Crônica Rodrigo Viana - Ao Mestre com carinho

Araraquara, SP, 15 (AFI) – A imagem da Ferroviária e de Araraquara é tão entranhada com a do Bazani que, por motivo de viajem, fiquei sabendo da morte dele pela TV Gazeta no domingo à noite. Na mesa redonda de futebol mais antiga da tv brasileira e, em rede nacional, o jornalista Flávio Prado, com tom de pesar na voz, deu a informação. Também outros veículos, mesmo já sendo esta segunda-feira estranha, deram a notícia com o merecido respeito. A Globo, por meio de sua afiliada, o SBT, com um depoimento emocionado do Jorge Kajuru, a Record com o Milton Neves e seu site, enfim, todo mundo falou. E tenho certeza que muitos ainda vão falar, escrever e recordar o maior jogador de futebol da Ferroviária de todos os tempos. Uns podem até dizer que o Bazani alcançou essa amplitude em função de ter jogado no Corinthians de antigamente. Outros dirão que é porque contam que ele deixou o Pelé no banco de reservas num jogo da Seleção Paulista. Outros ainda, talvez com fervor, dirão que é porque ele conquistou o tricampeonato do interior, sem dúvida, nosso maior feito. Quanto a mim, concordo com todos. E ainda acho que tem um ingrediente a mais nessa salada histórica: o Bazani humano.

Ano passado, depois de um jogo e numa das caronas que dei ao velho mestre até sua casa, contei pra ele que o presidente Lula havia citado seu nome, no discurso de campanha na Praça Pedro de Toledo: “Conheço a Araraquara dos tempos de Bazani…”dissera o presidente. Ele me olhou, entre satisfeito e assustado: “Que bom, né menino!” (o Rabi chamava a gente de menino e me atrevo a dizer que, perto dele, todos somos meninos). Era comum o chamarem assim. Segui o conselho mineiro da minha madrinha e fui consultar o “pai dos burros”. O velho Aurélio, escanteado e de páginas amareladas num canto da mesa deu a sentença: Rabi é Rabino abreviado; e Rabino quer dizer: Doutor da Lei ou Sacerdote. Esse sentido foi construído pelo Bazani ao longo do tempo e extrapolou no apelido carinhoso. A língua encontra seus próprios meios de reconstruir a história. E isto é maravilhoso.

Outra vez, naquela que foi sua última entrevista de tv em Rede Nacional, me contou o porquê de ter cursado Odontologia, falou do irmão Bazaninho, lembrou dos amigos, se emocinou e chorou ao ver as fotos dos antigos. Foram dez minutos – uma eternidade em televisão – de pura emoção.

Acho até que a Record News, que gera sua programação de nossa cidade para todo o Brasil, deveria reprisar essa entrevista, na época feita para o programa Golaço, da então Rede Mulher. No meu último trabalho em televisão, na Tv Bandeirantes em São Paulo, bastava eu chegar para fazer uma reportagem no Parque São Jorge, no CT do São Paulo, do Palmeiras ou do Santos, que todos perguntavam: “você é de Araraquara? Como é que está o Rabi?”.

Desde 1954 na Ferroviária – o time foi fundado em 1950 – era comum vê-lo, mesmo em tempos recentes, nas cadeiras cativas do estádio da Fonte Luminosa: anotava os gols e os cartões, comentava as jogadas com quem quer que estivesse a seu lado. Algumas vezes trocava os nomes dos jogadores e misturava épocas num espaço/tempo que apenas ele era capaz de enxergar – o Alzheimer já o havia pegado de jeito. Mas Bazani, amorosamente, resistia. Com o time, ele foi tricampeão paulista do Interior – 1967,68 e 69. Participou, como técnico ou assistente, de outras memoráveis campanhas, como a inesquecível Taça de Ouro de 83 e o campeonato paulista de 85. Viu o time ser campeão da Copa Federação e subir para a série A-2 no ano passado. Portanto, não importava se dentro de campo estivessem o Dudú, o Peixinho, o Maritaca, o Dirceu Careca ou ainda o Mauro Pastor, o Douglas Onça e o Marcão; ou o pessoal de agora. A Ferroviária sempre transcendera, para o Bazani, tudo e todos.

Fora das quatro linhas era querido por todos. Humilde, cuidava para que suas palavras fossem melhores que seu silêncio. Caridoso, doava a muitos, sempre anonimamente, coisas materiais e espirituais. Tenho certeza que assim como eu, muitos têm histórias para contar sobre Olivério Bazani Filho. E devem contar. Minha intenção, primeiro como admirador, depois como repórter, é reforçar o tamanho histórico e afetivo do Bazani não só para a Ferroviária e Araraquara, mas para o futebol brasileiro. Rui Castro, um dos maiores cronistas de futebol, disse certa vez que já tinha lido Sartre, Nietzsche e uma variedade de outros filósofos, mas que só encontrou o sentido da vida quando escutou a narração de um gol do Flamengo.

Toda vez que eu ouvia o Bazani, encontrava o sentido da vida na simplicidade do Rabi. Muitos, com mais idade e experiência, encontraram esse sentido no futebol dele. A prefeitura da cidade, com justiça, já havia feito um busto do mestre na entrada do estádio para imortalizá-lo antes da passagem. Estes são rabiscos de alegria e reverência. Dizem que o clima no velório, apesar da tristeza da perda física, era de um certo alívio, porque a dor do Bazani doía um pouquinho em cada um de nós. Então, ficou essa certeza de que ele descansou e cumpriu a missão.

Mas a jornada não acabou Rabi. Você que emblematizou um time de futebol e uma cidade toda, vai continuar sendo referência pra toda gente que assim, como eu, vê no futebol algo além de uma simples competição. É a própria vida da vida. Eternamente Bazani!