Faltam craques no futebol brasileiro e a gente malha um Judas por dia

“Quando o time ganha, o técnico é genial. Quando perde, o treinador é uma rematada besta quadrada”.

Pouca gente analisa o material humano que se tem hoje em função dos erros de formação, da Lei Pelé que só estimulou o surgimento de empresários e as donas Dilma

0002050149834 img

Não tenho procuração ad-juditia para defender nenhum treinador, mas esse discurso de responsabilização de técnico toda a vez em que um time perde, já encheu o saco. Essa insistência midiática é uma desonestidade intelectual. É nadar de braços no oceano da mediocridade, sem discutir e se aprofundar nas questões mais sérias que envolvem a máquina do futebol

Lembro-me, muito bem, das aulas que participei com o professor Oto Martins Gloria e Ithon Fritzean num curso de futebol em São Caetano do Sul:

Oto Glória, português, morreu em setembro de 1986

Oto Glória, português, morreu em setembro de 1986

“Quando o time ganha, o técnico é genial. Quando perde, o treinador é uma rematada besta quadrada”.

Pois bem, toda segunda ou quinta-feira o que se vê nos varais midiáticos é uma demonização, um massacre do comandante de um time.

Pouca gente analisa o material humano que se tem hoje em função dos erros de formação, da Lei Pelé que só estimulou o surgimento de empresários e as donas Dilma – definição do saudoso Mario Fofoca – que um dia condenou o São Paulo por “roubar” um jogador da Portuguesa.

Dona Dilma era uma personagem de novela em que ela roubava crianças dos outros.

É preciso reflexões para que não se maquie a verdade e a nossa realidade. Técnico ganha jogo? Ajuda, à vezes ganha e em outras perde, porque todo ser humano erra.

NEM SEMPRE O MELHOR É CAMPEÃO
Nunca é demais lembrar uma frase de Rinus Mitchel, o técnico que fez a última revolução tática com aquela seleção maravilhosa da Holanda em 74 e 78. Disputou e perdeu duas Copas e um dia lhe perguntaram por que a Holanda não foi campeã:

“Bem, nem sempre o melhor é o campeão”.

E por acaso Rinus Mitchel deixou de escrever na história seu nome como um dos maiores treinadores que desfilaram na ribalta das Copas? E o time dele era ruim? Não. Ganhou a Alemanha em 74, com alguns craques e um futebol pragmático e a competência de outro grande

Rinus Michels, um dos maiores técnicos da história, e sua frase lendária

Rinus Michels, um dos maiores técnicos da história, e sua frase lendária

treinador, Helmuth Schoen. Será que Rinus perdeu porque ruim como profissional? Não A Argentina ganhou em 78 em casa e por superação. A Holanda era melhor.

O futebol brasileiro de hoje não ganha uma Copa há 14 anos e ficamos 24 anos ausentes do título, de 1970 a 1994. E ganhamos, com alguns talentos e pelo pragmatismo de Parreira, que não era um Helmut Schoen, nem tinha nada de um Rinus Mitchel.

Com uma seleção de grandes craques você ganha e também perde. E Parreira ganhou debaixo de intensas críticas e sua vitória, graças a Romário e Bebeto, nasceu também por um futebol feio e retrancado.

PROFISSÃO DE ALTO E RISCO
Ser treinador no Brasil é hoje uma profissão de alto risco. Já tivemos técnicos competentes. Comecemos por Minelli, campeão na maioria dos times que passou, mas nunca mereceu a seleção por causa da miopia e da hipermetropia dos cartolas.

Zagalo ganhou 70 por que tinha uma seleção na sua maioria de craques, sem falar em Pelé. Para aferir a qualidade daquele time, Rivelino foi jogar na ponta esquerda e Dirceu Lopes ficou por aqui e viu o título pela televisão.

Zagallo foi campeão em 1970 com o maior esquadrão de craques que o Brasil já teve

Zagallo foi campeão em 1970 com o maior esquadrão de craques que o Brasil já teve

Depois, Zagalo perdeu 74 e na França. Scolari ganhou 2002 com ideias toscas, mas tinha Ronaldo e Rivaldo. Quem temos hoje? Neimar e quem mais? Experimentamos o prussiano Dunga e nada. Voltou Scolari e levamos uma surra de criar bichos nas costas. Ele saiu execrado porque o fracasso não tem perdão no tribunal da mídia.

Mano foi uma experiência que não deu certo, sem falar que houve problemas políticos. Mudou a política na CBF e Mano dançou. Dunga, o prussiano, voltou com ideias do passado para enfrentar os desafios do futuro.

REALIDADE DOMÉSTICA
Mas voltemos a nossa realidade doméstica, Tite sobrevive com o que sobrou brasileiro. Os chineses levaram os melhores e o time se aguentou, até agora. O campeonato paulista não é Parâmetro e Tite tem que provar, outra vez, sua competência na Libertadores.

O Palmeiras capenga com Marcelo Oliveira, o são Paulo trouxe um cantos de tango, e Dorival faz o que pode no Santos. E a irregularidade tem sido uma marca do time da Vila.

Enquanto isso, treinadores que foram reconhecidos aqui, estão lá na China. Vanderlei Luxemburgo dirige um time de segunda divisão na terra Xi Jipping. Scolari tem um time melhor e já chegou até a uma decisão entre quatro melhores da Europa com essa geografia maluca do futebol mundial, sempre buscando outros mercados. Mano Meneses está ganhando seu dinheiro em iuan ou dólar.

Todos voltarão ricos da China. É melhor ter dinheiro no bolso do que estar aqui para ser demonizado nos fins e meio de semana.

MALHAR E SATANIZAR…
E nós vamos malhar todos os que ficaram por aqui. Serão satanizados porque a nossa miopia não enxerga que não basta só ter um bom treinador, se não tivermos qualidade dentro do campo. Os craques foram embora, a Lei Pelé facilita o êxodo dos meninos que seriam a solução do nosso futebol amanhã. É uma diáspora maldita.

Sem craques, os times perderam a identidade e a qualidade. A mídia procura sempre um Sassá Mutema e só tem um caminho: a execração do técnico. O sábado de Aleluia agora é quase todo o dia. Temos sempre um Judas para malhar. Satisfazemos a torcida e a nossa desonestidade intelectual continua.