Que saudade me dá

Falar do nosso soberbo interior paulista, relembrando o seu fantástico passado, é falar de coisas deliciosas como por exemplo, a sua culinária (hum!!! o “virado à paulista”); seus rios piscosos: Tietê, Rio Grande, Cubatão, Talhadão, Rio Prêto, São José dos Dourados, Jaguarí, entre tantos outros. É deliciosamente gostoso lembrar dos bailes tradicionais como os de formatura, de debutantes, dos estudantes no meses de julho e dezembro. Das orquestras impecáveis como Laércio de Franca, Nelson de Tupã, Orquestra Guarani e Capri Ritmos, de Votuporanga; Osmar Milani, Os Tabajaras… Das quermesses organizadas e mantidas pelas colônias árabes, portuguêsas, japonesas, italianas, entre outras, para ajudar as igrejas. As prendas oferecidas éram feitas no maior capricho e simplesmente deliciosas. Eu me lembro bem das muitas “prendas” com quitutes árabes fantásticamente bons que minha santa maezinha fazia e que meu pai, orgulhoso, levava até a barraca para o velho Lazinho Grippe “gritar” em leilão. Das serenatas onde o jovem declarava “cantando” seu amor para a sua predileta.

Os Jogos Abertos , que os políticos dos anos 90 prá cá mataram, eram verdadeiras festa dos estudantes, pura integração. As famílias que podiam, colaboravam arrumando acomodações para os jovens estudantes atlétas. A cidade parava para ver os desfiles,onde cada colégio, representando a sua cidade, desfilava com seus alunos carregando garbosos e orgulhosos as bandeiras representativas. Quanta alegria. Quanta festa. Quantos namoros e casamentos começaram ali. No encerramento, discursos, premiações e o grande baile da despedida. Não havia nada que pudesse macular os Jogos Abertos e os seus participantes. As emissoras de rádio mudavam a suas programações só para atender aos interesses dos jogos. Todas as partidas eram transmitidas: hand-baal, natação, basquete, volei, futebol de salão, ping-pong, enfim, tudo contava com as presenças das rádios e jornais. A Tv. estava chegando. Quantos locutores famosos começaram suas carreiras nos Jogos Abertos…

Os Jogos Abertos começaram a perder força quando a política e os políticos começaram intervir para tirar proveito. Campinas que sempre teve boa participação nos Jogos, derrepente, mesmo sabendo que estava contrariando as normas, regras e até a ética da moralidade, resolveu “convocar” atletas profissionais para, travestidos de jovens-estudantes , participar e defender “com amor” a bandeira da cidade. Não estou bem certo mas, com a “convocação” de Mequinho (ou teria sido outro campeão?) para disputar o xadrês por Campinas, os Jogos acabaram de vez.

Quanta saudade das escolas primárias e dos ginásios. Dos grandes mestres respeitadíssimos, como éram também respeitados e queridos por todos os serventes, merendeiras, dentistas, diretores, secretárias… Das equipes de futebol de salão que, pelo menos duas vezes por ano, disputavam campeonatos envolvendo os colégios, com a participação efetiva e muita torcida dos alunos. Quanta saudade das fanfarras que, a cada data magna, desfilavam pelas ruas com apresentações impecáveis e memoráveis. O Govêrno Estadual , da época, tinha um carinho grande pelas escolas, professores e alunos. Investia-se muito nas construções de prédios com pés direito bastante altos, amplas salas, com janelas e portas largas. A Diretoria era primorosa, como também eram confortáveis as secretarias, salas dos professores, bibliotecas, sala do canto orfeônico… Os banheiros, masculinos e femininos, recebiam atenção especial dos serventes que a todo instante estavam a limpá-los. A cada três meses, uma equipe da Secretaria de Saúde, visitava as escolas para fornecer vermífugos aos alunos. Poucas eram as cidades com saneamento básico, daí o cuidado. Olftalmologistas a cada seis meses apareciam para examinar os olhos da criançada. Os que precisavam recebiam óculos gratuitamente. A merenda escolar era saborosa e de alto valor nutriticional. Alunos de baixa renda tinham materiais da melhor qualidade, iguais aos dos alunos cujos pais podiam comprar.

Haviam verbas para comemorações. As escolas recebiam instrumentos para as fanfarras e para as aulas de música. Nas aulas de leitura, sempre, o aluno colocava-se de pé, aprendia a segurar o livro aberto com uma das mãos, com ótima postura e, para perder a inibição, lia em voz alta. Os professores eram verdadeiras autoridades cujas ordens eram plenamente obedecidas. A criança aprendia no grupo escolar o que hoje se ensina no médio. O professor era bem remunerado e tinha prazer no que fazia porque, sabia que de alguma forma, estava colaborando com o futuro promissor de cada criança que estava ali sob sua responsabilidade. O professor, por conta propria, se reciclava.

A situação do ensino no Estado de São Paulo começou a se fragilizar quando um governador, num ato estúpido e covarde, lascou um tapa na cara de um pobre professor, que há dez anos sem nenhum reajuste, resolveu, por melhores salários, participar de um justo movimento grevista, na Praça da República. Aliás, este ato leviano do governador desastrado parece ter estimulado alunos. Tanto é verdade que há sempre um professor, indefeso, apanhando dentro da sala de aula.

Em Campinas, o prédio do Colégio Culto à Ciência, onde estudaram grandes vultos da nossa história, como Santos Dumont, está caindo aos pedaços. Trata-se de um prédio centenário, tombado pelo Patrimônio Histórico, que ainda está de pé não se sabe como. Sua piscina, pré olímpica, onde os alunos tinham aulas de natação , deu na imprensa, vai ser entupida pelo fato de não haver verba para o cloro, desinfetante da água. Sabe quanto custa um quilo de cloro ? Noventa centavos. Sim, noventa centavos. Depois disso não quero falar mais nada. Estou ácido.

Com esta coluna quero cumprimentar o Professor SEBASTIÃO GONÇALVES. Doutor em Linguística. Doutor em Direito. Fluente no inglês, espanhol e francês. É pianista. Foi, durante décadas, diretor de escolas públicas mas, dentro de sua humildade e singeleza , gosta de ser chamado simplesmente de PROFESSOR. O Professor SEBASTIÃO GONÇALVES, é natural de Urupês – SP., onde vive.

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