Edgard Soares adverte: Bolha do Futebol vai Implodir
São Paulo, SP, 20 (AFI) – Edgard Soares, que possui extenso e diversificado currículo profissional, seja como colunista do Futebol Interior, jornalista, apresentador de televisão e publicitário, além de ter sido dirigente de clubes e entidades, faz severo alerta: o negócio-futebol, tal e qual o conhecemos, pode começar a ruir em 2009.
É utilizando seu lado-empresário (dono de Agência de Propaganda e de uma importante Produtora de Vídeo), Edgard Soares faz esta análise exclusiva para o PORTAL FUTEBOL INTERIOR. Exclusiva e inusitada pelo seu conteúdo, é de leitura obrigatória para que acompanha o futebol brasileiro.
A Bolha do Futebol Vai Explodir
Edgard Soares
O futebol profissional está prestes a encerrar o seu ciclo “Alice no país das maravilhas”.
Caso aplicássemos ao esporte uma due diligence, o primeiro informe do relatório seria claro: este ciclo já se encerrou há algum tempo e ninguém envolvido no processo se deu conta.
No modelo atual, os clubes profissionais têm chance zero de sobreviver mantendo os seus custos nos patamares em que se encontram.
O futebol-profissional de verdade só existe em dois continentes: o Americano do Sul e a Europa. Ásia e África são meros satélites, sem influência maior numa eventual reformulação do modelo.
Estingua-se o futebol nos dois primeiros continentes e o esporte praticamente desaparece do planeta.
Consideremos, então, os grandes clubes europeus – para muitos a referência do futebol-empresa: 80% deles estão quebrados.
Os outros 20% equilibram-se no arame. No balanço real, suas contas não fecham há alguns anos.
As dívidas são impagáveis. A fontes de receitas insuficientes para manter as despesas com o banquete financeiro desproporcional à arrecadaação de recursos, mas que, mesmo assim, é oferecido pelos mesmos à atletas e treinadores a cada início de temporada.
Na Inglaterra, na Espanha e na Itália, – portanto a nata do futebol mundial – a situação chega a ser bizarra.
Cada um dos grandes clubes destes países não tem deficit inferior a 200 milhões de euros. Há casos inacreditáveis, como o do Real Madrid, em que as dívidas ultrapassam 300 milhões de euros.
Se nos lembrarmos que há menos de 20 anos, o Governo espanhol precisou intervir, promovendo uma ampla anistia fiscal para que os clubes ibéricos não cerrassem suas portas, podemos começar a sentir o peso da ficha cair, como se dizia no século passado.
A falta de noção de perigo é surpreendente. Adriano Galliani, diretor do Milan, afirma sem constrangimento:
“As famílias italianas donas dos grandes clubes são muito ricas. A cada temporada elas cobrem o prejuízo e tudo volta a estaca zero”.
Por quanto tempo, caríssimo Galliani?
Com a crise econômica mundial grassando, que família rica da Itália ou de qualquer outro país continuará colocando dinheiro a fundo perdido no futebol profissional?
Mas, o que aconteceu com o esporte mais popular e mais praticado do mundo?
Algo muito simples: os clubes, na Europa e no Brasil, gastam mais, muito mais, do que conseguem arrecadar.
Os dirigentes – despreparados, como os números provam – não conseguiram chegar até hoje a esta constatação tão banal.
A imprensa esportiva – conivente e também despreparada – jamais alertou para o problema.
Caudatária dos acontecimentos e superficial, pelo contrário, a imprensa sempre incentivou a festança sem sentido.
A cada contratação milionária de um jogador, escancarou, quantas vezes foram necessárias, suas páginas, câmeras e microfones para alardear e, não raro, elogiar a aventura.
E continua fazendo isso.
A situação chegou a um nivel de insanidade: o jogador português Christiano Ronaldo “valeria” hoje 80 milhões de euros!!!
E o Real Madrid, caindo pelas tabelas financeiramente, está disposto a pagar.
Voltemos ao Brasil, que é melhor.
Nunca li uma linha sequer na imprensa nacional questionando os altísimos valores pagos atualmente pelos direitos federativos ou econômicos de jogadores.
Muito menos pelos salários estratosféricos e sem sentido entregues a cada 30 dias a agentes, atletas e treinadores. Sim, porque depois da Lei Pelé, temos agora na jogada esta figura impoluta a atrapalhar e a inflacionar ainda mais os negócios: o agente do jogador. (Na verdade, o seu feitor).
Para a imprensa esportiva tupiniquim, de maneira simplista, o retorno de cada contratação bombástica “vem com o marketing” que ela traz em seu bojo. Embora não se tenha a menor idéia do que isso signifique.
Marketing.
Palavra inglesa, nascida nos Estados Unidos, e sem tradução para a língua portuguesa.
Tão estranha e desconhecida como um livro de Guimarães Rosa, citado tantas vezes. E nunca lido. Que dirá entendido.
