Suspeita de funcionária fantasma movimenta os bastidores do São Paulo

Investigação se baseia no fato de Ivana Zavatti, registrada como Assistente Administrativo desde 2021, manter uma rotina de trabalho em "home office"

Um dos principais indícios de irregularidade é a folha de ponto "viciada", referente aos períodos de janeiro e março de 2026

Atletas do São Paulo reunidos (Foto: Rubens Chiri-SPFC)
Atletas do São Paulo reunidos (Foto: Rubens Chiri-SPFC)

São Paulo, SP, 06 – O ambiente político do São Paulo entrou novamente em ponto de ebulição com a abertura de um procedimento interno, conduzido pelo presidente Harry Massis Jr, para investigar uma suspeita de funcionária fantasma. Trata-se de uma secretária ligada a Olten Ayres de Abreu Jr, presidente do Conselho Deliberativo do clube e aliado do ex-presidente Julio Casares, que renunciou ao cargo após se tornar alvo de investigações do Ministério Público.

A investigação se baseia no fato de Ivana Zavatti, funcionária registrada como Assistente Administrativo desde fevereiro de 2021, manter uma rotina de trabalho em “home office”, modelo que não é adotado pelo São Paulo e não comparecer às instalações do clube, seja no MorumBis ou na Barra Funda.

ENTENDA

A informação foi divulgada primeiramente pelo Ge e confirmada pelo Estadão. Olten Ayres foi procurado pela reportagem, mas ainda não se manifestou. A matéria será atualizada em caso de posicionamento.

Um dos principais indícios de irregularidade é a folha de ponto “viciada”, referente aos períodos de janeiro e março de 2026. A reportagem teve acesso ao documento e identificou que os registros de entrada e saída são preenchidos de forma idêntica todos os dias: início às 8h, intervalo das 13h às 14h e encerramento às 17h48.

O DOCUMENTO

Documentos mostram ainda que Ivana envia suas folhas de frequência ao RH do São Paulo por meio de um e-mail corporativo externo pertencente ao escritório de advocacia particular de Olten Ayres, o que levanta a suspeita de que ela preste serviços privados enquanto é remunerada pelo São Paulo. O salário é de aproximadamente R$ 7 mil. Diante da investigação, a tendência é de que a funcionária seja demitida.

Ayres também é alvo de um pedido de afastamento pela Comissão de Ética do clube, em um processo administrativo disciplinar aberto a partir de questionamentos sobre sua atuação. A votação do tema está prevista para os próximos dias e pode definir a permanência ou não do dirigente no cargo de presidente do Conselho Deliberativo.

CHUMBO TROCADO

A política são-paulina ferve há pelo menos duas semanas, quando Massis protocolou um pedido de afastamento de Olten Ayres do quadro associativo. O presidente acusa o líder do Conselho de gestão temerária na sua atuação sobre a reforma estatuária do São Paulo, que travou ainda em estágio inicial.

O pedido foi recebido pelo próprio Ayres, enquanto presidente do Conselho Deliberativo. Ele encaminhou a solicitação à Comissão de Ética, a mesma responsável pela indicação das recentes expulsões de Douglas Schwartzmann e Mara Casares. Ele decidiu que não irá conduzir a reunião que analisará o parecer da Comissão de Ética. A responsabilidade pela condução da reunião passa ao vice-presidente do Conselho Deliberativo, João Farias Júnior.

O grupo emitiu um parecer que desconsiderou expulsão, mas sugeriu suspensão de Ayres. O Conselho Deliberativo votará a questão no dia 12 de maio. A Comissão de Ética tem na mês ainda um pedido de expulsão de Júlio Casares, ex-presidente que teve contas reprovadas.

SAIBA MAIS

Paralelamente, Harry Massis Jr tornou-se alvo de um pedido de expulsão por gestão temerária. O documento foi protocolado pelo conselheiro vitalício Carlos Henrique Sadi e foi encaminhado ao Conselho Deliberativo e à diretoria executiva do clube.

O pedido de expulsão também cita suposta irregularidade de Massis na formação do Conselho de Administração. De acordo com a petição, o órgão não conta atualmente com o número mínimo de três conselheiros independentes, como prevê o estatuto, e poderia comprometer a legitimidade das decisões do colegiado. A situação foi corrigida pela gestão com novas nomeações.

Diferentes grupos políticos chegaram a elaborar um pedido de impeachment de Massis, o que não avançou. Entretanto, o caso já desenha um possível cenário eleitoral, com antigos opositores de Casares e ex-aliados do ex-presidente (como Olten Ayres) contra Massis e outras forças que mantiveram presença na gestão mesmo após afastamento de Júlio Casares.

LEIA A NOTA DE OLTEN AYRES:

O Presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube, Olten Ayres de Abreu Jr., esclarece que a colaboradora que atuava no apoio administrativo à sua rotina exercia suas funções desde 2021, em regime remoto desde sua contratação, com dedicação às atividades vinculadas ao Clube e submetida aos controles internos aplicáveis, incluindo controle de ponto.

Suas atribuições envolviam apoio administrativo e operacional ao Presidente do Conselho Deliberativo, organização de agenda, compromissos e demandas institucionais. Eventuais ajustes de horários pessoais tinham finalidade exclusivamente logística, pra evitar conflitos com a agenda do Clube e garantir prioridade às atividades do São Paulo Futebol Clube.

Olten ressalta que a existência de apoio administrativo às Presidências dos órgãos do Clube não é exceção, privilégio ou situação atípica. A própria Presidência da Diretoria Executiva conta com o apoio de quatro secretárias, além de outros órgãos institucionais que também dispõem de profissionais para suporte administrativo.

Sobre o uso de email externo, o Presidente esclarece que a medida tinha finalidade técnica, organizacional e de segurança da informação. Segundo Olten, ele próprio não utiliza o email institucional do SPFC para determinadas comunicações sensíveis, justamente para preservar sigilo, rastreabilidade e proteção de informações estratégicas relacionadas ao Conselho Deliberativo.

O Presidente afirma ainda que, até onde tem conhecimento, não havia qualquer fato concreto, apontamento funcional, irregularidade administrativa ou elemento objetivo que pesasse contra a colaboradora.

Nesse contexto, o desligamento causa preocupação e não pode ser analisado de forma isolada. Para Olten, a medida se apresenta como arbitrária, desproporcional e sem justificativa razoável, especialmente por ocorrer após questionamentos direcionados à sua rotina administrativa.

O episódio reforça a percepção de que o desligamento possa representar uma forma indireta de retaliação política à atuação institucional do Presidente do Conselho Deliberativo.

Olten reitera que nenhuma colaboradora deve ser penalizada, exposta ou desligada sem causa objetiva aparente por exercer funções junto a um órgão institucional do Clube, dentro de uma rotina conhecida desde 2021 e submetida aos controles internos do próprio São Paulo Futebol Clube.

Por fim, o Presidente do Conselho Deliberativo defende que qualquer medida administrativa adotada pelo Clube observe critérios objetivos, impessoais, transparentes e compatíveis com os princípios de governança que devem nortear a instituição.