Opinião Edgard Soares: Lá sou amigo do Rei!
Adriano nunca leu Manuel Bandeira.
Apesar disso, fez mais pela literatura brasileira do que muita gente que cursou uma faculdade e teve que decorar às pressas resumo de obras de escritores brasileiros para o
vestibular.
Adriano fez uma “opção pela felicidade”, em suas próprias palavras.
O mínimo que se pode fazer é apreciar a coragem de Adriano. Pessoalmente, desejo que ele seja realmente feliz, porque parece que merece.
A atitude de Adriano, para mim, tem mais valor ainda pelos tempos que vivemos. A obsessão das pessoas pela fama e pelo dinheiro, constituem a mais grave doença dos nossos dias. O pior para elas é que quanto mais as perseguem, mais as duas ficam distantes.
Como ganhar dinheiro depende no mais das vezes de competência e, em alguns casos de sorte, os medíocres se contentam com uma lasca daquilo que, na sua visão distorcida seja algo parecido com fama. Andy Warhol já previra, sabiamente. O resultado é que fazem, literalmente, qualquer coisa pelos 15 minutos. Que podem ser 10, ou cinco. Ou um segundo.
Adriano, que ao contrário dos medíocres que correm – sem sair do lugar – atrás do sucesso, dá um exemplo histórico. Ele chegou lá: tem prestígio, espaço na mídia e mais dinheiro do que jamais pensou possuir. No entanto, fez uma opção pela paz de espírito, pela vida que gostaria de viver.
Adriano nunca leu Manuel Bandeira. Talvez agora, na Vila Cruzeiro, favela da zona norte do Rio, que pretende freqüentar com mais assiduidade, ele possa conhecer o poeta. Tempo, ele terá.
Interessante que quase ninguém saiba que o grande poeta pernambucano, membro da Academia Brasileira de Letras, penou tanto para chegar lá. Teve que financiar, ele próprio, seu primeiro livro, “A cinza das horas”, com apenas 200 exemplares, publicado pouco depois da morte de sua mãe. E, acredite se quiser, o segundo livro de Bandeira, “Carnaval”, também foi bancado pelo escritor. Da mesma forma que o terceiro, “O ritmo dissoluto” e até o quarto, “Libertinagem”, quando ele já tinha 50 anos. Só depois sua carreira deslanchou.
Bandeira faleceu com 84 anos, aí já então consagrado.
Para Adriano, ao contrário, foi tudo muito rápido. Com 19 anos ele já estava na Europa. De menino de situação financeira miserável, ele, aos 20 anos, tinha uma pequena fortuna, carros, mulheres bonitas, bela casa, nome no jornal e nas emissoras de TV.
O interessante, o mágico e o incrível, é que no auge de sua carreira (afinal ele está na seleção brasileira e só não é titular porque não se esforça o suficiente), reconhecido pelo atual maior treinador do mundo, que é José Mourinho, como um grande jogador, Adriano pede um tempo. E o mais difícil: diz onde encontrar o próprio eixo. Para mim, um sintoma saudável, ao contrário do que muitos devem pensar.
Encontrar o eixo é um permanente desafio. Bandeira se aproxima de Adriano, aparentemente tão diferente do poeta.
Apenas aparentemente. Pois leia com atenção, a receita de Bandeira quando também pediu um tempo para si mesmo e sabia exatamente onde encontrar o seu porto seguro. A Vila Cruzeiro de Manuel Bandeira se chamava Pasárgada.
O texto coloquial, livre e solto de Bandeira poderia ter sido escrito por Adriano. No fundo, a poesia mais famosa de Bandeira e a atitude de Adriano dizem a mesmíssima coisa.
Duvida? Confira:
Vou-me embora pra Pasárgada,
lá sou amigo do rei.
Lá, tenho a mulher que eu quero,
na cama que escolherei.
Vou-me embora pra Pasárgada,
aqui eu não sou feliz.
Lá, a existência é uma aventura,
de tal modo inconsequente
que Joana, a louca da Espanha,
rainha e falsadamente
vem a ser contraparente
da nora que nunca tive.
E… como farei ginástica,
andarei de bicileta,
montarei um burro bravo,
subirei no pau-de-sebo,
tomarei banhos de mar.
Em Pasárgada tem de tudo,
é outra civilização,
tem até um processo seguro
de evitar a concepção.
Tem telefone automático,
tem alcáide à vontade,
tem prostitutas bonitas,
pra gente namorar.
E quando eu estiver mais triste,
mais triste que não tem jeito,
quando a noite me der vontade de me matar…
lá.. sou amigo do rei.
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei.
Como nos filmes de outrora, qualquer semelhança entre poeta e jogador, é mera coincidência.





































































































