Marketing é muito mais que a divulgação maciça de um fato, como pensa a imprensa esportiva e os dirigentes.
Gerar mídia não é fazer marketing.
Surpreso? Pois é.
Há uma enorme diferença entre ser popular e ter prestígio.
Entre algo se tornar conhecido do grande público e gerar lucro em função disso.
Há um caminho a se percorrer entre uma coisa e outra. A rapadura é doce, mas é dura.
O programa do apresentador Ratinho na Record e no SBT era bem sintonizado, tinha boa audiência.
Mas nenhum anunciante de peso.
Saiu do ar porque dava prejuízo à emissora, uma vez que o salário altíssimo do apresentador era incompatível com o que ele produzia de receita.
Agora, como você sabe, Ratinho era super conhecido. E daí?
Marketing de verdade é técnica, é ciência mercadológica.
Não é para amadores que nunca trabalharam na área, mas aceitam, sem pestanejar, a tarefa de comandar este departamento num grande clube de futebol.
Mas, é melhor deixar isso pra lá.
Os jornalistas esportivos e os diretores de marketing dos grandes clubes usam a expressão da mesma maneira, pobre e distorcida, que as moças que posam para a Playboy o fazem, quando afirmam: “preciso fazer marketing do meu trabalho”.
Há distorção e vulgarização do termo.
Marketing é todo o processo que envolve a comercialização de um produto: desde a pesquisa para sua concepção até o seu desenvolvimento, definição de conceito, determinação do público-alvo, pré-teste, embalagem, fabricação, distribuição, política de preço, venda, promoção…
Mas, como falei, é melhor deixar pra lá.
Voltemos à falta de marketing no futebol, isto sim, uma realidade:
Existe um limite para a divisão das fatias do “bolo publicitário”, para utilizar um jargão do mercado.
É esta barreira que determina, por exemplo, o que se pode pagar ou não por um elenco de uma equipe de futebol. Os dirigentes (e os jornalistas) não fazem esta conta.
O limite é exatamente o tamanho máximo do bolo, por mais fermento que se acrescente à massa. Porque chega uma hora em que ele não cresce mais. Faltam ingredientes: farinha, ovos, manteiga, isto é, dinheiro.
Se você tem mais pessoas para saciar do que o número das porções disponíveis para repartir do bolo, evidentemente que alguém vai ficar sem o seu naco do confeito.
Então acontece o que está acontecendo: os clubes de futebol à beira de um colapso financeiro.
Ou de viverem morimbundos, como já acontece com muitos.
É como se o mercado possuísse um termostato para indicar o quanto ele consegue devolver em receita para o investimento efetuado.
Os patrocinadores de futebol no Brasil (e no exterior) são perfeitamente identificáveis pelos Estudos de Mercado a respeito.
Embora nenhum Presidente de clube ou diretor de marketing os tenha lido ou se preocupe em fazê-lo.
Os recursos dos esponsers são quantificáveis, há um volume de verba definida para ser aplicada no futebol pelas empresas, antes mesmo de cada ano fiscal se iniciar.
Conhecer estes números e planejar levando-os em conta é o mínimo que se deveria esperar de um clube profissional.
Tomemos o exemplo do nosso país.
A verba-teto existente no mercado para o futebol não acompanha há muito o crescimento dos gastos dos clubes. O mercado não tem como saciá-los.
Nenhum clube que pague 500 mil reais por mês a um treinador e mais 500 mil reais à uma Comissão Técnica conseguirá fechar no azul a sua contabilidade. Não há como.
Para falar a verdade, nem mesmo se pagar 350 mil reais por mês a um treinador.
Clubes também pagam 55 mil reais mensais a um profissional para ocupar o posto de auxiliar técnico.
Um preparador físico (há sempre pelo menos tês em cada Comissão Técnica) pediu 80 mil reais mensais para renovar o seu contrato.
Nem sempre foi assim. A situação degringolou de vez nos últimos dez anos.
Ninguém mais no futebol mantém os pés no chão.
Se pensarmos hoje que o Prefeito Paulo Maluf quase foi preso porque deu um Fusca a cada campeão do mundo de 70, podemos nos surpreender dando risada, embora o assunto seja sério.
(Hoje em dia, nenhum craque campeão do mundo sequer compareceria a um evento para ganhar um carro popular. Poderia se sentir até ofendido. Se ainda fosse uma Ferrari)…
Pesquisa realizada pelo Instituto Interscience revela que o salário médio para o cargo de um Presidente de Multinacional no Brasil fica entre 35 e 45 mil reais mensais! (Está publicado no Caderno de Empregos da Folha de São Paulo).
Um Gerente de Produto, responsável muitas vezes por boa parte do sucesso ou insucesso de uma linha de artigos de consumo final de grande fabricante, percebe entre 18 e 25 mil reais.
Um redator de Agência de Propaganda em São Paulo, mercado que sempre remunerou seus profissionais acima dos demais setores da economia, desde que tenha em seu currículo prêmios nacionais e internacionais, ganha 30 mil reais mensais. Isto, nas grandes agências.
