Uma lição a ser aprendida - Por Romeu Carvalho Castro

New Jersey, USA, 24 (AFI) – O Futebol Feminino nos Estados Unidos é definitivamente um programa para toda a família, levando aos estádios milhares de crianças acompanhadas dos Pais, avós e irmãos mais velhos. O Giants Stadium recebeu um publico de quase 17 mil pessoas neste sábado, 40% formado por crianças de idade inferior a 14 anos de idade.

A tradicional torcida brasileira, formada pelos imigrantes que buscam na América do Norte uma vida melhor também se fez presente, mas acabou superada em número e empolgação por uma entusiasmada torcida infantil, formada em sua maioria por crianças loiras, de olhos azuis e que não fala uma única sentença em Português… Centenas de crianças Americanas levaram cartazes, faixas e bandeiras para apoiar as craques que aprenderam a amar na extinta WUSA, a Liga Profissional de Futebol Feminino dos Estados Unidos, que promete voltar em novo formato na temporada 2008.

Kátia Cilene, Formiga e Daniela Alves são os ídolos destes pequenos e orgulhos fãs, que gritavam “Go Brasil, Go”, algo parecido com o avante Brasil dos anos 70. O nome da atual embaixadora da FIFA, a meio-campista Sissi, também era lembrado, apesar dela não vestir a camisa do Brasil desde o ano 2000, nas Olimpíadas de Sidney.

Com 100% dos espaços publicitários vendidos e 17 mil torcedores que pagaram entre 40 e 180 Reais por um ingresso, a partida arrecadou um valor bruto superior a um milhão de dólares. No intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, a Confederação Americana de Futebol levou ao gramado os jogadores da seleção masculina Sub-20, para que pudessem ser apresentados e ovacionados pelo publico, já que na preliminar conquistaram uma difícil vitória sobre o Chile, por 2 X 1, mas como o público chegou apenas para o jogo das meninas, os marmanjos tiveram que pegar uma carona no sucesso das mulheres para receber os tão desejados aplausos.

Durante a preliminar, muitas famílias preferiram permanecer no amplo estacionamento do Giants Stadium para preparar um churrasco no melhor estilo Norte-Americano, regado ao tradicional molho barbecue e muito refrigerante.

Na saída, os patrocinadores tinham várias campanhas direcionadas aos torcedores, anunciando carros, cartões de crédito, marcas esportivas, bancos, cosméticos e sucos dentre uma grande variedade de produtos. Todos investindo de maneira digna na saudável opção da mulher pela prática do futebol.

No Brasil, ao contrário, a maioria das agências de publicidade torce o nariz quando recebe alguma proposta relacionada ao futebol feminino. Perto de grandes competições, como o Pan e as Olimpíadas, a exposição de mídia melhora como conseqüência direta da competência e talento das nossas craques, que fazem desta a única modalidade coletiva brasileira a alcançar três semifinais olímpicas consecutivas.

Neste quadro, surgem pessoas que num gesto que poderia ser definido como oportunista, resolvem associar determinadas marcas à modalidade, sem entretanto fazer qualquer investimento significativo para a melhora das condições de vida e trabalho das nossas craques. No Campeonato Estadual promovido pela secretaria de Esportes, turismo e Lazer do Estado de São Paulo, determinada empresa teve sua marca estampada em Painéis Estáticos e calções de alguns clubes, em troca de uma verba inferior a 300 Reais por partida disputada durante a primeira fase.

Clubes tradicionais, como o Saad/Bioleve, se recusaram terminantemente a utilizar tal marca, já que para sobreviver necessitam de investimento, e não esmolas. No caso do Saad, é necessária uma verba que beire os R$ 60 mil Reais por mês, investimento esse que também é almejado e merecido por equipes estruturadas e competentes como a Ferroviária, agora apoiada pela Usina Maringá, o CEPE/Caxias, auxiliado pela Petrobrás, e o Santos FC, que vem realizando um bem sucedido e necessário trabalho de renovação nas mãos do competente técnico Kleiton Lima.

Passa pelo poder de decisão na escolha dos produtos e serviços pelas donas de casa brasileiras, em supermercados, postos de gasolina, e até mesmo salões de beleza, o futuro do futebol feminino deste País. Neste momento, os principais clubes da modalidade se abastecem nos postos Petrobrás, e consomem suco, água e isotônicos bioleve, adoçados com o açúcar da usina Maringá.

Como se pode notar, ainda falta a participação dos fabricantes muitos itens presentes no cotidiano da mulher brasileira para um apoio digno a esta e outras modalidades desportivas. Se já temos onde abastecer, falta o apoio da indústria automobilística, por exemplo, que produz modelos voltados para o público feminino, mas não investe um único centavo no futebol das nossas meninas.

Vale lembrar que para manter o futebol feminino mais competitivo do mundo, cada clube de ponta dos estados Unidos tem um mínimo de oito patrocinadoras, enquanto a maioria absoluta das equipes brasileiras não tem nenhum. Para não culpar apenas os homens, vale perguntar o que pensam as grandes executivas e empresárias brasileiras, que não destinam recursos disponíveis no mercado ao futebol feminino. Ainda é tempo de mudar e ganhar.