O futebol brasileiro e a vaca morta
Talvez seja o momento de enterrar a nossa paixão para que outras possam ocupar o seu lugar
Mas talvez ao invés de ficar tentando ressuscitar nosso moribundo futebol, o melhor seja mesmo deixa-lo morrer em paz, por tudo de bom que já nos proporcionou.
Estive pensando sobre uma forma que poderíamos todos nós trabalhar no sentido de resgatar a grandeza e a alegria do futebol brasileiro. É bastante óbvio a todos que o nosso desgastado e corrompido futebol anda moribundo. Basta assistir aos jogos do Brasileirão com algum critério crítico. Tirando uma boa atuação de Conca (que é argentino!) aqui, um passe genial de Ganso acolá, um ou outro lance menos enfadonho, o fato é que está tudo muito chato. Todos também sabem onde mora o cerne da doença que enfraquece e mata o nosso futebol, um câncer alimentado pela ganância e pelo poder. Então, refletia eu buscando uma maneira de ajudar o nosso futebol a se curar.
Contudo, num segundo momento, aprofundei o questionamento: será que é realmente bom para o Brasil ressuscitar seu futebol? Por muito tempo fomos somente o “País do Futebol”. Tempo demais. As outras modalidades esportivas tiveram que muito lutar, saltar, remar, suar muito sangue para conquistar algum lugar ao sol. Temos hoje um voleibol com muitas conquistas, o melhor do mundo. Um basquete com craques na NBA e um campeonato brasileiro bastante forte. Temos judocas sensacionais, nosso handebol cresceu e já é campeão mundial no feminino. Nosso atletismo, vira e mexe, apresenta alguém que nos orgulha. Assim como os esportes à vela, o boxe e ainda outros. Mas o grosso da grana toda está ainda no futebol. O nosso circo é o futebol. Ainda.
Seria muito interessante que os investidores se voltassem para outras modalidades. Quando o futebol finalmente for enterrado, talvez outros esportes possam ganhar mais notoriedade. Talvez algumas grandes empresas direcionem o investimento para as praças esportivas, onde jovens talentos possam surgir, treinar, se aperfeiçoar e nos trazer muito mais alegria que o pobre futebol. Talvez nossas crianças sonhem em ser outra coisa quando crescer – um judoca, um saltador, um nadador, um esgrimista… E possam ter condições de treinar e chegar a um nível competitivo.

Com o futebol devidamente enterrado (porque, repito, moribundo já está!) aos domingos as pessoas poderiam ler bons livros, ou gastar a grana dos ingressos (caríssimos hoje em dia) para ir a um recital, um concerto, um bom teatro ou uma apresentação de balé. Ou a uma competição de judô, tênis, tae-kwon-do, esgrima… Muitas são gratuitas, mas não atraem público, porque os torcedores estão se iludindo que assistem futebol.
Existe uma antiga história da tradição oriental.
Mestre e discípulo viajam ao cair da noite por uma região pouco povoada. Encontram abrigo numa casinha muito humilde. Seus moradores contam que vivem de uma vaquinha, cujo leite sustenta a todos e com a sobra fazia-se queijo para trocar por outros víveres na cidade próxima. Ao sair pela manhã, o mestre pede ao discípulo que mate a vaquinha, que pastava não longe da casa. O discípulo, contrariado, atende ao mestre, não entendendo como poderia seu guru ser tão mal agradecido com a família. Tempos depois, o mesmo discípulo volta àquela região e decide passar pela casinha humilde. Encontra uma bela propriedade cercada de boas plantações. Quando pergunta aos moradores o que havia ocorrido, fica sabendo que, com a morte da vaquinha, aquelas pessoas decidiram plantar para não morrer de fome. E descobriram que a terra era muito fértil. Tudo ficou muito melhor.
É apenas uma ideia. Mas talvez ao invés de ficar tentando ressuscitar nosso moribundo futebol, o melhor seja mesmo deixa-lo morrer em paz, por tudo de bom que já nos proporcionou. Ficamos com as boas lembranças de nossas copas e honramos a memória de nossos verdadeiros craque, de Pelé, de Telê, os Ronaldos, Zico, Sócrates, Falcão, Romário, Dener, de Mané Garrincha, de toda seleção de 70, de 82, dos últimos grandes, como Robinho, Ganso, Neymar e tantos outros que nos deram tanta alegria.

Quem sabe um dia, talvez, nos campinhos de várzea perdidos pelos fundões deste imenso país, os meninos voltem a rolar suas pelotas carcomidas, em renhidas peladas ornamentadas pelo prazer de correr descalço contra o vento, sem camisa, furando a bola com as unhas mal cortadas dos pés, reinventando a graça e o amor pelo futebol.
Talvez assim, longe dos nossos olhos, ele possa ressuscitar.





































































































































