Os oito trabalhos de Kleina: técnico enfrenta missão quase impossível na Ponte Preta

Com oito partidas restantes e a queda cada vez mais próxima, treinador precisa administrar crise, reconstruir o elenco e preparar o clube para uma temporada decisiva em 2027

Gilson Kleina voltou à Ponte Preta pela sexta vez e encontrou o maior desafio de sua carreira

Campinas, SP, 01 (AFI) – Na mitologia grega, Hércules precisou cumprir 12 trabalhos considerados impossíveis. Na Ponte Preta, Gilson Kleina terá oito jogos para enfrentar uma missão que também parece superar os limites do futebol: reconstruir um time atingido por crises esportiva, financeira e institucional.

A referência não é apenas uma brincadeira com os números. Restam oito rodadas para a Macaca, e cada uma delas representa uma etapa importante para impedir que a temporada termine sem deixar qualquer base para 2027.

Kleina classificou o retorno ao Moisés Lucarelli como o maior desafio de sua carreira. Quando aceitou iniciar a sexta passagem pelo clube, encontrou jogadores em greve, salários atrasados, atletas deixando o elenco, jovens convocados às pressas e uma equipe que não vencia havia 18 partidas.

Desde então, o cenário melhorou pouco. Em seis jogos sob seu comando, a Ponte venceu o CRB e perdeu para América-MG, São Bernardo, Sport, Londrina e Botafogo-SP. Marcou somente um gol e sofreu 14. O aproveitamento é de 16,7%.

A permanência na Série B é quase impossível. Os trabalhos de Kleina, entretanto, não terminam com a confirmação do rebaixamento.

1. Adiar a queda

O primeiro trabalho é o mais urgente. A Ponte precisa vencer o Cuiabá para não depender de um milagre antes mesmo do encerramento da rodada. Uma derrota confirma o descenso com sete jogos ainda por disputar.

Evitar a queda no sábado não mudará substancialmente a situação, mas dará ao elenco a oportunidade de reagir antes que o peso do rebaixamento tome conta definitivamente do ambiente.

2. Fazer o time voltar a competir

A campanha não é marcada somente pelas derrotas, mas pela forma como muitas delas aconteceram. A Ponte sofreu goleadas por 6 a 0 para Vila Nova e Londrina e foi dominada por adversários que também lutam contra o rebaixamento.

Kleina precisa devolver ao time um nível mínimo de competitividade. A missão passa por reduzir os espaços defensivos, aumentar a intensidade e impedir que a equipe abandone os jogos depois de sofrer o primeiro gol.

3. Encontrar um ataque

A Ponte marcou apenas 17 gols em 30 rodadas. Sob o comando de Kleina, balançou a rede uma vez em seis partidas. A falta de criação e de presença ofensiva transformou qualquer gol sofrido em obstáculo quase definitivo.

Brandão marcou na vitória sobre o CRB, mas o setor ainda procura uma formação confiável. Encontrar jogadores capazes de produzir ofensivamente será fundamental, inclusive para o planejamento da próxima temporada.

4. Reconstruir o vestiário

Kleina chegou ao clube durante a paralisação do elenco profissional. Jogadores alegavam atrasos de até seis meses e diziam enfrentar um sentimento de abandono. Alguns buscaram a rescisão contratual e deixaram a Ponte durante a competição.

O treinador reconheceu que os problemas pessoais acompanham os atletas dentro de campo. Seu desafio será manter o grupo unido mesmo diante de questões que não podem ser resolvidas pela comissão técnica.

5. Proteger os jovens

A crise obrigou a Ponte a utilizar jogadores da base antes que muitos estivessem preparados para assumir tamanho peso. Contra o América-MG, a equipe entrou em campo praticamente formada por jovens para evitar um W.O.

Kleina defende a mistura entre juventude e experiência. Nas rodadas finais, terá de dar espaço aos garotos sem transformá-los em responsáveis por um rebaixamento construído muito antes de suas entradas no time.

6. Descobrir quem pode permanecer

A reta final também funcionará como uma avaliação para 2027. Com a perspectiva de redução de receitas e mudanças profundas no elenco, cada partida será uma oportunidade para identificar quem possui condições técnicas e emocionais de participar da reconstrução.

O processo envolve titulares, reservas e jogadores da base. Mais do que escalar o time para o próximo jogo, Kleina terá de ajudar a definir quais peças podem formar a estrutura da próxima temporada.

7. Resgatar o torcedor

O torcedor começou 2026 comemorando o primeiro título nacional da história da Ponte. Meses depois, acompanhou o rebaixamento no Campeonato Paulista, a greve do elenco e uma das piores campanhas já registradas na Série B.

Recuperar essa relação não depende apenas de resultados, mas de entrega. Mesmo que a queda seja confirmada, a torcida precisará enxergar alguma reação para voltar a acreditar em um projeto esportivo.

8. Começar 2027 antes do fim de 2026

O último trabalho será o mais importante. A Ponte não pode esperar o término da Série B para discutir a próxima temporada. A montagem do elenco, a definição do comando técnico, a situação dos contratos e o impacto da possível SAF exigem decisões antecipadas.

Kleina conhece o clube como poucos. Antes do atual retorno, acumulava 232 partidas e era o quarto treinador que mais vezes havia comandado a Ponte. Participou do acesso à Série A em 2011, do vice-campeonato paulista de 2017 e da reação que evitou a queda na Série B de 2021.

Desta vez, porém, talvez não exista espaço para outro resgate. O maior trabalho de Kleina será fazer com que o provável rebaixamento não represente o encerramento de uma história, mas o início de uma reconstrução que a Ponte adiou por tempo demais.

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