O jogo invisível: como a inteligência emocional decide partidas em momentos depressão

Muitas vezes, o resultado é definido por um jogo que não aparece nas estatísticas: o emocional

Ansiedade, medo de errar, pressão da torcida, cobranças internas. Tudo isso entra em campo junto com os atletas — e, quando não é bem administrado, pesa

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Foto: Divulgação

São Paulo, SP , 19 (AFI) – Em jogos grandes, quando o estádio está cheio e o placar aperta, nem sempre vence o time mais técnico. Muitas vezes, o resultado é definido por um jogo que não aparece nas estatísticas: o emocional.

Ansiedade, medo de errar, pressão da torcida, cobranças internas. Tudo isso entra em campo junto com os atletas — e, quando não é bem administrado, pesa. Para o consultor internacional e coach de alta performance Kevin Piccardo, a inteligência emocional é um dos fatores mais decisivos no esporte de alto rendimento hoje.

“Em momentos decisivos, a diferença raramente está no preparo físico. Está na capacidade de manter clareza emocional quando tudo ao redor tenta te tirar do eixo”, afirma.

Pressão que paralisa ou impulsiona

A pressão faz parte do esporte. A questão é como cada atleta e cada equipe lidam com ela.
Segundo Kevin, quando o emocional não é trabalhado, o corpo responde com excesso de tensão, perda de concentração e decisões precipitadas.

“O atleta sente, mas muitas vezes não sabe nomear o que está acontecendo. Ele só percebe que o desempenho caiu. Quando a emoção não é reconhecida, ela assume o controle”, explica.

Esse cenário se repete especialmente em jogos eliminatórios, finais e decisões por pênaltis, quando o erro ganha um peso desproporcional.

Vivência prática em ambiente competitivo

A visão de Kevin não vem apenas da teoria. Ele atuou no Monroe College, em Nova York, acompanhando mais de 100 estudantes-atletas internacionais em uma temporada marcada por forte cobrança esportiva, acadêmica e cultural.

Durante esse período, as equipes da instituição conquistaram resultados históricos, incluindo o título nacional invicto da equipe feminina em 2018. Para ele, o trabalho emocional foi parte essencial desse processo.

“Era um ambiente multicultural, com atletas longe de casa, lidando com estudo, treino e competição ao mesmo tempo. Se o emocional não estivesse alinhado, o rendimento simplesmente não vinha”, relembra.

O papel do treinador como líder emocional

Kevin destaca que, dentro de campo, o treinador tem uma função que vai além da tática.
Ele é, muitas vezes, o principal regulador emocional do grupo.

“O time espelha o comportamento do treinador. Se ele transmite nervosismo, isso se espalha. Se transmite calma e confiança, o grupo se sente mais seguro para executar”, analisa.

Essa liderança emocional se torna ainda mais importante em momentos de adversidade, como um gol sofrido ou uma sequência de erros.

Times preparados emocionalmente reagem melhor

Para o especialista, equipes que treinam o emocional conseguem manter o padrão de jogo mesmo quando algo sai do script.

“Errar faz parte. A diferença é o que vem depois do erro. Times emocionalmente preparados não se desorganizam, não entram em pânico e conseguem reagir”, afirma.

Segundo ele, essa capacidade de recuperação emocional é o que costuma separar equipes competitivas das campeãs.

Inteligência emocional também se treina

Ao contrário do que muitos pensam, inteligência emocional não é algo inato. É uma habilidade que pode ser desenvolvida no dia a dia.

“Respiração, foco, comunicação e autocontrole precisam ser treinados como qualquer outro fundamento. Não dá para esperar que o atleta aprenda isso só no dia do jogo”, conclui.

Hoje, à frente da Twin Bridge Group LLC, Kevin aplica conceitos do esporte de alta performance no desenvolvimento de líderes e equipes em diferentes áreas, mas reforça: no esporte, o jogo invisível continua sendo um dos mais decisivos.