Opinião FI: Ariovaldo Izac fala de Dionísio Piovatto

Campinas, SP, 02 (AFI) – O articulista do Portal Futebol Interior, Ariovaldo Izac, em sua coluna “Reminiscências” fala de um dos, se não o, maior narrador esportivo que a cidade de Campinas já pode ouvir pelas ondas do rádio.

Dionísio Pivatto, que hoje já não vive entre nós, sempre comemorou de forma efusiva o Dia do Radialista (21 de setembro) e o Dia do Rádio (25 de setembro), fato que hoje já não acontece mais.

Confira o que diz Ariovaldo Izac.
Discípulos do mestre de jornalismo Eduardo Mattos aprenderam a opinar em coluna esportiva de forma impessoal. Permita-me, caro leitor, contrariar os ensinamentos e hoje usar o verbo na primeira pessoa do singular, que, concordo, reflete de forma até arrogante. Há circunstâncias, contudo, que é aplicável para reprodução fiel de diálogos e precisão da narração. Portanto, está justificado.

Outrora o Dia do Radialista e Dia do Rádio, respectivamente 21 e 25 de setembro, eram comemorados efusivamente. Profissionais da área se enchiam de orgulho, com confraternizações.

Evidente que esse negócio de comemoração de dia disso ou dia daquilo ficou fora de moda, exceto Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia dos Namorados e Natal, por motivos óbvios: apelo do comércio pelos presentes.

De qualquer forma, embora tardiamente, a coluna estende os cumprimentos a todos os radialistas. A final, contrariaram pessimistas de plantão que projetaram o sepultamento do rádio com o advento da televisão. Está provado que ambos podem repartir os espaços e isso é ótimo.

Feita esta introdução, que no jargão jornalístico é chamada de “nariz de cera”, façamos justiça àquele que foi um fenômeno na narração esportiva em Campinas: Dionísio José Pivatto, sugado pelas traiçoeira águas do Rio Atibaia em 1988.

Dionísio estava no auge da carreira, na Rádio Brasil, quando foi contratado pela antiga Rádio Educadora – hoje Rádio Bandeirantes – a peso de ouro. E logo na estréia, na casa nova, já arrastou uma leva de ouvintes que o acompanhava. Mil planos na cabeça e subitamente morreu afogado quando fazia aquilo que mais gostava fora do rádio: pescaria, num sábado.

Na véspera da morte, irradiante, transmitiu no Estádio do Canindé o jogo Corinthians e Ponte Preta, o único realizado pela Ponte quando quis entrar pelas portas dos fundos no Paulistão de 1988, respaldada por uma liminar. A Ponte foi boicotada por todos outros adversários. Entrava em campo, dava a saída de bola após apito inicial do árbitro, e depois gastava o tempo exigido por causa da ausência do adversário.

E na citada sexta-feira, Dionísio esgoelou como de costume na transmissão, mal sabendo que a sua missão profissional acabava naquela noite, após um dia recompensado com fechamento de novos contratos publicitários. E antes do jogo ele me convidou para dividirmos um “peixinho” no jantar, em restaurante nas imediações do estádio. E sem rodeios propôs que eu retornasse à antiga casa, ao revelar a intenção de montar uma equipe de “ponta”, desconsiderando que ele era o “puxador do samba”, e os demais meros coadjuvantes.

Infelizmente, Dionísio não me deu tempo para ponderar troca de emissora de rádio e possibilidade de conciliação com atividade em jornal. Partiu de forma estúpida e com agravante da dificuldade para localização de seu corpo. Ainda bem que naquele jantar foi possível lhe revelar fato presenciado meses antes, quando ele ainda militava na Rádio Brasil. Na ocasião, meu velho Fusquinha havia me deixado no meio do caminho do Estádio Moisés Lucarelli, e o ônibus urbano não só me socorreu como permitiu flagrar, no percurso até o campo da Ponte, aproximadamente 20 rádios ligados na abertura da jornada esportiva.

E sabem qual a proporção favorável a Dionísio Pivatto para a concorrência? Todos os rádios estavam ligados na transmissão do Dionísio, ou melhor, na Rádio Brasil.

Quando relatei o fato com esse detalhamento, ele ficou arrepiado, incrédulo. Embora convicto da liderança de audiência no rádio esportivo de Campinas, jamais imaginava que fosse de forma massacrante, um rolo compressor sobre nós, de outras emissoras.

Embora eu fosse repórter – portanto sem concorrer diretamente com narradores -, confesso que na ocasião fiquei intrigado, questionando o que faria no estádio empunhando microfone de emissora concorrente, se todos queriam escutar o Dionísio com os seus jargões do tipo “é fogo na fundanga”, quando se referia a lances com projeção de gol.

O jargão ficou tão marcado que ele ganhou o apelido de Fundanga. Era um profissional que fazia das transmissões um show. E quando fechava o microfone, convicto da missão cumprida, transformava-se em uma criança. Nas inesquecíveis viagem em ônibus da empresa Ensatur – do falecido Nabi Chedid -, que concentravam as emissoras de rádio da cidade, soltava o tenor nas modas de viola, contava piadas e “ouriçava” a turma.

Assim era Dionísio, feliz pela dádiva profissional de narrar futebol e pela valorização de cada momento da vida.