'Macaca Amarela' , o novo amuleto da sorte da Ponte Preta seria uma heresia no passado

O manto sagrado é simplesmente subjugado por um amuleto da sorte, até mesmo pelas circunstâncias ou pelo acaso.

O torcedor da Macaca considerado conservador ao extremo se rende também a outra característica: a superstição

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Campinas, SP, 30 (AFI) – Fosse há duas décadas atrás e seria uma heresia, capaz até de derrubar o presidente do clube. Mas, de repente, um uniforme todo diferente das características da Ponte Preta, que como o próprio nome diz, são de preto e branco, é trocado por uma vestimenta azul e amarelo. O manto sagrado é simplesmente subjugado por um amuleto da sorte, até mesmo pelas circunstâncias ou pelo acaso. É a vitória da superstição sobre a tradição.

O torcedor da Macaca considerado conservador ao extremo se rende também a outra característica: a superstição. Ele pôs à nocaute a tradição do clube que se orgulha de ser chamado como “o mais velho do Brasil”.

Ponte Preta unida pela fé, movida pela superstição e armada pelo

Ponte Preta unida pela fé, movida pela superstição e armada pelo “Macaca Amarela’. Foto: Oficial AAPP

É difícil saber a escalação oficial da Ponte Preta para pegar o Corinthians no Itaquerão, nesta quarta-feira à noite, pela 13.ª rodada do Campeonato Paulista. Isso porque o técnico Alexandre Gallo fez questão de fechar os últimos treinos e de manter o mistério. Certo mesmo é que o novo amuleto da sorte – o uniforme número três de cores azul e amarelo – será utilizado mais uma vez.

NÚMEROS POSITIVOS
Afinal de contas ele está invicto na temporada. Conservador e supersticioso, desta vez a superstição venceu a tradição da torcida e da diretoria campineira.

Até agora, o clube campineiro jogou seis jogos com o uniforme tradicional e os outros seis com o ‘macacão amarelo’. E a diferença entre os números é exorbitante. As “únicas” quatro derrotas do clube no estadual foram justamente com a tradicional camisa alvinegra – preto e branco, além de dois empates – contra Botafogo em casa e Linense fora.

Com o “manto sagrado”, da faixa transversal, passou vexames em casa como as derrotas para o XV de Piracicaba e Mogi Mirim, candidatos ao rebaixamento, por 1 a 0.

Ameaçada pelo rebaixamento, Ponte Preta reagiu com a sua camisa amarela. Foto - Oficial AAPP

Ameaçada pelo rebaixamento, Ponte Preta reagiu com a sua camisa amarela. Foto – Oficial AAPP

Mas a nova vestimenta corre na contramão dos números. Isso porque, em seis jogos que esteve em campo com o elenco campineiro, o ‘macacão amarelo’ venceu quatro e empatou outros dois jogos, ainda invicto neste Paulistão.

Venceu Audax, por 3 a 2, São Paulo por 1 a 0, Ferroviária por 2 a 1 e Red Bull Brasil por 3 a 0. Empatou fora com o Capivariano e com o São Bento.

Comparados, o uniforme tradicional tem apenas 11,2% de aproveitamento dos pontos, contra 77,8% da terceira camisa.

“Se estamos ganhando com esta camisa então vamos mantê-la” adiantou-se Gallo logo após a vitória sobre o Red Bull, que deu fôlego ao time na tabela, com 16 pontos no equilibrado Grupo B. Por contrato com a empresa fornecedora, a Adidas, o clube teria que usar o uniforme somente em três jogos dos 15 que fará na primeira fase.

CARTOLAS DÃO EXPLICAÇÕES
Os dirigentes, porém, desconversam. Enquanto alguns engolem seco a escolha para nem pensar na chance de voltar para a Série A2, outros são obrigados a se justificar, como o vice-presidente executivo Giovanni Dimárzio.

