Proibição das bets vira arma eleitoral e coloca candidatos em contradição

Governadores e adversários correram para condenar as apostas na reta final, enquanto loterias estaduais, patrocínios milionários e antigas decisões expõem a distância entre discurso e prática

A decisão de Lula de proibir as bets dominou a última semana da campanha

Campinas, SP, 01 (AFI) – A proibição das bets deixou de ser apenas uma decisão econômica e transformou-se em arma eleitoral. A poucos dias da votação, candidatos a governador passaram a disputar quem adota o discurso mais duro contra as apostas e quem consegue atribuir ao adversário a responsabilidade pela expansão do setor.

A bandeira possui forte apelo popular. Pesquisas recentes indicaram apoio majoritário à restrição da publicidade das casas de apostas. O governo também relaciona o setor ao endividamento das famílias, à ludopatia e à retirada de dinheiro do comércio.

O problema é que parte dos políticos que agora condena as plataformas pertence a governos que criaram, concederam ou mantiveram loterias estaduais. Outros apoiam clubes sustentados por patrocinadores do setor ou defendem compensações com dinheiro público para cobrir as perdas.

Rio vira palco da maior disputa

No Rio de Janeiro, Eduardo Paes aproveitou a proibição federal para atacar a gestão de Cláudio Castro e prometeu extinguir a Loterj. A autarquia estadual tornou-se um dos principais focos do confronto jurídico sobre a atuação das casas de apostas.

A promessa permite a Paes apresentar-se como adversário do jogo on-line, mas abre outra discussão: o impacto da mudança sobre a arrecadação estadual, contratos firmados e clubes do Rio patrocinados por empresas do setor.

A contradição não está apenas nos candidatos. O estado defendeu durante anos a exploração de apostas como fonte de receita; agora, a campanha discute o encerramento da mesma estrutura como medida de proteção social.

Pernambuco disputa quem protege os clubes

Em Pernambuco, Raquel Lyra apoiou o combate às apostas, mas também procurou tranquilizar os clubes locais atingidos pela perda de patrocínios. O movimento abriu espaço para a discussão de apoio financeiro às equipes.

João Campos também se posicionou contra as bets. A disputa, então, deixou de ser apenas sobre proibir as plataformas e passou a envolver quem apresentará uma alternativa para Sport, Náutico, Santa Cruz e outras instituições afetadas.

O risco político é evidente: condenar as apostas rende apoio entre famílias endividadas; abandonar os clubes pode provocar reação de torcedores e dirigentes.

Ciro apoia medida, mas ataca Lula

No Ceará, Ciro Gomes adotou uma posição calculada. Manifestou apoio à proibição, mas criticou o governo federal e o momento escolhido para anunciar a medida.

Dessa forma, o candidato tenta ficar ao lado da parcela do eleitorado contrária às bets sem permitir que Lula transforme a decisão em um triunfo exclusivo da campanha petista.

Jerônimo Rodrigues seguiu caminho diferente na Bahia. O governador celebrou a medida federal depois de seu governo ter recuado de uma proposta para criar uma loteria estadual. A mudança fortaleceu o discurso contra as apostas, mas também trouxe de volta as perguntas sobre a tentativa anterior.

Estados mantêm jogos

A proibição também expôs uma área cinzenta. Loterias de Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Paraíba suspenderam plataformas atingidas pela medida, mas algumas continuaram explorando outras modalidades eletrônicas.

Entre elas estão terminais de videoloteria, equipamentos comparados por críticos a caça-níqueis. Os estados alegam que esses produtos obedecem a legislações próprias e não se enquadram na mesma categoria das bets proibidas.

São Paulo, por exemplo, concedeu a exploração de sua loteria por R$ 526 milhões. A operação mantém modalidades consideradas legais pelo estado, ao mesmo tempo em que a campanha nacional apresenta o combate ao jogo como proteção às famílias.

A diferença jurídica pode existir, mas é mais difícil de explicar eleitoralmente. Para o cidadão, permanece a pergunta: por que uma aposta é tratada como ameaça social enquanto outra continua sendo explorada pelo poder público?

Discurso conveniente

Em Minas Gerais, Ceará, Paraná, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, candidatos de diferentes correntes correram para criticar as bets. A bandeira atravessou esquerda, centro e direita.

O consenso repentino, contudo, não elimina as divergências. Há quem defenda proibição total, quem queira apenas impedir publicidade, quem aceite loterias estaduais e quem proponha socorrer os clubes com linhas de crédito públicas.

Também pesa o calendário. A medida foi anunciada na reta final de uma disputa presidencial equilibrada e sobre um tema que mobiliza famílias, igrejas, clubes e torcidas. Adversários de Lula acusam o governo de agir por interesse eleitoral; o Planalto afirma que não poderia adiar uma resposta a um problema social.

A conta chegará depois da eleição

A medida provisória ainda terá de passar pelo Congresso, onde as empresas de apostas e os clubes possuem aliados. O setor também prepara ações judiciais para contestar a proibição e buscar compensações.

Até lá, os candidatos continuarão explorando o tema. Contra as bets, todos prometem proteger as famílias. Quando a discussão chega aos contratos, às loterias estaduais e ao caixa dos clubes, porém, o consenso desaparece.

A proibição produziu uma bandeira eleitoral poderosa, mas deixou uma conta bilionária sem dono. E ela começará a ser cobrada assim que as urnas forem fechadas.

Onde estão as contradições

  • Rio de Janeiro: promessa de extinguir a Loterj após anos de expansão das apostas estaduais;
  • São Paulo: discurso contra as bets convive com concessão milionária da loteria;
  • Pernambuco: candidatos condenam apostas, mas precisam responder como os clubes sobreviverão;
  • Bahia: governo celebra proibição depois de recuar da criação de uma loteria própria;
  • Clubes: criticam o impacto social das apostas, mas dependem de contratos milionários do setor;
  • Governo federal: proibiu uma atividade que havia regulamentado e autorizado mediante pagamento de outorgas.

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