Entrevista: Ídolo sãopaulino e atual técnico do Campo Limpo

palinha 0002 130Confira a entrevista:Campo Limpo Paulista, SP, 17 (AFI) – O torneio era a Copa Libertadores da América de 1992. O São Paulo vinha empolgado pela conquista do Campeonato Brasileiro do ano anterior. O time, porém comandado pelo técnico Telê Santana, sentia falta de um atacante. Faltava uma referência no ataque tricolor, já que Mário Tilico não vinha apresentando um futebol convincente.

Falava-se muito bem de um jogador bem franzino e velocista do América-MG. Telê, muito detalhista, fuçou, buscou informações e deu o veredicto à diretoria são-paulina: o tal jogador deveria ser
contratado. A torcida, a princípio, ficou ressabiada; mas bastaram exatos seis meses, para o então apenas atacante que estava começando a carreira em Minas Gerais, se tornar o inesquecível Palhinha (foto acima), artilheiro da Libertadores de 1992 e ídolo da nação são-paulina.

Os anos passaram, Palhinha conquistou títulos e perdeu campeonatos pelo Tricolor; defendeu também o Cruzeiro, Mallorca, Flamengo, Grêmio, Botafogo-SP, América-MG, Cristal e Alianza Lima do Peru, Marília, foi para os Emirados Árabes, Comercial, Bandeirante, Chapecoense e encerrou a carreira no Farroupilha de Pelotas.

Palhinha parou de jogar, mas não conseguiu ficar longe do futebol.
Primeiramente, ele começou a coordenador as categorias de base do São Bernardo, no ano passado. Com o contato direto com a comissão técnica, o ex-jogador não titubeou: queria ser treinador. Primeiro, surgiu o convite da Matonense, para treinar a equipe na Série B do Campeonato Paulista. Palhinha aceitou, porém alguns problemas fizeram com que o time de Matão não tivesse condições de disputar a competição.

Aí surgiu o convite do Campo Limpo Paulista, através do seu vice-presidente Toninho Aro. “Sabíamos que o Palhinha queria ser
treinador e o chamamos. Ele prontamente aceitou e estamos muito
felizes com a chegada dele”, disse Toninho, ressaltando que neste ano o clube vai mandar as suas partidas em Espírito Santo do Pinhal. “A prefeitura de Campo Limpo me chamou para uma reunião, mas não chegamos a um acordo. No ano passado, disputamos o campeonato por Salto e agora vamos mandar jogos em Espírito Santo do Pinhal. O prefeito de lá foi muito sincero, disse o que poderia e o que não poderia fazer e felizmente chegamos a um acordo”, completou Toninho.

Palhinha, que está agora com 40 anos, também se mostra muito
satisfeito pelo fato de assumir o Campo Limpo. Confira a entrevista
que o ex-jogador e atual técnico concedeu ao jornalista Marcel Capretz.

Marcel: Você confirma a tese de que jogador quando pára dificilmente consegue ficar longe do futebol?
Palhinha: Confirmo sim. Foi muito tempo nos gramados e é difícil fazer outra coisa. Faz cinco anos que parei e agora felizmente estou de volta ao mundo da bola.

M: Sua carreira é repleta de conquistas. Deu para se estabilizar financeiramente?
P: Deu sim. Mas não é por isso que decidi ser treinador. Não é porque eu estou bem pelo lado financeiro que não vou fazer mais nada na minha vida. Queria uma atividade que me proporcionasse prazer e isso, com certeza, a carreira de técnico pode proporcionar.

M: Com o seu comando, enfim, o Campo Limpo pode conquistar o acesso à Série A3 do Campeonato Paulista?
P: É esse o meu objetivo. Se eu tivesse qualquer pensamento diferente disso seria melhor nem assumir a equipe. Estamos buscando jogadores e pretendemos fazer um bom trabalho.

M: Como jogador, você foi muito vitorioso. O seu melhor momento foi no São Paulo no início da década de 90?
P: Com certeza. Ganhamos praticamente tudo (Campeonato Paulista, Brasileiro, Libertadores e Mundial). Aquele time era diferente. Havia entre nós uma amizade, um comprometimento com o clube que dificilmente vai existir novamente. Muita gente falou que o time do São Paulo que foi campeão Mundial em 2005 era igual ao nosso do início da década de 90, mas isso é um absurdo. Aquele time foi inesquecível.

