Por qué no te callas? Parte II, por Edgard Soares

Por que não te callas? Parte II –
Por Edgard Soares
Aldo Rebelo tem um passado político bonito e não precisa lançar mão de factóides para conseguir espaço na mídia, a qualquer preço.
Ele pode reunir propostas sérias e conseqüentes e que lhe dêem a visibilidade que todo dirigente partidário ou deputado, como é o seu caso, necessitam.
Por isso, seria ótimo se ele esquecesse essa bobagem de tentar proibir por lei (de sua autoria) a utilização de expressões estrangeiras na comunicação escrita em nossa língua oficial, o português.
Primeiro, porque apesar de ter passado numa Comissão da Câmara Federal, o projeto dificilmente será aprovado no Senado. E, se for, será pior, porque ninguém o respeitará.
Depois, porque Aldo, até prova em contrário um homem público sério, está resvalando perigosamente na fronteira do folclórico com esta história.
Isto, se já não bastasse o episódio de o mesmo ter perdido tempo com a implantação, por sua iniciativa, do Dia do Saci, 31 de outubro, para quem não sabe. Em fracassada contraposição ao “Halloween”, o Dia das Bruxas, importado dos Estados Unidos, mas que as crianças e adolescentes brasileiros curtem, o nobre deputado goste ou não.
Agora, que seria engraçado acompanharmos os títulos e textos da imprensa esportiva, inclusive deste Site, se a lei passasse, isso seria.
Para começar teríamos que trocar o nome de nosso PORTAL para “Pé na Bola Interior”. Jamais poderíamos dizer que um jogador deu um verdadeiro “show de bola”. Os “craques”, epa!, “craque” também não pode, então lascaríamos sempre “o atleta teve atuação extraordinária”. Ivete Sangalo faria uma “apresentação” se fosse convidada para cantar antes de uma final de campeonato, jamais show, não se identificariam mais jogadores “top” de linha. Ninguém mais quebraria “records”.
Aldo não pode dar a impressão, que até o momento está dando, de ser do time do “falem mal, mas falem de mim”. A idéia da lei é ridícula.
Os preparadores físicos e auxiliares técnicos não poderiam mais acompanhar as partidas (seja de outro esporte ou de futebol, quer dizer, de “pé na bola”, pelo laptop, que seria designado por “ordenador de colo”. Sim, porque computador também estaria proibido, visto ser um anglicismo. As gravações de entrevistas não poderiam ser reproduzidas ou armazenadas em CDs (compact discs) e seriam conhecidos depois da lei pela sigla DCs (de discos compactados).
Lanchonetes, outro anglicismo, estariam proibidas em estádios, sanduíches, também do inglês, não poderiam mais ser vendidos nos intervalos das partidas. Hot-dog não, cheese-burger ou egg ou bacon, batata chips, não e não. Melhor ficar sem comer.
Voleibol e basquetebol teriam que ter suas denominações reinventadas. Handebol, então, pela lei seria um atentado ao idioma. Transmissões de luta de boxe se tornariam impossíveis de ser compreendidas. Deixariam de existir os jabs, swings, clinches, upper, ringue e round.
Desaprenderíamos as expressões introduzidas no nosso dia a dia pelo falecido ex-técnico da seleção brasileira Claudio Coutinho, como over-lap.
Jogadores que gostam de uma balada (e qual, à exceção de Kaká não gosta?), teriam que esquecer de assistir a um bom striptease. Agora a onda era se encantar com um “tira-provoca”.
Num termo familiar a Aldo Rebelo, como chamar dali para a frente os nossos consagrados PCs (personal computer)?
Francamente.
Já foi lembrado a Aldo Rebelo que ditadores como Mussolini e Hitler também tentaram banir termos estrangeiros do italiano e do alemão e todos sabem como acabou a história. O próprio partido de Aldo, o Comunista, teria que mudar de nome, uma vez que o termo é um francesismo. Nada parece estar fazendo efeito. O deputado está irredutível.
Eu prefiro lembrá-lo de um caso mais prosaico.
Eu trabalhava na Folha da Tarde, um jovem repórter com menos de 18 anos e não é que o Secretário de Redação inventou que não poderíamos utilizar a expressão “gol”, ou melhor, “goal”, como ele dizia ser o correto, para significar a vantagem que um clube alcançava no placar. Gol, na verdade, seria a medida entre uma trave e outra e entre a linha demarcatória no chão e o travessão, formando um retângulo. O que eu queria dizer era tento, ponto.
Claro que eu nunca o obedeci, mas a coisa estava ficando feia para o meu lado.
Aí aconteceu a final de 1977 entre Ponte Preta e Corinthians, no Morumbi. Terceiro jogo, decisivo, 23 anos de fila do Timão, estádio lotadíssimo.
Todos sabem o resultado. Não tínhamos laptop, quer dizer, “ordenador de colo”, desculpe a falha Aldo, e corri para a redação que estava particularmentre agitada, a cidade em festa com a conquista do clube (club), quer dizer do time (team), quer dizer da equipe (também não pode é galicismo autêntico), quer dizer, porra, do Timão, que iria durar até a madrugada.
Sentei-me e escrevi:
“Segundo tempo e o Morumbi era todo emoção. Um grito engasgado há décadas na garganta de 70, 80, 100 mil pessoas. Foi quando depois de um bate e rebate na área da Ponte Preta, a bola sobrou para Basílio. Ele pegou de primeira, com o pé direito, sem chance para o goleiro Carlos. A bola estufou as redes. A torcida pôs-se de pé e gritou uníssona:
“Tento, tento, tento!”
Quatro ou cinco colegas estavam atrás de mim, vendo-me escrever e ao lerrem, arrebentaram em um riso, também uníssono. Toda a redação veio ver do que se tratava e leu aquelas poucas linhas. Os risos aumentaram.
O Secretário de Redação nunca mais encheu o saco.
Em Tempo:
Prezado Aldo, que passará a fazer parte de nosso corpo de colaboradores: esta coluna é uma prova (mais uma) da total democracia e da liberdade deste Site (perdão, mas escrever Sítio é só para energúmeno).
E você é uma pessoa que tem tudo para dedicar sua energia e capacidade para ajudar este país com leis mais pertinentes com nossas necessidades.
Tchau!. Ou melhor: até mais ver, porque tchau é um italianismo.
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