Documentário resgata origens da Ponte Preta e reacende debate sobre identidade negra no futebol brasileiro

A produção investiga a relação entre a cidade, marcada por episódios de violência contra pessoas escravizadas

O documentário resgata registros, depoimentos e memórias que ajudam a reconstruir o ambiente social da época e o impacto do clube para a população negra da cidade

Ponte Preta
Foto: Divulgação

Campina, SP , 28 (AFI) – Conhecida por ter uma das torcidas mais populares do interior e um dos mascotes mais emblemáticos do país, a Ponte Preta carrega uma história marcada pela presença e resistência da população negra de Campinas, um aspecto frequentemente ignorado nos registros oficiais do futebol brasileiro.

É essa narrativa que o novo documentário do PELEJA coloca no centro da discussão, reconstruindo as origens do clube e seu papel como território simbólico de acolhimento, pertencimento e representatividade.

PRODUÇÃO

A produção investiga a relação entre a cidade, marcada por episódios de violência contra pessoas escravizadas, e a Ponte Preta, que desde seus primeiros anos recebeu trabalhadores negros da ferrovia e se consolidou como espaço de convivência em um contexto de forte segregação social.

O filme relembra, entre outros pontos, a presença de Miguel do Carmo, apontado como o primeiro jogador negro da história do futebol brasileiro e figura decisiva na formação do clube.

“Sempre acompanhei de perto a história da Ponte Preta e como a pauta racial é importante para o clube e seus torcedores. Mas, apesar do seu pioneirismo, também sempre foi muito claro que era uma história que não recebia a atenção que merece, principalmente por ser de um time do interior”, afirma Juliano Pupo, roteirista do PELEJA.

DOCUMENTÁRIO

O documentário resgata registros, depoimentos e memórias que ajudam a reconstruir o ambiente social da época e o impacto do clube para a população negra da cidade. A obra também traz a participação de historiadores, torcedores e personagens que fizeram parte dessa trajetória, como representantes das torcidas organizadas e famílias que viveram o cotidiano do bairro em torno do Majestoso.

“Mostrar o deslocamento da relevância histórica da cidade de polo escravocrata para o que ela é hoje é significativo porque mostra também a história e a presença da população negra nesse processo. Do meu ponto de vista, nosso documentário reforça como a Ponte é pioneira em questões acerca do futebol e da sociedade.”, explica Luiza Moura, produtora do PELEJA.

A produção também destaca figuras simbólicas da arquibancada, entre elas Dona Ana, torcedora histórica que mantinha uma capela no Moisés Lucarelli e foi reconhecida pelas organizadas como um dos pilares da cultura pontepretana. Sua trajetória dialoga com a presença das mulheres negras nas arquibancadas e com o papel da torcida feminina, representada pela mascote Ponteca.

Identidade, resistência e o papel do futebol

O documentário chega em um momento em que clubes e instituições esportivas vêm ampliando discussões sobre diversidade e inclusão. Embora o futebol brasileiro tenha avançado em iniciativas de enfrentamento ao racismo, o tema continua a ser um dos principais desafios do esporte no país.

A Ponte Preta se consolidou como símbolo de resistência para a comunidade negra de Campinas, especialmente em períodos em que espaços sociais tradicionais restringiam a participação de pessoas negras. O Moisés Lucarelli,  construído com apoio da própria torcida, reforça essa conexão entre o clube e os moradores do entorno, que transformaram o estádio em ponto de encontro e expressão cultural.

“A ideia sempre foi contar essa narrativa à maneira do PELEJA, valorizando as pessoas e suas histórias. A Ponte une passado e presente de maneira muito particular, e esse documentário busca refletir sobre esse legado num momento em que a discussão sobre identidade e raízes ganha ainda mais relevância”, completa Murilo Megale, CCO do PELEJA.

O documentário já está disponível no canal do PELEJA no YouTube e nas redes sociais do veículo.