Dalmo Pessoa: Tite está no andor da pátria de chuteiras. Agora só falta a Copa

Não se tem mais, como antigamente, aquelas discussões de norte a sul e leste a oeste por injustiças de um ou outro jogador

Não se tem mais, como antigamente, aquelas discussões de norte a sul e leste a oeste por injustiças de um ou outro jogador

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Faltam poucos dias para a Copa do Mundo e a seleção, batizada como a seleção da pátria de chuteiras – criação de Nelson Rodrigues – ainda não mexe com o coração da torcida, talvez porque a hecatombe dos 7X1 da Alemanha parece ainda sangrar o coração de milhões de torcedores. Se o time ainda não despertou paixões, tanto é que o que chama mais a atenção são figurinhas que venderam no início mais de 7 milhões de álbuns e dois milhões de cromos por dia, e Tite já foi colocado no andor nacional, como se fosse o salvador da bola nacional.

Não se tem mais, como antigamente, aquelas discussões de norte a sul e leste a oeste por injustiças de um ou outro jogador.

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Hoje, a seleção é quase unanimidade, e a própria mídia incensa Tite, mas sabe muito bem que o nosso time não tem mais RG, porque perdemos a identidade do nosso futebol. Nossos jogadores têm passaporte, porque a globalização inversa – e não adianta chorar – porque o dinheiro manda e a lei Pelé, feita para resgatar o nosso futebol, diminuiu a formação de nossa usina de craques. Assim viramos um produtor de commodities no futebol, como produzimos carnes, minérios, aviões, ouro, prata e outras commodities metálicas.

O futebol, patrimônio cultural do povo brasileiro – como dizia o então ministro Aldo Rebelo (aliás essa definição está na Constituição) não é mais nosso.

A mídia percebe muito pouco essa realidade e até porque as televisões de grupos estrangeiros fizeram um cartel para mostrar, e faturar muito – porque o Brasil é um mercado de mais de 200 milhões de pessoas. Assim, criaram aqui uma legião de fãs de craques alienígenas. Tem futebol europeu todo dia na tevê e, é claro, os nossos jogadores que foram para fora do país, construindo uma diáspora incrível e matam a saudade do nosso torcedor. É um amor à distância.

FOCO NA COPA
Por isso, essa é mais do que uma Copa. Primeiro precisamos nos recuperar da vergonha nacional que foi 2014, mas é preciso ir além porque se fracassarmos na Rússia do czar Putin, aquele que enquadrou Obama e enfrenta o fanfarrão Trump, será muito difícil recuperar um patrimônio de cinco Copas conquistadas ao longo dos tempos.

Temos bola para resgatar 16 anos sem Copa? Temos, sem dúvida. O problema é que trocamos RG por passaporte. Só deu certo em 2002 com Scolari no Japão-Coréia.

Depois, temos uma coletânea de decepções e fracassos. E a humilhação de 2014 nos deixou um legado maldito com os escândalos, com roubalheiras nos estádios e cartolas presos – Marin está em cana até hoje, Ricardo Teixeira ainda tem que prestar contas à justiça e Marco Polo Del Nero foi cassado pela própria FIFA. Se pisar nos EUA será algemado pelo FBI. E talvez tenha que passar longas férias em prisões lá fora.

Mas voltemos ao nosso dia-a-dia. Afinal é importante tomar o passado como lição para não errar e fracassar no mês de junho. A mídia nem estimula mais os debates acalorados das mesas-redondas e outras mídias estridentes. Tite foi colocado no andor das nossas esperanças. É preferência nacional. Ou, se quiserem, unanimidade no país inteiro. Mas é bom não esquecer outra frase de Nelson Rodrigues: “A unanimidade é burra”. Tomara que desta vez não seja assim.

Foi-se o tempo em que a mídia gritava por jogadores e massacrava os treinadores, considerados malditos por tanta gente. Tivemos a fase de Telê Santana e sua seleção de 82 com o futebol arte, que encantou reis e plebeus, mas fracassou diante de Paulo Rossi, ex-presidiário depois de se envolver antes com a máfia italiana.

Veio a Copa do Tio Sam em 94. Parreira rendeu-se à retranca e vendeu sua alma e o coração ao pragmatismo de dois volantes defensivos: Dunga e Mauro Silva. O brilhante Raí foi carbonizado por sua ineficiência e quem resolveu foi a dupla Romário-Bebeto. E assim mesmo ganhamos o título nos penais, último de Dunga. Parreira, Zagallo e Scolari participaram em três fracassos de Copas. É melhor esquecer.

DISCURSO
O discurso do futebol-arte, mesmo com a Copa de 2002, foi retirado do baú dos saudosistas e chegou-se a um ponto em que alguns pragmáticos baixaram o nível da discussão, como a definição do escritor e jornalista Eduardo Bueno, gaúcho até o último fio de cabelo, que disse: “Esse negócio de futebol-arte é coisa de veado…”. Ninguém jogou mais bonito do que a Holanda em duas Copas (1974 e 1978). Jogar bonito, às vezes, perde. Às vezes quem joga feito leva o título e entra na história.

A atual seleção tem gente boa. Tite será o nosso Sassá-Mutema? Neymar vai resolver? Jesus, o menino do bairro Peri, vai nos salvar? Vamos esperar. A tecnocracia invadiu a seleção, tudo foi pensado e providenciado. A equipe de Tite tem 65 homens. Dinheiro não vai faltar. Tite foi alçado ao andor da seleção. Para a glória ou para uma nova decepção. Alia jacta est. Agora só falta a Copa. Que os deuses não nos faltem. Assim, Tite poderá ser canonizado no Vaticano da FIFA por mais um título mundial.