Final de 77: Odirlei - O árbitro quis me ferrar

Odirlei 004 130E foi a ausência de Odirlei na partida decisiva contra o Corinthians, no dia 13 de Outubro de 77, há 30 anos, um dos fatores preponderantes para a derrota, por 1 a 0, no Morumbi. Na partida anterior, vencida pela Ponte Preta, por 2 a 1, no recorde de público do Estádio do São Paulo Futebol Clube – 138.032 pagantes -, o lateral recebeu o terceiro cartão amarelo, aos 45 minutos do segundo tempo, em um lance bobo. No entanto, não foi isso que achou o árbitro Romualdo Arppi Filho. Achou? Ou estava determinado a achar? Desde aquele 9 de outubro – três dias antes da partida final – até hoje, com 55 anos, Odirlei não tem dúvidas.Campinas, SP, 11 (AFI) – O maior jogador da história da Ponte Preta foi Dicá, mas para muitos, inclusive para o Mestre, a peça fundamental da equipe vice-campeã paulista de 1997 era o lateral-esquerdo Odirlei (foto). Um verdadeiro ponta, que, junto com Tuta, desbancava qualquer defesa adversária, sem muito esforço, somente com a habilidade e o entrosamento.

“Eu não me recordo muito bem do lance. Lembro que a bola estava para sair do campo e a chutei de vez para fora. Tem gente que fala que a bola foi para a arquibancada, outros falam que foi um chutinho. Não sei direito. Para mim, foi apenas um toque. Mas ele (Romualdo) veio em minha direção falando: ‘Você está ferrado, vai ficar de fora do terceiro jogo’. Ajoelhei e implorei que não fizesse aquilo, mas não tinha jeito, já estava tudo combinado. Se não estivesse, ele teria que mostrar o cartão para o Jair Picerni (lateral-direito), que chutou a bola três vezes para fora do campo, mas o Jair não estava pendurado, diferente de mim”, revelou.

Com Odirlei fora da decisão, a Ponte Preta não perdeu apenas em força ofensiva – Ângelo, que o substituiu, não tinha a mesma técnica -, mas também aumentou o poderio ofensivo do adversário. “Quando eu jogava, o Basílio ficava preso na minha marcação e o Vaguinho não podia atacar tanto. Sem minha presença, o Vaguinho ficou livre para cair na ponta e o Basílio não tinha com quem se preocupar. Eles começaram a nos desmontar ali. Depois veio a expulsão do Ruy Rei, no início do último jogo”, comentou.
Meteram a mão!
Que o time da Ponte Preta era superior, todos sabiam, até os próprios jogadores do Corinthians chegaram a admitir. No entanto, para Odirlei, forças maiores evitaram que o título fosse para o Moisés Lucarelli. Naquela época, o Corinthians vivia um jejum de 23 anos sem conquistar nenhum título e a pressão era gigantesca.

“O que fizeram com a gente foi sacanagem. A arbitragem influenciou tanto na minha suspensão como na expulsão do Ruy Rei (o árbitro que expulsou o atacante pontepretano foi Dulcídio Wanderley Boschillia), e tem gente que ainda fala que o Ruy estava vendido. Isso é falta de consideração. O Ruy Rei era um exemplo de profissional. Quem estava engavetado era o árbitro”, afirmou. Mas quem pensa que Odirlei vive até hoje frustrado pela perda do título se engana.

“A perda do título foi ruim, mas foi bom. Graças ao Corinthians, aquele time da Ponte Preta, que era uma verdadeira máquina, é lembrado até hoje. Já se passaram 30 anos e nós continuamos na mídia”. Se Odirlei não estava em campo na grande final, devido à suspensão, onde estava então?

Premonição!
“Foi um pesadelo não participar daquele jogo. Estava com a minha namorada em Campinas e fomos ao Bar do Capitão, no Guanabara, tomar uma cervejinha. Quando o Ruy Rei foi expulso, sabia que iríamos perder. Eles completaram o que tinham começado no outro jogo, dando o terceiro cartão amarelo para mim. Na primeira fase, vencemos as duas partidas contra o Corinthians (4 a 0, em Campinas, e 2 a 1, em São Paulo), mas na final, eles (Corinthians) levaram sorte na primeira e houve sacanagem na segunda e terceira partida”.

As três partidas da final foram realizadas no Estádio do Morumbi, em São Paulo, apesar da Ponte ter realizado a melhor campanha das fases inicias, chegando invicta á final. O time campineiro, no entanto, não se deixou abalar por isso. Em uma reunião com dirigentes, o local das decisões pouco interessou ao grupo de jogadores, que sabia da superioridade da alvinegra campineira.

“Se não tivesse forças extra-campo, ganharíamos em qualquer lugar. A partida poderia ter sido no Maracanã, Morumbi, como foi, ou Mineirão. Nós sabíamos que tínhamos condições de vencer em qualquer estádio. E outra, jogar no Morumbi lotado era muito bom também. Mas sabemos que houve alguma influência para o resultado final”, completou o ex-lateral.

Odirlei 002 130Só mais um…
O vice-campeonato paulista daquele ano não foi o único da carreira de Odirlei, que não conquistou nenhum título ao longo dos anos em que foi jogador de futebol. Após a tragédia de 77, ele voltou a ser vice pela Ponte em 79 e 81. Três anos mais tarde, no Bangu, o título carioca bateu na trave. Por último, em 1986, Odirlei ficou com vice-campeonato pernambucano atuando pelo Santa Cruz.

O fenômeno da lateral esquerda passou por 12 clubes, e encerrou a carreira no Linense-SP. Mas, como a maioria dos jogadores, não conseguiu se desvencilhar do futebol. Defendeu a Seleção de Masters de 90 à 94, trabalhou, por um ano, junto com Dicá, na escolhinha “Mestre Dicá”.

Agora, está há 14 anos no Clube Bonfim, onde comanda treinos no período noturno. De dois anos para cá, começou a comandar as categorias de base do futebol da Ponte Preta, cuidando, no Jardim Eulina, dos garotos nascidos entre 1990 e 2000. “Estou adorando o que eu faço e não quero parar mais”, finalizou.

Perfil
Nome: Odirlei Magno
Nascimento: 208/03/1952, em Curitiba-PR
Clubes: Pinheiros (atual Paraná); Atlântico Erechim-RS; Ponte Preta; Portuguesa, Bangu, Santa Cruz, Atlético de Três Corações-MG; Comercial-SP; União Barbarense; Velo Clube; Marília; Linense.