Um Diretor de Mídia está na faixa de 25 mil reais mensais e tem sobre si uma imensa carga de responsabilidade, além de acumular para que chegue a este nível de remuneração, anos e anos de experiência, curso superior, pós-graduação e ser fluente em pelo menos duas linguas, obrigatoriamente inglês entre elas.
Um Gerente de Futebol, sem curso universitário e tendo que responder ao Diretor de Futebol e ao Vice-Presidente de Futebol, sem responsabilidade pela performance da equipe, ganha na faixa de 60 mil reais mensais. E, não raro, reclama de que ganha pouco.
É necessário mais algum comentário?
Ora, estes são valores atuais, praticados por clubes brasileiros que os levam a um beco sem saída.
Para piorar, o futebol acompanhou nos últimos quatro, cinco anos, o delírio dos executivos financeiros do primeiro mundo.
Criou-se nas Bolsas de Valores e nos derivativos financeiros dos Bancos, uma riqueza virtual, enganosa, sem lastro. Todos compraram e venderam em cima dela. Quando a primeira peça do dominó enfileirado caiu em cima da mesa, todos viram o que aconteceu.
Não existe na economia real o dinheiro suficiente para bancar as contratações que os clubes europeus fizeram neste período de euforia. Nunca existiu.
Não existe no mercado publicitário brasileiro receita para que um clube tenha 3 ou 4 milhões mensais de compromisso com a folha de pagamento de uma equipe de futebol profissional. (Fora os gastos extras de viagens, estadas em hotéis, estrutura de Centros de Treinamento cada vez mais sofisticado).
Os clubes ingleses devem hoje, no total, 5 bilhões de euros!
5 bilhões de euros!
Os investidores russos e coreanos, milionários exilados em Londres, puxaram o freio de mão, porque eles também estavam alavancados em uma economia virtual.
Abu Dhabi, da United Group, que comprou o Manchester City, com certeza, foi o último investidor árabe a colocar dinheiro grosso no futebol inglês.
Eric Benson, ministro da Prospecção Econômica da França, quer estabelecer, por lei, um teto para os salários de jogadores no seu país, porque ele sabe que os clubes franceses também estão, todos, no vermelho.
Simon Chadwick, da Universidade Coventtry, a pedido da Liga Inglesa, fez um relatório e chegou à mesma conclusão: os salários que se pagam no futebol não se justificam. Não se encaixam num business pla minimamente sério.
Falando do que nos interessa mais de perto: é claro que não é só reajustando os gastos com o departamento de futebol profissional que tudo estará solucionado.
Mas, com certeza absoluta, não há saída para os clubes sem este reajuste.
Precisamos parar de fingir que não sabemos que a coisa está feia, feiíssima. O Atlético Mineiro e o Flamengo devem mais de 200 milhões de reais cada um. O Botafogo do Rio desmancha-se. A Portuguesa de Desportos tornou-se inviável. O Grêmio de Porto Alegre paga duas folhas de pagamento: a atual e outra, do mesmo montante, de contingências de ex-jogadores. O São Paulo, campeão, fechou o ano com deficit. O Corinthians deve mais de 100 milhões de reais. O Santos depende do dinheiro de seu presidente desde que ele assumiu, há mais de uma década.. O Palmeiras se socorre de um parceiro para não se afundar de vez. Um parceiro que pode ir embora a qualquer momento.
O que mais precisa acontecer?
E paremos com esta história de que 100 milhões para clubes como Corinthians e Palmeiras não é dinheiro. É dinheiro, sim. E muito dinheiro.
Se não fosse, eles não estariam devendo estas quantias.
Ou seja, é hora de acordar, mesmo que um pouco tarde, e descobrir que o futebol profissional não comporta, não tem força, não gera riqueza capaz de cobrir os custos mirabolantes que as equipes profissionais acabaram acumulando.
A Europa acordou.
Só no Brasil é que os dirigentes esportivos acham que é só contratar um jogador famoso e “o marketing” vai fazer o resto.
Se os torcedores do Corinthians, por exemplo, fossem comprar todas as bugigangas que pensaram em lhes oferecer ultimamente, não restaria dinheiro para que tomassem o metrô ou trem para ir para casa depois do trabalho.
Mas, tá tudo certo: os dirigentres são brasileitros.
E não foi o presidente brasileiro (70% de aprovação) que disse que o tsunami não ia chegar aqui?
Pois é.
Todos estes dirigentes estão nadando na marolinha. O curioso é que se afoguem numa ondinha tão pequena.





































































































































