Opinião Edgard Soares: Só pra complicar
Edgard Soares comenta a reforma ortográfica da Língua Portuguesa que entrou em vigor em 1.º de janeiro de 2009, “Reforma desnecessária”, como ele faz questão de assinalar. Para nosso Editor ela não acrescenta nada. E afirma não estar sozinho na opinião: o conhecido Professor Pasquale Neto também considerou a reforma simplesmente “estéril”. Com acento, por enquanto.
Juro que tentei ter boa vontade com a reforma ortográfica meia-boca que as Academias de Letras do Brasil, Portugal e países lusófonos além-mar inventaram de fazer e que entrou em vigor no primeiro dia de 2009.
Definitivamente, não vejo vantagem alguma no que foi feito. A não ser criar confusão.
Os argumentos são tão pífios que, muitas vezes, penso que esta reforma parcial podia bem não pegar.
O que me chateia é a defesa dos filólogos que a aprovam: a unificação da escrita dos países que falam a língua portuguesa os ajudaria (países) a se desenvolver economicamente.
Nada mais falso.
Como querer unificar rigidamente a comunicação de usos e costumes (que a língua escrita e falada torna possível entender) de nações tão díspares como Brasil, com seu tropicalismo e economia de continente e Portugal, que cabe dentro do estado de São Paulo e cuja aspiração histórica é ser aceito pelo resto da Europa?
E ainda igualar nossos objetivos com o de países ávidos por conquistas em outros estágios como São Tomé e Príncipe e Cabo Verde?
Somos mais próximos de nossos rivais futebolísticos argentinos do que de qualquer destas nações. Sabemos o que acontece em Buenos Aires, os argentinos vêm passar férias em Santa Catarina, recebemos jogadores de futebol de nossos vizinhos para atuarem aqui. Fazemos piada com eles, copiamos alguns de seus programas de televisão.
Enquanto isso, o que nos une às ex-colônias portuguesas?
Honestamente, você sabe alguma coisa sobre São Tomé e Princípe? Conhece pelo menos o nome da capital daquele país?
Tenho certeza de que você já viu uma foto de Christina Kirchner e sabe que ele é esposa do ex-presidente dos argentinos.
Agora, você poderia me dizer quem comanda politicamente Cabo Verde? Quem é seu Presidente? Ou seria Primeiro-Ministro? Teria ambos?
Qual a importância de saber que em Lisboa se fala “comboio” ao invés de “trem”? “bicha” ao invés de “fila”?
Você acha que algum dia vamos chamar nossas crianças de “putos” e o pão francês de “cacetinho”?
E você tem alguma dúvida de que as coisas continuarão exatamente assim, com ou sem reforma?
É sandice imaginar que modifica-se uma língua por decreto.
Não se impõem uma padronização de linguagem de cima para baixo. Gostem estes autores da reforma ou não, fala-se e escreve-se um português em Portugal e nas suas ex-colônias e outro no Brasil.
Nenhuma lei vai mudar isso.
Agora, me diga:
Tem graça escrever de uma hora para outra “geléia”, “assembléia” ou “idéia” sem acento?
E as horas que passei decorando e fazendo meus filhos decorarem que palavra paroxítona terminada em ditongo aberto ou crescente leva acento?
E o próprio som das palavras que pedem o acento agudo, como é que fica?
Convenço-me de que foi tudo que estudei foi de mentirinha?
E qual a explicação para os acentos agudos continuarem existindo em “herói”, “dói”, “anéis”, que também são ditongos abertos como em “panacéia”, “cananéia” e, com o perdão da palavra, “diarréia”?
Francamente.
Perda de tempo e de dinheiro.
É isso o que esta reforma, repito parcial e capenga, vem tomando dos Governos e de seus contribuintes, ou seja de nós mesmos, desde 1986. São 22 anos de viagens, estadas em hotéis cinco estrelas, almoços e encontros de ilustres figuras que vivem nas nuvens. 22 anos, caro leitor!
Honestamente, você pode me dizer o que muda em escrever “mandachuva” ao invés de “manda-chuva”, “pára-quedas” ao invés de “paraquedas”, “infra-estrutura” ao invés de “infraestrutura”?
A não ser o custo para editar novos livros, para perdemos nossas bibliotecas, muitas vezes, construídas com tantos sacrifícios.
Ora, vamos parar de brincadeira.
Acredite se quiser: depois de 22 anos trabalhando na tal reforma inócua, os linguistas ainda deixam uma carreira de dúvidas, com uma lista de palavras em que não há consenso se escrevem daqui para a frente com hífen ou sem hífen, com acento ou sem acento.
O Japão, que é a segunda economia do mundo, só é falado no Japão. O coreano, só é falado na Coréia. Isto não impediu que a Coréia do Sul tivesse um desenvolvimento econômico impressionante nos últimos anos. Nem que o Japão, que perdeu a Guerra, figurasse com destaque no G7 poucas décadas depois.
E ainda saiba que no arquipélago japonês existem dezenas de dialetos diferentes entre si, falados por 30% da população.
O mesmo acontece na China e na Índia. A escrita própria de cada um, praticada somente nestes países, não foi empecilho para que o PIB de ambos crescesse vertiginosamente.
Por que não deixar o português do Brasil em paz?
Não dá pra lutar contra a realidade: em Cabo Verde, hoje, há pouquíssimos portugueses. 100% da população nativa fala, na verdade, o crioulo, além do português que, diga-se, tem várias expressões próprias, locais, diferentes das nossas.
O Brasil, com mais de 140 milhões de pessoas, deveria, sim, é investir tempo e dinheiro em educação e fazer com que as pessoas lessem mais. E aprimorassem o português ensinado na escola. Conhecessem nossa literatura que é bela e farta.
E não desse motivo para que agora alguns digam: por que vou conhecer os livros de Jorge Amado, Carlos Drumond de Andrade ou João Ubaldo Ribeiro se eles vão estar com a ortografia errada?
Temos até janeiro de 2013 para utilizarmos as formas antigas, como “lêem” ao invés de “leem” e “enjôo” ao invés de “enjoo”. Neste período de quatro anos, as duas maneiras de escrever serão consideradas corretas pelos gênios, pais da reforma.
O que também me parece outra prova de que, de concreto mesmo, esta reforma só traz confusão. É como se o Governo editasse uma lei e durante quatro anos ela não valesse. Realmente…
Se a reforma for irreversível (nada é impossível), o FUTEBOL INTERIOR é, claro, a adotará.
Mas será que esta gente não tinha mais o que fazer com o tempo e dinheiro público, como escolas, hospitais, computadores populares, extinção de doenças como dengue e malária, por exemplo?





































































































































