabedal de bons argumentos para sustentar suas razões, sejam esses argumentos reunidos através de notícias duvidosas, advindas de fontes maculadas pelas intenções (conscientes ou não) ideológicas, políticas, puristas ou mal intencionadas; ou apenas animados por um sentimento pessoal, uma sensação estranha na boca do estômago, como, réu confesso, é meu caso, já que não acredito em fonte nenhuma e não tenho a capacidade de checar, in loco, cada um dos fatos que poderiam me dar um julgamento no mínimo mais fundamentado.
Não estou bem informado. Mas sinceramente acho que a única diferença entre eu e aqueles que se consideram bem informados – seja lá o lado que estejam desse cabo de guerra – é que eu sei que não estou bem informado.
Amigos que me admiram – e que eu admiro profundamente – têm me criticado por esse posicionamento. E as críticas chegam dos dois lados do cabo de guerra, como se eu tivesse que me decidir se tudo está bem ou não no país da Copa do Mundo. O fato é que não sei. Mas as críticas não me incomodam, uma vez que mantenho minha consciência em paz e minha disposição em ouvir todas as opiniões, sem julgamento prévio.
O amigo jornalista competentíssimo João Paulo Soares me disse que parou de ler minha coluna no momento em que eu revelei “não estar bem informado” sobre certos assuntos da Copa. Bem… A não ser que alguém tenha saúde, disposição e acesso a todas as obras, orçamentos, prazos, projetos e tantas outras informações e demandas, não sei como se pode estar realmente bem informado, uma vez que absolutamente tudo pode ser manipulado de uma ou outra maneira.
Outro jornalista e quase irmão, Marcos Capitão, me diz que, fora o “mea culpa”, nada de coerente pode ser encontrado em minhas últimas colunas. Mas se estão procurando coerência, é bom mesmo procurar em outro lugar. Minha razão é patética. Assino minhas colunas, dou a cara a bater (para os dois lados) e minha linha de raciocínio não tem compromisso senão com minha forma de ver as coisas, seja essa forma coerente ou não. Não sou dono de verdade nenhuma. E nem reverencio quem se arvora em possuí-la.
Tudo ainda é pó.
Meu grande amigo João Bid faz coro comigo quando digo que a nossa seleção não possui um único jogador com a inteligência e lucidez de PH Ganso. Me diz que sua seleção teria Ganso e mais 10. A minha também. Mas o admirável jornalista Carlo Carcani Filho diz que Ganso está longe do nível dos selecionados por Felipão. E diz ainda que é normal o futebol sem inspiração apresentado pela Seleção Brasileira contra a Sérvia nesta fase final de preparação. Respeito Carcani.
Aliás, um grande companheiro, fanático por futebol, foi assistir ao jogo entre Brasil e Sérvia. Joguinho sofrível. Seus relatos me preocuparam. Não sobre a atuação pífia dos brasileiros. Mas sobre a organização geral. Os lugares numerados não foram respeitados e o pessoal de orientação se limitava a mandar o torcedor “se virar” para encontrar alguma cadeira vaga. Além disso, ainda segundo ele, torcedores sérvios foram hostilizados por brasileiros, que ordenaram que fossem retiradas as bandeiras adversárias, sob pena de rolar porrada. Coisa feia.
Por outro lado, tenho visto e ouvido jogadores estrangeiros e a imprensa internacional elogiar as acomodações e os centros de treinamento, além da recepção calorosa da torcida brasileira. Coisa bonita de se ouvir e ver.
Mariana Rivas, menina que vi crescer, e que agora bota a boca no trombone num importante blog, escreveu um belo artigo defendendo a Copa do Mundo, acima dos interesses pessoais, ideológicos e políticos. O publicitário Wagner Bastos, muito apropriadamente, citou a mim e meu amigo Benedito, que cuida de suas vacas aqui no pasto, para dizer que está “desarmado” para acompanhar a Copa do Mundo, apesar de tudo que tem visto de inapropriado em todo processo. Moniquinha, que é quem manda aqui em casa, torce o nariz para os gastos na Copa e não acha que haverá um grande legado após o evento. Mas o pediatra do meu filho entende que o povo brasileiro vai aprender a exigir hospitais e escolas no “padrão Fifa”. “Nossa gente descobriu que pode haver um padrão mais elevado. É um bom legado”, diz ele.
Não são exatamente grandes formadores de opinião. São meus amigos queridos. Pessoas que admiro. Pessoas por quem colocaria a mão no fogo. Gente do mais alto nível de dignidade, honradez, inteligência, de quem só posso respeitar a opinião. Todos, portanto, sob meu incoerente modo de ver, estão com a razão!
Quanto a mim, continuo com um nó na boca do estômago. Não estou feliz com o processo todo. Tenho a triste impressão que foi gasto demais. Tenho essa impressão que algumas obras importantes e prometidas não foram entregues completamente, ou sequer iniciadas. Acho nosso time abaixo do nível e que não temos um jogador cerebral em campo, e por isso vamos sofrer com um time completamente dependente de Neymar, que é craque, mas não é mágico. E que não vamos vencer a Copa em casa.
Mas, amigos, juro que quero estar enganado. Não quero ter razão! Quero que a Copa seja um sucesso, que seu legado seja importante para nossa gente, que seja provado que todas as obras prometidas foram entregues e executadas com total lisura. E, claro, que o Brasil apresente um lindo futebol e seja campeão aqui em casa.
Minha razão é meio patética. Mas meu coração, de tão teimoso, é mais bobo ainda…





































































































































