Esporte vale voto? Veja o que Lula, Flávio e rivais prometem — e o que esconderam
Pente-fino nos programas registrados no TSE mostra propostas para atletas, escolas, futebol feminino e paradesporto
Lula aposta na continuidade de programas federais, enquanto Flávio Bolsonaro promete ampliar o esporte escolar e as bolsas
Campinas, SP, 01 (AFI) – O esporte movimenta bilhões, reúne algumas das maiores marcas do país e alcança uma parcela gigantesca do eleitorado. Mesmo assim, continua tratado de maneira desigual pelos candidatos à Presidência.
Um pente-fino nos programas registrados no Tribunal Superior Eleitoral mostra que Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema reservaram espaços específicos ao tema. A profundidade, porém, varia. Augusto Cury e Renan Santos, por exemplo, não apresentam uma política esportiva nacional claramente estruturada.
Também existe uma ausência comum: quase nenhum programa informa quanto pretende investir, em quanto tempo as promessas serão executadas ou quais metas objetivas deverão ser atingidas.
Lula aposta na continuidade
O programa de Lula apresenta o esporte como ferramenta de inclusão, saúde, desenvolvimento econômico e projeção internacional. O presidente promete manter o apoio ao alto rendimento, ampliar o Bolsa Atleta e expandir o projeto Arenas Brasil.
O documento afirma que 500 unidades esportivas foram apoiadas pelo Novo PAC e promete ampliar o número no próximo mandato. Também prevê a implantação da Universidade do Esporte e de uma rede nacional de pesquisa, inovação e tecnologia aplicada ao setor.
A Copa do Mundo Feminina, que será realizada no Brasil, aparece como oportunidade para estimular a modalidade, fortalecer o turismo e promover o país no exterior.
O ponto fraco está nos números. O programa não estabelece quantas novas arenas serão construídas, qual será o orçamento reservado ao Bolsa Atleta nem quais metas deverão ser atingidas pela futura universidade.
Há ainda uma mudança importante entre o programa e as decisões tomadas durante a campanha. O documento defendia mecanismos para controlar os gastos excessivos com apostas on-line; poucos dias antes da eleição, Lula avançou para a proibição das bets.
Flávio mira escolas e formação
Flávio Bolsonaro promete transformar a escola no principal ponto de entrada das crianças no esporte. O programa prevê atividades no contraturno, competições escolares, identificação de talentos e integração entre educação e alto rendimento.
O candidato também propõe aperfeiçoar bolsas esportivas, estimular o esporte feminino e ampliar o paradesporto, com descoberta de talentos paralímpicos desde a base. A ideia central é usar a prática esportiva para reduzir evasão escolar e criar uma trajetória que leve o aluno da quadra à competição.
Em relação às apostas, Flávio não defende no programa a proibição completa. A proposta registrada prevê impedir o uso de recursos de programas sociais nas plataformas e promover campanhas de conscientização sobre endividamento e vício.
Assim como ocorre com Lula, faltam valores, cronograma e uma definição sobre o financiamento das medidas. Também não há uma resposta detalhada para o impacto financeiro do fim das bets sobre clubes e campeonatos.
Caiado apresenta o plano mais amplo
Entre os principais candidatos, Ronaldo Caiado apresenta o programa esportivo mais detalhado. O documento reúne propostas para escola, esporte comunitário, alto rendimento, futebol feminino, paradesporto, medicina esportiva, treinadores e governança.
Caiado promete criar um Plano Nacional do Esporte com horizonte até 2035, aperfeiçoar o Bolsa Atleta e permitir que jovens conciliem estudo, trabalho e treinamento. Também prevê atendimento regionalizado em fisioterapia, nutrição, saúde mental e prevenção de lesões.
No futebol, propõe proteger as categorias de base, profissionalizar a gestão, aumentar a transparência de clubes e SAFs e combater violência e racismo. Para as mulheres, fala em calendário, formação, estrutura e proteção à maternidade.
O programa ainda defende forte restrição à publicidade das apostas, tratamento para jogadores compulsivos e repressão às plataformas ilegais. Apesar da extensão, também não apresenta uma conta fechada para financiar todas as medidas.
Zema quer resultado em troca do dinheiro
Romeu Zema concentra sua proposta na eficiência dos gastos e na atração de investimento privado. O candidato critica a dependência de emendas parlamentares e afirma que Bolsa Atleta e Lei de Incentivo precisam apresentar resultados mais mensuráveis.
O programa defende condicionar repasses públicos às confederações e federações ao cumprimento de exigências de governança, transparência e impacto social.
Zema também propõe aproximar clubes e universidades públicas, integrar esporte e saúde e aumentar a participação privada. A lógica é diminuir a dependência do dinheiro estatal nas modalidades com maior capacidade comercial.
O documento apresenta diagnóstico, modelo de gestão e critérios de cobrança, mas não informa quanto seria destinado à construção de quadras, formação de atletas ou esporte comunitário.
O silêncio de Cury e Renan
Augusto Cury entrega um programa extenso, fortemente concentrado em saúde emocional e educação. O esporte aparece de forma lateral, associado a atividades de bem-estar, mas sem um plano nacional para financiamento, alto rendimento, clubes, escolas ou atletas.
No programa de Renan Santos, o termo esporte não aparece como eixo específico. Também não há propostas estruturadas para Bolsa Atleta, paradesporto, futebol feminino ou formação esportiva.
A ausência não significa necessariamente que os candidatos não possam apresentar medidas posteriormente. Revela, porém, que o setor não recebeu prioridade clara nos documentos oficiais entregues à Justiça Eleitoral.
O que quase todos deixaram de explicar
As promessas apresentam objetivos atraentes, mas escondem as perguntas mais difíceis. Quanto custará? De onde virá o dinheiro? Qual será o prazo? Como serão fiscalizadas confederações e federações? O que acontecerá com os clubes atingidos pelo fim das bets?
Também são raras as metas verificáveis. Fala-se em ampliar, fortalecer, incentivar e modernizar, mas quase nunca se informa quantos atletas serão atendidos, quantas quadras serão entregues ou qual será o aumento das bolsas.
No discurso, todos reconhecem a força do esporte. Nos programas, porém, o eleitor ainda precisa atravessar uma distância considerável entre a promessa e um projeto pronto para sair do papel.
O placar das propostas
| Candidato | Principal promessa | Principal vazio |
|---|---|---|
| Lula | Bolsa Atleta, Arenas Brasil e Universidade do Esporte | Não fixa orçamento nem número de novas unidades |
| Flávio Bolsonaro | Esporte escolar, bolsas e identificação de talentos | Não informa custo nem cronograma |
| Ronaldo Caiado | Plano Nacional do Esporte 2035 e integração completa do sistema | Grande número de propostas sem orçamento definido |
| Romeu Zema | Recursos vinculados a desempenho e maior investimento privado | Poucas metas de acesso e expansão |
| Augusto Cury | Esporte associado à saúde emocional | Não apresenta política esportiva estruturada |
| Renan Santos | Sem eixo esportivo identificado | Ignora os principais programas do setor |





































































































































