Sinal de Alerta

Estou realmente preocupado.
É um sentimento mudo, pequenino, que vem lá de dentro, discreto. Mas que não quer ir embora.
Invoco paradigmas irrefutáveis, aparentemente indestrutíveis. E que se transformaram em pó.
Lembro-me da espetacular rede de comunicação criada por Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Quem leu o livro de Fernando Moraes, “O Rei do Brasil”, entende melhor o que estou falando.
Chateaubriand trouxe a televisão para o país, isto é a primeira Estação Geradora de imagens e, de quebra, comprou uma centena de aparelhos receptores que espalhou pelas vitrines do centro da cidade.
Ou seja, ele inventou a televisão entre nós e um mercado para consumi-la. Apesar disso os seus Diários Associados, as emissoras de tv inclusive, tiveram um fim lamentável. Apenas vinte anos depois.
Lamentável, porque todo o Império foi acabando aos poucos, deteriorando-se, desvalorizando-se, depreciando-se, perdendo a cor, o brilho, a importância.
Fui à locadora 2001, na avenida Paulista, especializada em filmes antigos e desci a pé até minha casa a poucos quarteirões dali.
Passei em frente à quadra que continha a mansão dos Matarazzo, hoje transformada em estacionamento sem cobertura para os carros.
Matarazzo foi o maior empresário não do Brasil, mas da América Latina, incluindo aí o México, que, geograficamente, fica na América do Norte.
Da banha ao azulejo para construções, as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo produziam de tudo. E, em tudo, eram líderes de mercado.
O enorme Grupo Empresarial não resistiu sequer aos netos. E a derrocada foi absoluta, total, arrasadora.
Igualmente aqui, a morte foi lenta, gradual e progressiva.
Também fui ao centro. Deixei meu carro na Rua Líbero Badaró e segui para Santana de metrô, onde tinha uma reunião na rua Voluntários da Pátria. Não me animei a enfrentar o trânsito da avenida Tiradentes. Da vez anterior levei uma hora e quinze minutos da Praça das Bandeiras que, por sinal, não existe mais, até a Braz Leme, poucos quilômetros à frente. E outro tanto de tempo para voltar.
Comi um hot dog no Largo do Café, como fazia quando era garoto. O sabor é quase o mesmo, mas o entorno está lastimável. Também o centro foi perdendo a importância, o charme e a postura de forma irremediável. Não há como recuperá-lo hoje em dia. Deixou-se a decadência ir fundo demais.
Quando se citam outras metrópoles, onde os centros originais se recuperaram, se esquece de que, lá fora, a degradação não chegou a um ponto tão crítico.
As coisas simplemente acabam, por maior que sejam, por mais fortes e saudáveis que pareçam durante algum tempo. Desfazem-se inacreditavelmente. Se é pouco a pouco, é mais doído ainda.
Estou realmente preocupado.
Num sentindo mais amplo, mais profundo, com contornos de determinismo histórico. Não se trata de uma culpa isolada. Não me refiro a um episódio pontual. Trata-se de um conjunto da obra, onde todos têm culpa e não há perspectiva positiva alguma que se vislumbre capaz de estancar o esvaziamento.
Há falta de idéias realmente criativas.
O mundo sempre andou para a frente graças à obra e talento de visionários que enxergavam mais e melhor do que a grande maioria. De realizadores que se destacaram e que foram em frente por força de seus próprios instintos e impulsos.
Os costumes e a estrutura atuais sacrificam as individualidades que possuem competência superior. Possuir estas qualidades parece ser uma ofensa.
Fazem o trivial em função do grupo, da comunidade, que via de regra é pobre e fraca em iniciativa. Que não ousa, porque não sabe ousar. Que é repetitiva, porque é mediocre.
A genialidade, afinal, nunca foi nem será coletiva.
Bethoven jamais comporia uma obra em parceria com Wagner.
Portinari não pintaria metade de um quadro e entregaria a outra parte para Di Cavalcanti terminar.
Machado de Assis não escreveria um livro até a página 200 e depois deixaria que José de Alencar o terminasse.
Estou realmente preocupado.
O maravilhoso, o inigualável, o grandioso, o maior de todos, o campeão dos campeões, pode estar, muito lentamente, caminhando para a decadência irreversível.
Ignorância de um passado tão bonito? Medo de aprender com quem aprendeu com os construtores da mística? Pavor de descobrir que o mundo não começou anteontem e não saber para onde ir?
Culpa de ninguém em especial.
Culpa das pessoas certas não estarem nos lugares premiados na hora precisa.
Culpa do ciclo da vida.