Opinião Clodoaldo Dechichi: Análise da tragédia `Fonte Nova´
O concreto é um material de elevada resistência à compressão, enquanto que as ferragens constituem materiais de elevada resistência à tração. Portanto, elas se completam, ou seja, o concreto armado torna-se resistente à compressão pela ação do concreto e também resistente à tração pela ação do ferro/ferragem.
Campinas, SP, 29 (AFI) – O Brasil presenciou no último domingo uma das maiores tragédias do futebol nacional. Sete torcedores do Bahia morreram, após despencarem do anel superior do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, no empate do Tricolor com o Vila Nova-GO. O motivo: a laje da arquibancada cedeu por conta da falta de manutenção.
O engenheiro civil
Clodoaldo Dechichi, também formado e pós-graduado em Educação Física, sendo professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas PUC-Campinas) e da UNiversidade de Campinas (Unicamp), fez uma análise sobre a situação da Fonte Nova.
Confira a análise de Clodoaldo Dechichi:
Na titulação de engenheiro civil posso passar meu parecer técnico a respeito dos estádios brasileiros, notadamente o Estádio da Fonte Nova (BA). Inicialmente quero me dirigir quanto às lajes que formam os anéis das arquibancadas: elas são convencionalmente constituídas em concreto armado, que é a composição do concreto (agregados de areia, cimento e britas) mais as colocações de armações em ferro (ferragens), daí o nome “concreto armado”.
Quando a laje é utilizada pela torcida (exemplo: nos eventos/jogos), está com sobrecarga (peso de cada cidadão que dela se utiliza + o peso próprio da estrutura) ao qual provoca uma tensão que é determinada pela unidade MPa (Mega Pascal) ou em kgf/cm² (quilograma-força por centímetro quadrado).Estas solicitações de cargas provocam tensões no concreto armado ao qual chamamos de momentos (positivos e/ou negativos), cuja tração é resistida pelas ferragens.
Imaginando que toda a arquibancada está totalmente repleta de torcedores em um evento/jogo e a equipe “da casa” marque um gol, logicamente a laje desta arquibancada ficará mais tensionada, devido às pressões causadas pelos saltos na comemoração do gol, ocasionando as vibrações mecânicas.Imaginando ainda que, esta ferragem (que fica no interior da camada de concreto) seja danificada por falta de uma manutenção preventiva e periódica, provocando a exposição de sua armação.
Neste caso, a seção de concreto armado desta área danificada está totalmente comprometida, colocando em grave e iminente risco as pessoas que estão localizadas nesta área.
Neste caso, os ferros sofrem um processo de aceleração de oxidação, pela presença constante do oxigênio mais as ações das intempéries (ou seja, as armaduras expostas se “enferrujam”), causando a perda da característica de resistência à tração.
Foi o que acabou acontecendo no Estádio da Fonte Nova. Segundo informações jornalísticas, seções de concreto armado encontravam-se totalmente vulneráveis, colocando em risco vidas humanas, pela ruptura da laje e conseqüente queda em altura dos torcedores.Observo que cada seção ou trecho de laje/arquibancada deve haver “junta de dilatação”, por todo alinhamento vertical, cujo objetivo é permitir a dilatação do concreto armado nos dias de calor e o encurtamento do concreto armado em dias de frio.
Observo ainda que a infiltração de água ou umidade também constitui um sério risco de dano à estrutura da laje. Por isso a necessidade de uma impermeabilização adequada da laje para uma proteção segura e eficiente, que também deve possuir manutenção preventiva e corretiva.O que agrava a situação de risco é o fato dos estádios de futebol do Brasil terem sido construídos por muitas décadas atrás, portanto, são estádios envelhecidos, onde a maioria sequer tem uma manutenção corretiva, imagine a falta de uma manutenção preventiva.
Devemos considerar ainda que, estádios construídos na década de 50 (1950) por exemplo tiveram projetos de estrutura e de execução com normas vigentes menos rigorosas que as normas construtivas atuais. Desta forma, podemos indagar: a resistência do concreto armado, quer em resistência do concreto à compressão e a resistência da ferragens à tração (além do número de ferragens utilizadas na seção) foram dimensionadas de acordo com a carga máxima de solicitação?
Para se ter uma idéia, numa seção quadrada recomenda-se, por segurança, uma resistência do concreto à compressão em valores próximos até a 50 MPa. Poderemos exemplificar como exemplo de sobrecarga, uma seção de 1 m² de laje pode acomodar 4 pessoas de 80 kg, confortavelmente sentadas.Quanto a implosão do estádio da Fonte Nova, acredito que deva ser feita inicialmente uma vistoria por engenheiros da Prefeitura de Salvador e engenheiros do Conselho de Engenharia e Arquitetura da Bahia (Crea-BA), para um posicionamento mais afirmativo da possibilidade de se fazer a manutenção corretiva e preventiva.
Para concluir, acredito que a partir de agora os estádios do Brasil serão vistoriados com maior rigor, não há como ser diferente. Penso também que a FIFA, órgão maior do futebol mundial, deveria rever a posição tomada quanto a realização da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, para posteriormente ratificar ou retificar a decisão atual.
Logicamente, caso danos estruturais sejam detectados por todas as estruturas das arquibancadas, não resta outra alternativa senão a reconstrução de uma nova estrutura, mais modernizada e estruturas mais reforçadas (Exemplo: lajes em concreto “protendido”).
Finalizando, lamento e fico muito sensibilizado com a trágica ocorrência do último domingo em Salvador. Espero que as autoridades tenham postura de maior responsabilidade com a sociedade brasileira.





































































































































