Dalmo Pessoa: A velhinha de Taubaté sofre com a maldição do Itaquerão

Acabou sendo a vingança do pequeno contra o todo-poderoso e reluzente Corinthians

​A soberba é a serpente que se esconde debaixo dos arbustos da autossuficiência das pessoas e das instituições

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A soberba é a serpente que se esconde debaixo dos arbustos da autossuficiência das pessoas e das instituições. Foi isto que aconteceu na desclassificação do Corinthians diante do modesto, mas bom time do Audax de Osasco. Acabou sendo a vingança do pequeno contra o todo-poderoso e reluzente Corinthians. Aqueles que veem o futebol com a ótica da isenção reconheceram que, embora o anfitrião tenha desperdiçado várias situações não cabe nenhuma contestação aos méritos do vencedor. Fazer festa antes hora, dá zebra.

A lógica do futebol – e ele não tem lógica – é que com aquele povão entusiasmo, mais de 40 mil pessoas, iria assistir a mais um concerto de futebol do invicto do campeonato.

A consequência é que o time de Tite, mais uma vez, deu adeus na quarta decisão de classificação dentro de sua própria casa, pulverizando o tal fator campo, que hoje nem sempre funciona. O Corinthians, em 2015, foi expulso uma vez de uma competição pelo Palmeiras; não ganhou do Santos e disse adeus à Libertadores diante do Guarani e agora cedeu seu espaço de finalista para o Audax, um time de 350 mil reais de folha mensal.

Só esperamos que essa desclassificação não interfira no comportamento do time na atual Libertadores, outro projeto que o clube tem para manter-se como time de ponta, de força inegável, e também porque pode acumular mais um prejuízo. O bônus do campeonato escapou e o da Libertadores é uma receita que se pode perder, até porque o dinheiro anda curto e cada prestação do estádio bate quase em seis milhões de reais.

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O trabalho de Tite não pode ser desprezado. E não venham com críticas injustas porque a conjunção verbal do futebol não é o técnico ganha e os jogadores perdem. Por falar nisso, lembro a frase de Oto Martins Glória: “quando o time ganha, o técnico é bestial. Quando o time perde, o técnico é uma rematada besta quadrada”.

Existem derrotas e derrotas. Delas podem ser tiradas lições importantes, para que os erros não venham mais se repetir. Só que esta desclassificação veio num momento impróprio para o Corinthians e para o técnico, uma vez que em torno de Tite estava se construindo uma imagem de unanimidade nacional. Perder, todos perdem. Quem não se lembra de Telê Santana, que só colheu frutos e ornamentou seu currículo quase no fim de sua carreira. Quem não se lembra da imagem de Telê pé frio? Ele deixou de ganhar uma Copa em que a nossa seleção era unanimidade mundial. Na segunda chance, em 1986, Telê não atingiu seus objetivos. Só depois no São Paulo é que ele ganhou os títulos mais importantes de sua carreira.

Esse desastre do Corinthians, de qualquer forma, chocou sua torcida e muita gente. Nem a velhinha de Taubaté acreditou no que aconteceu. Consta que ela teve que baixar hospital por arritmia cardíaca, mas passa bem. Mas outra paulada dessas, talvez a velhinha não vá aguentar.

Pior é que São Jorge não apareceu para ajudar seu protegido. Se lá estivesse, o santo guerreiro desceria de seu cavalo branco e com sua lanço de aço mataria o dragão da derrota para alegria e felicidade de seus 41 mil súditos no estádio.

Dizia Fiori Gigliotti – “agora não adianta chorar”, mas é preciso fazer uma dicotomia do elogio fácil do elogio pegajoso, que ajuda construir na mente de algumas pessoas a falsa certeza da vitória. Um dia, o melhor perde, como outros times também perderam classificações dadas como certas e títulos “conquistados” na véspera.

Futebol não é ciência exata e nem sempre 2 mais 2 são quatro. Nunca é demais lembrar a frase de Rinus Michels, autor da última revolução tática, na Copa de 74 com a Holanda: ‘nem sempre o melhor em campo será campeão”. A Holanda perdeu duas Copas com aquela seleção e nem por isso o mundo acabou.

O Corinthians não pode perder fácil em casa porque isso pode gerar um mito de que o Itaquerão é uma maldição. Não é, nem será. Cabe ao Corinthians espantar esse fantasma. Se não, a velhinha de Taubaté deixará de acreditar na força do povo e morrer do coração.

EXTRA PAUTA

1 – “Lázaro, levanta-te e ande”, disse Jesus nessa ressureição. Aqui, ou lá fora, o Lázaro chama-se José Margules – irmão de Marcos Lazaro – que foi preso como pagador de propinas em torneios na Libertadores, Copa América e outras competições. O Lazaro de 2015 levantou as propinas, reiterou-as outra vez e pagou uma fiança de 10 milhões de dólares. Tudo isso a mando de J. Havilla.

2 – Os gênios midiáticos sempre defenderam profissionalismo no futebol. Os cartolas cumpriram. A CBF aumentou mais 4 que vão receber polpudos salários. Eram 10, agora são 14. Cada um vai ganhar 50 mil reais-mês. Sem falar no porfa ou propina. Esses gênios pregam cada coisa…