Fauzi Kanso: Morreu Hilário Rodrigues dos Santos

Hilário Rodrigues dos Santos, antigo diretor de natação do Guarani F.C., diretor de várias entidades assistenciais, filantropo, amigo insigne e querido por todos que o conheceram, foi sepultado nesta última quinta-feira, no Cemitério da Saudade, aos 79 anos de idade. Sua morte se deu em razão de vários problemas, principalmente circulatórios.

Em companhia de Luiz Peigo, o conhecidíssimo Pixoxó, ele mesmo o da funilaria, fui levar minhas condolências aos familiares do Hilário. Não foi nenhuma surpresa ver a quantidade de gente que, às lágrimas, se fazia presente para o último adeus. O Hilário era amigo das mais altas patentes e também dos garis. A todos, ele tinha, sempre, uma palavra de carinho.

Disposição para necessitados
Hilário, em vida, acredito, fez mais para os mais necessitados que para os próprios familiares. Sua vida foi a de servir aos mais pobres e aos desgraçadamente perdidos, os verdadeiros espectros humanos. Como disse o Dr. Farah:

“Hoje Campinas passa a contar com um sem números de desamparados, e outro tanto de órfãos…”

Não faz muito tempo, conversando com o Ramirinho, irmão de Nanau e filho do velho pontepretano Ramiro, eu disse:

“O Hilário talvez seja o único homem que eu conheço que tem o melhor cérebro”.

É que nunca o vi falando mal de quem quer que fosse. Suas palavras eram de estímulos… os atos, de bondade explícita. Não estou dizendo isso agora porque ele morreu. O Hilário veio ao mundo para servir ao próximo.

A rifa do cigarro…
Tinha defeitos? Claro que tinha. Ele, por ser honesto demais, não admitia ser confundido com um homem sem palavras, ou com um sicofanta. Uma ocasião, no Jardim Aurélia, ele foi a uma quermesse com o Oliver, o velho Barbeirinho. Lá, marcou uma rifa de um frango assado. Cada número cantado e que ele possuía na cartela, por não ter caneta, ele furava o numero com a brasa do cigarro. Quando “furou” o último e vencedor número gritou:

“Hei, ganhei, ganhei o frango…”

Na hora da conferência da cartela, todos ficaram surpresos com a ausência dos números. Todos haviam sido consumidos pela brasa do cigarro. Quando alguém quis colocar em dúvida a legitimidade… Deus do céu… Hilário virou uma onça. Não pelo prêmio, mas por entender que estavam desconfiando da sua honestidade. Resumindo: levou o frango e mil pedidos de desculpas.

Jeito até com devedor…
Em uma outra ocasião ele me convidou para acompanhá-lo até um apartamento seu, cujo inquilino não pagava os alugueís (450,00 por mês) há mais de seis meses. Pensei, está me levando para ajudá-lo na briga. Ao tocar a campainha logo o inquilino veio à porta:

“Pois não, seu Hilário. Se, são os atrasados que veio receber, perdeu a viagem”, já falou o inquilino em tom ameaçador.

Na maior serenidade, responde Hilário:

“Sabe meu amigo. Eu sei que a situação não está boa para ninguém, esqueça os aluguéis atrasados. O problema é que preciso do apartamento para o filho que vai se casar. Diante disso vou te fazer uma proposta: você não precisa pagar nenhum dos meses atrasados, vou fazer sua mudança com minha camionete e vou lhe dar ainda mais dois mil reais. Só que para tudo isso disponho de 10 dias”.

Confesso que fiquei pasmo. O inquilino arregalou os olhos.

“Seo Hilário, traga a camioneta no sábado que eu vou para a casa de minha mãe, em Sumaré” – respondeu apressadamente o homem.

Sorrindo, já no carro de volta ao Bar do Bebe, pai do Betinho, Hilário diante da minha surpresa disse:

“Tá vendo, Fauzi. Não briguei com o moço, não me estressei, não vou ter que gastar com advogado, e não terei que esperar por anos e mais anos até a justiça decidir. Já tenho quem aluga o apartamento por mil reais”.

Um homem bom demais!
A enorme quantidade de pessoas presentes e também as mais de 50 coroas homenageando nosso amigo, confirma tudo o que foi falado de bom do nosso já saudoso Hilário: amigo, companheiro, leal, honesto, íntegro, moral inabalável, retidão acima da média, pai amoroso, avô querido, esposo fantástico e, mais todos os adjetivos que só um homem puro pode receber.

Como diz a letra de Lourival dos Santos interpretada pela melhor dupla sertaneja que já existiu no Brasil, Tião Carreiro e Pardinho: “morre o homem, fica a fama”.

A fama que o Hilário deixou é a de homem reto, honestidade ímpar, caridoso, de bem feitor, além dos adjetivos acima citados.

Vai com Deus, Tio Hilário. Um dia nos encontramos.

[email protected]