Homenagem a Ana Paula Oliveira

O colunista Edgard Soares enaltasse a beleza e o profissionalismo de Ana Paula Oliveira e lembra a performance do apitador Armando Marques nos anos 60.

Leia a crônica e veja a comparação

Seja sincero: você quer ou não quer saber como são os seios de Ana Paula Oliveira?

Pequenos demais para sua altura e porte? Fartos? Naturais? Siliconados?

Se dependesse só da galera do futebol, a revista Playboy quebraria seus recordes de venda.

Já há algum tempo, sob o suspiro dos torcedores, Ana Paula passeia sua beleza, seus cabelos negros e suas bem torneadas pernas pelos gramados paulistas e brasileiros.

Tão comentadas como sua estética física caracterizaram sua carreira algumas marcações equivocadas, como o gol anulado do Santos contra o São Paulo na Vila Belmiro pelo último Campeonato Paulista e os impedimentos inexistentes da equipe do Botafogo no recente jogo contra o Figueirense, pela Copa do Brasil.

Com certeza, estes erros só se tornaram famosos porque Ana Paula é famosa.

Poucos assistentes – para falar a verdade, nenhum – são conhecidos como Ana Paula. Assim, seus percalços, quando acontecem, também possuem uma repercussão muito maior. Eles são proporcionais a sua fama.

A questão que se põe é esta: depois que posar nua para a revista masculina mais comentada do país, Ana Paula terá tranqüilidade e equilíbrio para atuar dentro dos estádios?

Haverá uma partida – uma única partida que seja – na qual seu ato de despir-se para o Brasil, não seja lembrado?

Pela torcida, posso responder: não. Em todos os jogos, haverá gracejos, bordões, cânticos, palavras de ordem repetidas pelas organizadas lembrando que o uniforme da FPF ou da CBF não podem esconder mais os segredos da bela assistente.

Quanto aos jogadores, no calor da disputa, conseguirão segurar algum tipo de ofensa, de gracejo, de sarcasmo? Não sei.

Como Ana Paula reagirá às manifestações? Em que isso poderá influenciar suas atuações? Como mulher que é, ela poderá chorar se palavras mais duras forem ouvidas? Ela estará mais sensível quando coincidir uma atuação com os dias de TPM?

Só o tempo dirá, mas a impressão é que Ana Paula está se despedindo dos campos de futebol como personagem de arbitragem, embora tenha tudo para continuar ligada ao futebol. Como comentarista esportiva, provavelmente.
Sem dúvida, haverá uma Ana Paula antes e outra depois da revista. Roger, o goleiro, então no São Paulo, hoje no Santos e Vampeta posaram para uma revista de gays, mas ninguém deu a mínima.

O fato de Ana ser mulher faz muita diferença.

Armando Marques já era homossexual quando atuava como árbitro na década de 60.

E tinha gestos, trejeitos, fala e postura afeminados. Tinha até nome feminino: Armando Rosa Marques.

Ora, os homossexuais costumam ser satirizados, marginalizados, ridicularizados até hoje em dia. Basta ver alguns programas de tv, onde eles são o tempo todo esteriotipados.

Agora, imagine na década de 60 como era o cenário. Ninguém falava em atitude politicamente correta, quase não havia defesa do direito das minorias. Não se imaginava que um dia existiria um evento denominado Parada do Orgulho Gay, reunindo milhares e milhares de pessoas na principal avenida da maior cidade do país.

Pois bem. Tendo como pano de fundo um Brasil muito mais conservador do que o atual, Armando Marques era um árbitro que impunha – como nenhum outro – disciplina dentro do campo.

Não havia, quando ele começou a atuar, cartão amarelo e vermelho, que só nasceriam na Copa de 1970, no México.

Mas as admoestações verbais que Armando Marques passava nos jogadores eram antológicas. E quase todos colocavam as duas mãos para trás, quando ele, de dedo em riste, os chamava para perto de si e os ameaçava de expulsão. Os atletas o obedeciam como a nenhum outro árbitro.

A cena de Armando com o braço direito esticado, indicando que ele expulsaria o infrator no próximo lance faltoso é conhecidíssima pelas fotos da época.

Armando também nunca tratou um jogador pelo apelido. Didi era “seu” Valdir, Pelé, “seu” Edson, Coutinho, imagine só, “seu” Antônio Wilson. O que também já era um evidente exagero, frescura pura de Armando.

O importante, historicamente, é que Armando apitou galhardamente até atingir o limite de idade permitido para tal. E foi, de longe, o maior árbitro de sua época. O mais marcante e carismático.

Nem mesmo erros crassos, como a contagem equivocada na final do Campeonato Paulista de 1973, entre Portuguesa de Desportos e Santos ou o gol legítimo de Leivinha anulado numa partida decisiva contra o São Paulo em 1971 abalaram sua imagem.

Armando era único. E apesar de sua conhecida opção sexual, estigmatizada pela sociedade, era respeitado dentro do campo. Muito mais do que o foi como dirigente da CBF.

Ana Paula, 29 anos, 1,74 cm., 85 de busto, 92 de quadril, como moça de origem humilde, tem todo o direito de aproveitar a oportunidade e fazer um pequeno pé de meia por meio de seu contrato com a Playboy. Ela já deixou Hortolândia, onde morava e reside agora em Campinas, mas quer, legitimamente, mais.

Se isso pode abreviar sua carreira como assistente, independente de ela ter outras opções de trabalho, é algo que vai depender exclusivamente de sua postura. Dentro e fora de campo. O comportamento de Armando Marques como juiz de futebol poderá lhe servir de inspiração.

São situações diferentes, você dirá. Mas a verdade é que há mais pontos a ligá-los do que imagina nossa vã filosofia.

Quanto aos marmanjos, estes devem estar babando, aguardando ansiosamente a edição da revista.

Principalmente os jovens torcedores. Ou os nem tanto, dispostos até a propor casamento à bandeirinha.

Perda de tempo. Como diria Lupicínio Rodrigues, “esses moços, pobres moços…ah!… se soubessem o que eu sei…”.

Fale com Edgard Soares: [email protected]