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“Não precisamos jogar tantas vezes com esta camisa, mas a torcida aprovou. Isso ajudou bastante. Mas nossa camisa tradicional é aquela mesmo, branca com a faixa transversal preto ou então preto com faixa branca. E sempre será”, explica.

Prova do conservadorismo pontepretano correu meses atrás, quando uma agência de publicidade se adiantou a alguns dirigentes e anunciou a criação de um novo mascote pra o clube. Sai a Macaca para a entrada do Gorila.

Deu a maior confusão nos bastidores, com desmentidos de lá e de cá. A saída foi se falar em “família pontepretana com a Macaca, o Gorila, a macaquinha” e assim por diante. Virou até piada.

GUERRA NO PASSADO
No começo dos anos 90, a Ponte Preta viveu momentos conturbados com a inovadora e polêmica administração temporária de Marco Chedid, atual presidente do Bragantino. Chamado às pressas para assumir o cargo deixado por Lauro Moraes Filho, Marquinho Chedid, então presidente da Câmara Municipal de Campinas, promoveu diversas mudanças no clube. Uma delas no uniforme.

Criação da empresa Firula: virou polêmica nos anos 90

Criação da empresa Firula: virou polêmica nos anos 90

Inicialmente tentou criar um terceiro uniforme, com efeitos nas mangas e que gerou protestos. Era da empresa novata Firula. De volta ao uniforme tradicional, o clube conseguiu um patrocinador num esforço incomum e pessoal de Edgard Basso, um dirigente sem pasta e que tanto contribuiu naquela época para o sucesso da Macaca.

Dono da empresa Zincafer, que atendia empresas de auto-peças, ele conseguiu um patrocinador para o clube em 1992.

Mas havia um problema: o patrocinador – a extinta BENDIX – tinha como cor principal o azul. Quase surgiu a terceira guerra mundial. O Conselheiro Deliberativo da época, formado em sua maioria por uma velha guarda liderada pelo abnegado Sérgio Rossi . Era um dentista, pontepretano inveterado, extremamente honesto

Modelo criado pela Hawk, outra empresa novata que serviu a Macaca

Modelo criado pela Hawk, outra empresa novata que serviu a Macaca

e historiador do clube. Escreveu até uma coletânea de livros com toda a história e resultados do time desde sua fundação. No entanto, era um grande conservador. Até mesmo por sua idade – mais de 70 anos na época.

Então presidente do conselho, Sérgio Rossi fez uma reunião extraordinária, num sábado cedo, do Conselho Deliberativo para discutir a utilização ou não da marca Bendix na frente da camisa da Ponte Preta na cor azul. A discussão se estendeu e esquentou.

Chedid não abria mão do patrocinador que oferecia US$ 8 mil dólares na época. Algo em torno de R$ 80 mil reais hoje. Era um dinheirão para um clube quebrado, sem recursos e sem alternativas.

SAÍDA HABILIDOSA
Enquanto a discussão esquentava, o presidente Marco Chedid já tinha combinado com a direção da Bendix de que usaria a cor preto na logomarca da camisa por dois jogos. E na segunda reunião do conselho ele foi bem claro aos presentes:

Parmalat colocou o azul na camisa do palmeiras em 1993

Parmalat colocou o azul na camisa do palmeiras em 1993

“O clube tem uma proposta de 8 mil dólares por mês para estampar a marca da empresa, que exige seu texto em azul. Caso o conselho não aceite, a solução mais fácil é que os conselheiros se reúnam, façam um vaquinha e cubram o valor”.

Foi criada uma comissão para estudar o assunto e nunca mais o Conselho se reuniu para debater o caso.

Pouco tempo depois, em 1993, o futebol ganhou novos ares com a gestão vencedora do PalmeirasParmalat. Por coincidência, a marca da Parmalat também era azul.

Foi a confirmação de uma “Nova Era” no esquema e patrocínios dos clubes. Hoje Santos e Palmeiras usam azul e o Corinthians até um laranjão. Queira ou não, está revolução foi iniciada com a Ponte Preta, eternamente, o clube mais velho do Brasil.