Opinião Edgard Soares: Seleção Brasileira de todos os tempos

São Paulo, SP, 10 (AFI) – Nestes dias de janeiro em que eu e meus filhos costumamos passar um bom tempo juntos, curtindo as mais belas praias do mundo (eu disse do mundo), que são as praias de Ubatuba, estes dias dizia, nos permitem discutir longamente sobre vários assuntos. Um deles, sem dúvida, é o futebol.

E nada mais relaxante do que falarmos livremente sobre jogadores que fizeram história. Quais os melhores em cada posição, quais os melhores do mundo à sua época.

Nasceu, assim, o meu compromisso de escrever a minha seleção brasileira de todos os tempos.

Vamos ao trabalho.

Para se ter um critério homogêneo, considerarei como base as seleções nacionais que disputaram Copas do Mundo.

No gol, Gilmar, com toda certeza. Se mais não fosse pelo fato de ter sido titular absoluto em duas Copas do Mundo e as ter vencido. Mas pesou também a personalidade e a liderança que ele tinha, indispensável a um grande goleiro.

Não existe cena mais emocionante do que a do garoto Pelé (16 anos) chorando em seu ombro, após a vitória na partida final contra a Suécia, em 1958.

A lateral-direita ou ala foi uma disputa acirrada. Djalma Santos foi marcante, Leandro, talvez, o craque com mais recursos que jogou por ali. Nelinho e Jorginho também merecem destaque. Mas a camisa titular ficou para Carlos Alberto, que, além de tudo, foi o capitão da Copa do México.

Ainda não se falava em alas, mas o que era Carlos Alberto senão um estupendo lateral direito ou, se preferirem, um ala? Basta lembrar do histórico gol do capitão, passe de Pelé, na final contra a Itália, no México.

Na zaga central, uma ótima disputa também. Mas ninguém foi melhor que Mauro. Reserva de Beline em 58, colocou o capitão na reserva dele, Mauro, em 62. E, como se não bastasse, ainda ficou como capitão, tal e qual Beline.

Mauro Ramos de Oliveira jogava mais que Beline, era mais técnico, mais completo. E não há comparação entre ele e os outros bons zagueiros (Brito, Oscar, Lúcio, Roque Junior e Márcio Santos, por exemplo, que atuaram em outras Copas).

Como companheiro de Mauro, um jogador que não atuou com ele, embora tenham sido contemporâneos: Orlando Peçanha, titular de 58, mas que não foi convocado em 62. A meio ponto de Orlando, Aldair. Orlando jogou também no Boca Juniors, da Argentina, e no timaço do Santos de Pelé e Coutinho.

Lateral esquerdo, sem discussão: a enciclopédia Nilton Santos, titular e campeão em duas Copas. Sorry, Junior, Copa de 82, mas a parada aí, na sua posição é sem discussão.

Até aqui, foi tudo muito bom, tudo muito bem. Mas e daí para a frente? A coisa é brava. Vamos com calma nesta hora, como se dizia no século passado.

Para começar o meio de campo, parada difícil, escolhi um médio-volante, um meia de contenção, para agradar os mais jovens. Optei por José Eli de Miranda, o Zito;

Alguém capaz de dar bronca, aos berros, em Pelé, mesmo depois de ele já ser o Rei, só por isso merecereria estar na seleção brasileira de todos os tempos.

Mas Zito era muito mais que isso. Primeiro, ele é de Taubaté. (na verdade ele nasceu em Roseira, mas a gente diz que é Taubaté).

Depois, Zito foi um jogador indispensável na virada da Copa de 58. O titular era Dino Sani. Mas só quando Zito, Garrincha, Vavá e Pelé entraram no time principal, foi que o Brasil escreveu história.

Na Copa de 62, Zito já era um marco, uma referência. Não há o que discutir: ele está na seleção de todos os tempos.

Os médios de 94, 2002 e 2006 são todos muito parecidos, muito pouco mais que regulares.

Clodoaldo, um grande jogador, era o substituto de Zito. Mas sem o seu carisma.

Vou escalar a seleção no 4-3-3, que poderia ser um 4-4-2 também.

Como meia armador, uma pausa entre Didi e Gerson. Mas apenas uma pequena pausa. Porque Didi foi mais craque. E titular em duas Copas, bicampeão de verdade. Gerson foi um fiasco em 66 e fundamental em 70.

Valdir Pereira, o Didi, foi indispensável nas duas Copas que disputou.

Teve uma atitude marcante, decisiva, quando, abobalhada, a seleção levou nos primeiros minutos de jogo, 1 a 0 da Suécia, na final de 58. Didi pegou a bola no fundo das redes, colocou-a debaixo do braço direito e foi andando devagar, olhando para os lados, até ao grande círculo. Gritando com os companheiros, dando-lhes moral e começando a ganhar a partida naquele gesto.

Além disso, Didi criou a célebre frase “treino é treino, jogo é jogo”, maravilha do nosso folclore futebolístico.

Ele é o imperador de nosso meio-campo, como meia armador.

Foi difícil escolher entre Falcão, Sócrates, Rivelino e até Kaká, para compor o terceiro homem de meio-campo.

Minha escolha recaiu em Rivelino pelo que ele foi na Copa de 70. Útil, competente, responsável, humilde, por ter aceitadio jogar como ponta esquerda, dando lugar a Gerson na meia.

Sócrates e Falcão não foram campeões, embora ambos tivessem tido duas chances para tal. Rivelino foi. É certo que Rivelino jogou três Copas. E só está na seleção como terceiro homem. Quando foi o titular do meio-campo, como meia armador, como maestro do time, a seleção fracassou. Em 78, na Argentina e em 74, na Alemanha.

Se Rivelino fosse artista de cinema, jamais ganharia o Oscar, como ator principal. Mas ao longo de uma carreira de muitos anos no cinema, é bem possível que abiscoitasse dois Oscar, de ator coadjuvante. Seu perfil psicológico, bem diferenrte de Didi e de Gerson, explicam sua apatia nestas ocasiões.

Todas as vezes em que as fichas foram depositadas em Rivelino, ele se apequenou. Só se agigantava quando outros assumiam esta função.

Relembre a trágica partida final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras em 74. E é melhor pararmos por aqui, porque senão vou ficar nervoso e tirá-lo da seleção de todo os tempos. E colocar Kaká no seu lugar. Mais uma Copa e o espaço será de Kaká.

Zico apenas deu azar. Jogava muito, mas na mesma posição de Pelé: ponta de lança, camisa dez, meia avançado. Não, não dava para os dois jogarem no mesmo time. A não ser forçando muito a barra. Zico foi um dos cinco maiores jogadores de todos os tempos no Brasil. Mas a meia esquerda só poderia ser do Rei Pelé.

Os outros dois da frente, apenas uma dúvida: a do centro-avante. Ou atacante pelo meio, como se diz agora.

Porque pela direitra, é óbvio, ninguém bate Mané Garrincha. Um pouco menos que Pelé na seleção. Mas, só um pouco.

Minha escolha foi por Romário. Poderia ter sido por Ronaldo fenômeno ou por Vavá, titular e campeão em duas Copas.

Mas o baixinho merece por 94, que venceu quase sozinho.

Então aí vai: Gilmar; Carlos Alberto, Mauro, Orlando e Nilton Santos; Zito, Didi e Rivelino (Kaká); Garrincha, Romário e Pelé.

Poucos ou apenas um jogador atual? É isso mesmo. O Brasil já produziu melhores jogadores do que produz hoje em dia.

COMENTE ESTA COLUNA: [email protected]