Opinião Diego Viñas: Desconhecido até quando?

Campinas, SP, 16 (AFI) – Pela rede virtual ainda é muito fácil encontrar notícias de que o “Desconhecido, Afonso promete mostrar bom futebol” ou que ele, o “Desconhecido, Afonso Alves é convocado por Dunga”. Igualmente acontece em outras mídias, sem exceção. Televisão, rádio, impresso e, do jeito que a imprensa é, até por satélite ou código Morse a mesma informação é veiculada.

Por que essa insistência em não querer divulgar o jogador Afonso como um artilheiro na Holanda? A vontade que os jornalistas demonstram em rotular o jogador como uma vacilada do técnico brasileiro é tão grande, que muitos ainda consideram que o futebol holandês seja de qualidade duvidosa. Isso mesmo! O discurso é simples: goleador na Holanda? Lá, até eu!

Dois brasileiros – por sinal, muito lembrados com o aparecimento deste tal Afonso – já estiveram neste futebol holandês. Ronaldo e Romário. A diferença é que os apelidos dados pela imprensa a eles foram bem diferentes. O primeiro, conhecido como ‘Fenômeno’. O segundo, que até ‘Baixinho’ lhe cai bem, agora é chamado de o ‘Homem dos mil gols’. Com o forte e preciso ataque da imprensa, a sociedade fica numa situação inofensiva. De um lado, profissionais despreparados na produção de uma informação. Do outro, receptores incapazes de interpretá-la. Quem é mais culpado por essa falha na comunicação? Afinal, quem é o responsável pelo ruído na notícia, ou melhor, que ruído é esse?

Os comunicadores sentem-se no direito de noticiar um ponto de vista para que seja indiscutivelmente acreditado para quem quer que seja. Em tese, o jornalista deve fazer o caminho oposto. Enviar a notícia pura, sem qualquer tempero, apenas a verdade, o famoso fato em si para que o cidadão o interprete como preferir. No exemplo da novidade de Dunga, a missão está cumprida para os grandes meios de comunicação. A massa já está careca de saber que Afonso, antes de ser um artilheiro, é um desconhecido. Como tal, muito longe de ser um futuro ídolo. Pior ainda, foi que o jogador não conseguiu marcar nem um gol dos trinta e quatro marcados no nacional da Europa que a torcida tanto esperava.

Quando Robinho pedalou na frente do meia corintiano Rogério em 2002, o atacante ex-santista era quase o Pelé. Por quê? Porque aconteceu às vistas do torcedor brasileiro que, se não for testemunha do fato, rende-se como cúmplice do que é manchete na imprensa.É muito tentador saber que, como um profissional, tem-se o mesmo poder de um formador de opinião. Só que tem muita gente que leva essa velha máxima do jornalismo muito a sério. Não é um erro teórico, mas de valores. Outras regras existem como a de ser um prestador de serviço à sociedade.

Deve ser o nome mais bonito. Formador de opinião! Prestador é… sei lá, feio. Entra em cena o conflito de ego. O ser-humano como ser individual sente mais prazer em apresentar a opinião da notícia. Delegar o mesmo a um monte de pessoas – chamadas público leitor, telespectador ou ouvinte – que nem se sabe quem é? Não, não.Na faculdade, o formado estudou por quatro anos para ser um bom profissional. Os exemplos para os chamados ‘focas’ estão, na sua maioria, nas colunas de opinião dos jornais. Isto é, todos precisam opinar por força maior. A sensação é de que parece que nenhum jornalista permite que a sociedade, que não estava na sala de aula investindo no conhecimento da comunicação, seja responsável por formar a opinião pública.

Solução existe, basta que as duas partes – mídia e sociedade – entrem num acordo. Se a imprensa mandar a notícia crua, cabe ao público interpretar. Se a imprensa quiser opinar, tudo bem. Com tanto que a sociedade saiba disso claramente e, também, que tenha o conhecimento do fato para poder, ao mesmo tempo, gerar seu próprio ponto de vista. A tendência, no entanto, é contrária e mais forte. O mercado exige especulação. Notícia não gera dinheiro. Opinião sim! E quanto mais polêmica for a notícia, mais o caixa agradece.