M: Alguns afirmam até que aquele time do São Paulo só não foi melhor do que o Santos de Pelé. Você concorda?
P: Concordo. Em termos de títulos, ninguém foi igual a nós depois do Santos. Ganhamos duas vezes a Libertadores e duas vezes o Mundial. Até hoje, muitos torcedores de outros times me param na rua e falam que gostavam do nosso jeito de jogar. Ou seja, quando um clube agrada até torcedores rivais é porque marcou mesmo.

M: Como era trabalhar com Telê Santana? Há informações de que vocês dois não se davam bem…
P: Isso é mentira. No mundo do futebol há muito ciúme e isso atrapalha. Quem visse um treino do São Paulo poderia pensar que o Telê iria me bater, de tanto que ele cobrava. Mas ele fazia isso para o meu bem. Na hora eu me irritava, mas em nenhum momento chegamos a discutir.

M: É verdade que o Telê não deixava você comprar muitos carros?
P: Isso é verdade. Mas ninguém sabia que eu fazia negócios, pois comprava carros mais baratos no interior e os revendia mais caro na capital. Só que o Telê não gostava muito disso, não. Mas mesmo assim não há nenhum problema. Eu o admirava muito como treinador, pois sem ninguém perceber ele já jogava com três zagueiros no início da década de 90. Quando ganhamos a Libertadores de 1993, o Válber era um terceiro
zagueiro. Em 92, o Dinho voltava para esta função. O Telê sempre inovou. O Cafu, por exemplo, jogava de atacante.

M: Você desperdiçou o pênalti decisivo que fez com que o São Paulo perdesse a Libertadores de 1994 para o Vélez Sársfield da Argentina. Isso te incomodou?
P: Na época, incomodou muito. E se a torcida ficou chateada, eu fiquei ainda mais. Reconheço que o torcedor sofreu, mas quem mais sofreu com aquele pênalti perdido fui eu. É o jogador que deixa de ter melhores contratos, maior prestígio e maior visibilidade. É claro que o São Paulo não perdeu a Libertadores de 1994 só porque eu desperdicei aquele pênalti. Mas aquela derrota me machucou bastante.

M: Você ficou no São Paulo até quando?
P: Até janeiro de 2006. Fiquei exatos quatro anos no Morumbi. E quatro anos que me marcaram muito; ninguém sabe, mas cheguei a entrar em campo machucado. Tinha partida de terça, quinta, sábado e domingo. O Juninho por exemplo, chegou a jogar duas partidas no mesmo dia.

M: Isso foi na época do “Expressinho”, não? (expressinho era o nome do time B do São Paulo).
P: Foi nesta época, no final de 93 e início de 94. Havia muitas competições e o São Paulo teve que formar duas equipes. Mas o Expressinho era maravilhoso. Tinha Rogério Ceni, Pavão, Bordon, André Luis, Caio, Catê, Mona, Denílson, Juninho, Guilherme, Jamelli dentre outros ótimos jogadores. O time era tão bom que eles foram campeões da Copa Conmebol de 1994.

M: Esse time propagou o São Paulo pro mundo inteiro. Era um objetivo do clube conquistar o máximo de títulos internacionais possíveis?
P: Olha, para falar a verdade, aquele time ganhava o que aparecia pela frente. Fizemos excursões e ganhamos títulos inesquecíveis como o Ramon de Carranza e o Tereza Herrera. O que me marcou muito é que logo após retornarmos das excursões à Espanha em 1992, o grupo RPM fazia muito sucesso. A torcida do São Paulo criou a sigla RPM para Raí, Palhinha e Muller. Isso me marcou muito.

M: Do São Paulo você saiu para o Cruzeiro e lá você também foi vitorioso…
P: Graças a Deus, consegui ganhar títulos por onde passei. No Cruzeiro, ganhamos muita coisa; fomos campeões mineiros em 1996 interrompendo uma série vitoriosa do Atlético-MG. Depois fomos campeões da Copa do Brasil e ganhamos a Libertadores, em 1997. E para comprovar que eu não me abati com a perda do pênalti na Libertadores de 94 pelo São Paulo, eu também batia pênaltis no Cruzeiro.

M: Houve uma polêmica em 97 no Cruzeiro após a diretoria ter contratado os atacantes Donizete Pantera e Bebeto só para a disputa do Mundial. Você não estava mais no clube na derrota para o Borussia, mas pode conferir aquele mal estar?
P: Pude, sim. A diretoria se perdeu ao contratar jogadores só para uma partida. Claro que isso deixaria chateado quem não fosse jogar. Mas eu estava no Mallorca, da Espanha, no segundo semestre de 1997 e não participei do Mundial.