Opinião Fauzi Kanso: Paiva, o bugrino que acreditava!

Em 1.966, no Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas, jogaram Ponte Preta e Votuporanguense. A Ponte precisava pelo menos empatar para, no domingo seguinte, disputar o título da Primeira Divisão com a Portuguesa Santista. Nesta partida eu, narrador, e o Luiz Rivoiro, comentarista, trabalhávamos na Rádio Clube de Votuporanga que tinha uma linha de imparcialidade nunca vista, mesmo no rádio dos dias atuais.

Albano, meio campista que a Votuporanguense havia comprado do Guarani, chutou do meio de campo e o goleiro da Ponte “aceitou”. Perdendo o jogo a Ponte foi para o tudo-ou-nada com a ajuda da torcida e, também, com a colaboração do árbitro. Até hoje, em Votuporanga, falam que o juiz pulava de cabeça nas cobranças de escanteios tentando ajudar a Ponte a marcar o gol de empate que lhe garantiria a disputa com a Santista.

Sufoco no Majestoso
Nós da Rádio Clube, na transmissão, que era feita junto à torcida pontepretana, descrevíamos o que estava acontecendo. “A Votuporanguense está sendo esbulhada…”, “Nunca vimos até hoje um juiz errar tanto contra a Votuporanguense…” e muito mais…

A cada brado nosso, a torcida só faltava nos esganar. Quando terminou a partida, após o gol pontepretano aos 58 minutos do segundo tempo, nem mesmo a polícia conseguiu nos livrar de alguns safanões de torcedores mais exaltados que ainda destruiram nossos equipamentos de transmissão. O Luiz Rivoiro, nas agressões sofridas, acabou perdendo seu óculos de grau.

No ano seguinte voltei só para Campinas, contratado pela Rádio Brasil para substituir Luciano do Valle que havia se transferido para a Rádio Gazeta, na equipe de Pedro Luiz. Quando da minha apresentação feita por Sérgio José Salvucci, chefe de esportes da emissora, e depois de muitas perguntas e respostas, já no final do programa, aparece do outro lado do estúdio, junto à técnica de som, um homem de baixa estatura, careca e bastante simpático, com largo sorriso nos lábios.

Visita ao Brinco de Ouro
Logo depois o Sérgio díz: “estamos recebendo e agradecendo a presença do Sr. Manoel Marques Paiva, presidente do Guarani F.C.”… Ao sair do estúdio, o Paiva veio ao meu encontro e deu-me caloroso abraço e votos de boa estada em Campinas. Em seguida convidou-me para almoçar e conhecer o Brinco de Ouro. Eu, que ainda me lembrava dos doloridos “cascudos” levados no campo da Ponte, e com a recepção cordial do presidente do Guarani, entrei no seu “Couvert” já bugrino.

Algum tempo depois o Guarani foi fazer um amistoso em Belo Horizonte, no Mineirão, contra o América. Para transmitir a partida, como em todos os jogos, havia a necessidade de se reservar, com bastante antecedência, uma linha telefônica. Eu até vendi a publicidade para o Comendador D´abronzo, da Tatuzinho, mas, na Rádio não fizeram a tal reserva.

À espera de um milagre
Fui orientado a não viajar e transmitir, oportunamente, uma outra partida. Resoluto, fui, com a ajuda do Paiva que me autorizou viajar no ônibus e ficar no mesmo hotel da delegação bugrina. Em Belo Horizonte procurei a Rádio Inconfidência, que pertencia ao govêrno de Minas. Pedi equipamentos e as ondas curtas emprestadas.

“Só o vice governador pode autorizar”, disse-me o chefe de esportes. Fui para a mansão do homem que educadamente me recebeu e autorizou a rádio a ceder o que fosse necessário. Havia outro problema: qualquer emissora para transmitir do Mineirão precisa pagar uma taxa. Sem dinheiro, recorri-me ao Paiva que fez o empréstimo. Transmiti a partida da beira do gramado. Como não tinha repórter volante, eu mesmo tinha que entrevistar e irradiar. O comentarista foi o saudoso Carlinhos, ponta esquerda , que não jogou por estar contundido.

A Rádio Educadora de Campinas, com José Sidney e Pereira Esmeriz, dois ótimos profissionais, estava lá com linha telefônica e todo aparato necessário. Porém, por obra de um tremendo temporal e queda de alguns postes, eles não conseguiram êxito e, eu, com as Ondas Curtas da Inconfidência, apesar de todas as dificuldades, tive melhor sorte na transmissão do jogo que o Guarani acabou por vencer.

Sem dinheiro e sem massagista
A volta seria imediata mas, os diretores do América disseram ao Paiva que mandariam o dinheiro referente ao pagamento na semana seguinte. Respondeu o Paiva: “Então ficamos aqui até receber”, e liberou os jogadores. Incontinente todos rumaram para as casas das “tias” ou “primas” no centro de Belo Horizonte. Depois da meia noite, quando o América pagou, tivemos que procurar até achar o Hélio Santos, massagista, que havia sido trancado num quarto enquanto a “tia” foi jantar.

“Sair eu quero, mas cadê a chave da porta” ?, gritava o Hélio. Foi uma cena hilária…

Chegando em Campinas, louco para receber os cumprimentos do pessoal da rádio, encontrei o ambiente totalmente fúnebre.

“Por que você não me chamou no campo da Ponte ?”, esbrafejou, Sérgio. “ Por que você foi pagar para transmitir no Mineirão” ?, foi a cobrança do diretor Sinésyo Pedroso. Fiquei sozinho e desolado.

Embora tivesse transmitido o jogo com exclusividade, não tivesse gasto dinheiro com transporte e hotel, apenas o pagamento de pequena taxa ao Estádio, e gerado um lucro fantástico, ninguém veio até mim e disse:

“Legal, valeu!!!”. Sinceramente, desejei naquele momento voltar correndo para Votuporanga , onde, num trabalho desse, todos teriam comemorado, e eu, efusivamente cumprimentado.

Esta foi uma história interessante que só aconteceu graças a colaboração de Manoel Marques Paiva, o homem que acreditava.

AGRADECIMENTOS:
Nesta coluna quero agradecer ao Gustavo Adolfo Kanso, meu querido filho, por ter me presenteado com uma jaqueta do REDHAUS UNITED F.C. esquadra de futebol do qual ele participa como atleta de fim de semana, em Edmonton, no Canadá.

Embora seja uma equipe amadora, o REDHAUS UNITED, tem uma administração extremamente profissional, onde , creiam, KELLY REDINGER, o manager , tem autoridade suficiente para expulsar o atleta cuja disciplina ferir as normas e regras da agremiação, por menor que sejam. A jaqueta é linda e eu já a estou usando orgulhosamente.

Quero homenagear também os fiéis leitores de todas as semanas: ALCIDES DRUMMOND, Belo Horizonte; CELSO FRANCO, Ribeirão Preto; VAGNER DORIZI, treinador de futebol equipe sub 17, Coréia do Sul; José Aparecido Barbosa, Tupã.

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