Opinião Edgard Soares: Era uma vez uma Seleção Brasileira

A vida passa, os interesses mudam. É triste, mas é assim

Acabei de assistir “O Ano em que meus pais sairam de férias”.

Impossível não se emocionar com um filme tão simples e justamente na sua simplicidade residir a sua qualidade como obra de arte.

É fácil, por exemplo, escrever dificil. O contrário é que são elas.

Se você não está atrasado como eu, e já alugou o dvd ou assistiu no cinema, parabéns. Se não fez uma coisa nem outra, corra à locadora. Vale a pena.

A par do drama do filho (forçadamente) abandonado pelos pais que lutavam contra a repressão, há um aspecto extremamente significativo na trama.

Trata-se da morte, já há algum tempo, da ligação de afeto, de amor da torcida para com a seleção brasileira de futebol.

Há uma cena no filme, em que os comerciantes do Bom Retiro, então um bairro ainda dominado comercialmente pela colônia judaica, cerram suas portas de aço e correm para casa a fim de assistir a estréia da seleção na Copa de 70.

Era assim na cidade toda. Eu, por exemplo, morava no Rio de Janeiro e dias de partidas da seleção posuíam um roteiro próprio. Feriado, preparação detalhada para assistir o jogo, sempre com muitos amigos, e comemoração pelas ruas da cidade após a vitória. Sim, porque sempre acreditávamos que a vitória viria.

Existia empatia entre os jogadores da seleção, o treinador, a Comissão Técnica e a grande maioria da torcida.

Já se tornou histórica, para não dizer folclórica, a dúvida cruel que assaltava a
todos que eram contrários à ditadura então instaurada: torcer a favor da seleção favorecia o regime militar?

Como racionalmente, a resposta era sim, as pessoas que pensavam, que sentiam necessidade dos ares democráticos, todas, começavam torcendo contra a seleção. Mas, invariavelmente, deixavam-se levar pela emoção e pulavam e gritavam quando os gols de Rivelino, Jairzinho e Pelé saíam.

Foi um duro teste de fidelidade a que a seleção brasileira foi submetida. Mas ela triunfou.

Não consigo detectar exatamente quando o amor acabou. Sei que um querido amigo, grande jornalista, me confessou há alguns anos: “Edgard, você não sabe o que aconteceu? Dormi vendo um jogo, ao vivo, da seleção na tv”.

Claro que ele não foi o único. Ouso dizer que a maioria ou ignorou aquele amistoso e também ressonou assistindo-o na telinha.

Acontece que o meu amigo, a quem vou preservar, sem citar o nome, é um raro talento. Escreve bem, conhece muito sobre futebol e, principalmente, é bom caráter.

Seria impensável alguém como ele sequer cochilar no início da década de 70 vendo a seleção barasileira se exibir na tv.

Mas é evidentemente que o que aconteceu com meu amigo não é exceção. A seleção brasileira de futebol não produz mais nenhum frenesi.

E o que é pior: nem mesmo nos jogadores. Basta que se recorde da Copa do Mundo de 2006, onde mesmo depois da derrota para a Fança, os jogadores foram a uma casa notura se divertir.

É uma triste constatação que me foi mais uma vez alertada pelas cenas do filme que assisti.

Enfim, tudo parece mesmo ter piorado no futebol.

Numa de minhas últimas colunas, formei a seleção brasileira de todos os tempos. Recebi uma enxurrada de e-mails e publiquei alguns.Tanto a seleção ideal como os comentários, contra ou a favor, abordavam jogadores que já se aposentaram. Quase nada sobre os atuais.

A vida passa, os interesses mudam. É triste, mas é assim.

Aliás, a seleção brasileira, com Bobô convocado, joga esta semana. Mas quem está interessado no assunto?

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