Sérgio Salvucci, o locutor pontepretano

Sérgio Salvucci, o locutor pontepretano

Eu acho que foi em 67, o Peri Chaib, que é uma história viva da Ponte Preta, garante que foi em 68. De qualquer forma, se foi em 67 ou 68 não importa. Eu quero contar como foi a minha despedida da Rádio Brasil de Campinas, cujo chefe de esportes era Sérgio José Salvucci que, depois da Dona Edith, sua esposa, e de seus filhos Serginho e Carlão, era da Ponte Preta que ele mais gostava. Grande radialista, grande homem, grande amigo, enfim, o Sergio tinha todas as qualidades do mundo. Só haviam dois problemas: fumava muito e, gostava demasiadamente da Ponte, o que não era bom para um locutor esportivo e chefe da equipe esportiva de uma rádio que dominava em audiência. O Sérgio até se elegeu vereador em Campinas por conta dos votos dos torcedores da “macaca”. Ele não fez campanha e tão pouco pediu votos. Apenas anunciou que era candidato e isto bastou para ser um dos mais votados.

Depois das transmissões, em Campinas, os participantes da jornada faziam a célebre “mesa redonda” para comentar o jogo da Ponte ou do Guarani e outros resultados do domingo. Quando o jogo era da Ponte e o Sérgio comandava a mesa, não se falava em outra coisa senão da Ponte. Como eu comecei no rádio em Votuporanga, na escola do Luiz Rivoiro, conforme já disse aqui em colunas anteriores, não estava acostumado ao sistema do Sérgio. Assim, participei da primeira “mesa” sentado a um lado dos demais companheiros, José Lamana, Cláudio Grillo e Danglares Gomes. Vinte e sete minutos só falando da Ponte. Todos falaram, menos eu e, foi ai, no final do programa, que o Salvucci disse: até agora, quando já estamos no final do programa, o único que não se pronunciou foi o Fauzi. “Qual é a sua opinião, Fauzi ?”, perguntou-me o Sérgio no que respondí: Só quero saber contra quem a Ponte jogou ?. – Como, contra quem a Ponte jogou ? Foi você que transmitiu a partida e não sabe com quem a Ponte jogou ? redarquiu Sérgio. É que até agora não se falou em outra coisa aqui na mesa senão da Ponte, respondi. Até parace que a Ponte jogou sozinha, sem adversário. Precisamos falar que o XV de Piracicaba foi uma equipe aguerrida que vendeu caro a sua derrota. Que seu goleiro, além de pegar tudo, ainda teve muita sorte em vários lances. Pronto. Foi o suficiente para o Sérgio acender um outro cigarro esquecendo-se que já tinha um outro, aceso, pela metade no cinzeiro e imediatamente encerrar a tal “mesa”. Voltamos a nos falar somente dois dias depois. O Salvucci não tinha coração para guardar rancores.

Não demorou muito e, numa outra “mesa redonda”, estávamos lá com o Sérgio, Lamana, Cláudio Grillo, Gilberto Silveira Bueno, e o mano Ali Kanso. O Salvucci, como de costume, e por direito por ser o chefe, assumiu o controle e iniciou os trabalhos com críticas ao centro avante Manfrini que perdeu uma infinidade de gols fáceis. Todos falaram do jogo, porém, o Sérgio não esquecia do Manfrini e dá-lhe pauladas. Caminhando para o final do programa pedí um aparte ao Salvucci e perguntei: Sérgio, a Ponte ganhou de dois a um, certo ? – Certo, ele respondeu. Ai a minha pergunta maldosa: Quem marcou o gol da vitória, não foi Manfrini ? Foi, e daí ? retrucou o Salvucci. Então, disse-lhe: o Manfrini foi o homem do jogo, foi ele que garantiu a vitória da Macaca. Desta vez , o Sérgio ficou mais de uma semana no mais absoluto silêncio comigo.

Mas, foi no jogo Ponte Preta e Francana, no Estádio Jaime Cintra, em Jundiaí, que fíz a minha despedida da equipe do Sérgio. Esse jogo era decisivo. A Ponte necessitava da vitória e o jogo foi realizado em Jundiai porque o Moyses Lucarelli estava interditado. O técnico da Ponte era João Leal Neto, camarada seríssimo, honesto, em princípio de carreira. O goleiro da Ponte era Machado, alto, forte, preciso nas saídas em bolas altas e extraordinário no comando da defesa.

Num determinado momento do segundo tempo o juiz marca um penalti contra a “macaca” que vencia por um a zero. O empate desclassificava o time de Campinas. Na gabine da rádio o Sérgio quase infartou. Ficou bons minutos achincalhado o árbitro em seu nome e em nome da torcida. Depois de ouvir as opiniões dos companheiros Lamana, Ali Kanso, Danglares, Cláudio Grillo e antes que o penalti fosse cobrado ele me convoca: “E ai, Fauzi. Você que está atrás do gol o que tem a falar, se é que tem, sobre esse desequilibrado homem de preto que a Federação mandou para derrubar a Ponte ? Sérgio, exatamente por estar atrás do gol e ter visto bem de perto o lance, posso garantir à você e a toda equipe que o penalti existiu, concluí. Desta vez o Salvucci não infartou porque seu coração era forte demais mas, deu para sentir seus dentes serrados e seus olhos me fuzilando mortalmente.

Depois de muita discussão o penalti é batido e convertido. Esperei pelo final da partida e corrí sobre o Machado com aquela manha de todo reporter: “Machado, Machado, você que é um profissional extraordinário, correto, líder do time, díz, por favor, aos ouvintes da Rádio Brasil, foi ou não foi penalti ?”. Se foi penalti ? Claro que foi. Só cego não viu que foi penalti. O que ninguém viu é que a Ponte precisava jogar para ganhar e jogou como time pequeno, com medo do adversário. O único culpado dessa desclassificação todos sabem quem é, referindo-se, naturalmente, ao técnico, seu algoz.

Dai prá frente não disse mais nenhuma palavra ao microfone, como também o Sérgio não precisou dizer que não me queria mais na equipe. Nem no carro da Rádio Brasil tinha mais lugar para mim. Voltei de carona.

Embora tenha tido problemas e mais problemas com o chefe Salvucci,(era a escola e o fanatísmo dele contra a minha escola de independência) confesso que aprendí muito com ele, principalmente, ser menos impetuoso com o microfone aberto e saber a hora certa de entrevistar, isto é, nunca dar chances a quem estiver fora de controle, nervoso, exaltado… ou pessoa candadita a qualquer cargo e que precisa da entrevista para malhar o adversário. Foi muito bom ter convivido com o Sérgio Salvucci, pontepretano como nunca ví igual e que a todos, inclusive bugrinos, tratava com muito respeito e atenção. Como político, o Sérgio não consegiu reeleição porque, quando vereador, trabalhou estritamente como mandava (e manda) a regra da decência, da dignidade, da retidão. O Sérgio Salvucci jamais usou o cargo para manobras ou em benefício proprio, dos familiares, dos amigos e nem, acredite quem quiser, nem em benefício da propria Ponte Preta. Ele era sério demais e muito puro para ser político.

Sérgio José Salvucci, tai um grande e honrado nome para ser colocado no novo estádio da A.A. Ponte Preta, se é que vai ser construído.