​ O preconceito nosso de cada dia

Alemães encantam com o futebol e simpatia e conquistam respeito e carinho dos brasileiros

Exageros à parte, como achar que a federação do futebol alemão iria doar o tal hotel para a construção de uma escola no Brasil, a delegação alemã fez bonito dentro e fora de campo

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Minha geração cresceu ouvindo falar que os alemães eram pessoas frias e calculistas, e que jogavam algo parecido com futebol. Mesmo convivendo com descendentes germânicos, nunca consegui desfazer completamente essa imagem. Até esta Copa do Mundo.

Exageros à parte, como achar que a federação do futebol alemão iria doar o tal hotel para a construção de uma escola no Brasil, a delegação alemã fez bonito dentro de campo e muito mais bonito ainda fora dele. Foi uma goleada de simpatia, educação, polidez e bom humor. Encantaram brasileiros por onde passaram. E nem mesmo a sonora goleada aplicada sobre o remedo de time que nos representou na Copa diminui o carinho que o brasileiro acabou sentindo naturalmente por jogadores e comissão técnica alemães.

Confesso que, depois da desclassificação do Brasil, senti uma vontade bairrista de torcer pelos “hermanos” argentinos. Fiz o diabo para tentar me simpatizar com os vizinhos porteños e cheguei até a ensaiar um pequeno tratado para fundamentar minha decisão. Mas minha filha Maria Luísa, que, diga-se, tem sangue germânico nas veias já que é neta de alemão, me desconcertou do jeito mais simples: “Eles são muito mais simpáticos, pai!” Ok, você venceu.

Confesso também que sou fã do futebol do baixinho Messi. Adoro aquele jeito que ele tem de prender a bola nos pés e inventar uma corrida impossível entre os defensores adversários, e depois ainda encontrar um espaço inexistente para deixar o companheiro na cara do gol ou ele mesmo estufar as redes. Confesso também que sou crítico de Mascherano, que nunca achei que fosse um grande jogador, mas nessa Copa ele simplesmente arrebentou. E confesso também que não conhecia a competência do goleiro Romero, um verdadeiro paredão sob os arcos portenhos. Por tudo isso e pela garra e ousadia apresentadas na partida final, cheguei a postar nas redes sociais que se o título ficasse com a Argentina também estava em boas mãos.

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Mas nada disso superou a organização da bem treinada seleção alemã dentro de campo. Mesmo dando espaços inesperados na final, foi mais equilibrada o tempo todo, e, como veio de uma baba na semifinal contra o Brasil, estava mais descansada que a desgastada seleção argentina, que vinha de prorrogação contra a Holanda. Deu a lógica e venceu o melhor dentro de campo.

Fora dos gramados, a goleada da Alemanha foi ainda maior. A Bahia está encantada com os grandalhões e o resto do Brasil acabou se rendendo. E, a partir de agora, está enterrado definitivamente os meus velhos e ultrapassados conceitos sobre o alegre, simpático e surpreendente povo alemão, de quem temos muito o que aprender. Já que tomamos muito mais “chocolates” em outros campos. Só para citar um, estamos perdendo de 102 a zero na conquista de prêmios Nobel.

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No futebol, os alemães deixaram-nos, além do sabor amargo da goleada de 7 a 1, uma outra grande lição. Perdemos a Copa de 2010 com Dunga e sua seleção de jogadores raçudos. Depois, fracassamos com Mano Menezes e sua seleção de pragmatismo sem criatividade. Estamos ainda com a ferida aberta causada pela filosofia de Felipão, entendendo que apenas talento, pressão e psicologia eram o bastante para levantar a taça. Podemos tentar, para variar, a receita alemã: honestidade e organização administrativa, paciência e seriedade para formar os jogadores, calendário para poupar os atletas e – fundamentalmente – treinamento para o time. Parece que essas ferramentas – tão esquecidas do nosso futebol – quando bem utilizadas, costumam dar bons resultados. Taí o feliz povo alemão para nos dar provas disso.

Não nos enganemos achando que a mudança de Felipão por Tite, Mourinho, Guardiola ou Mandrake vai rejuvenescer nosso futebol. Não é somente a nossa seleção que é capenga. É o futebol brasileiro, que desde muito tempo vem patinando e passando vergonha (Copa América, Mundial de Clubes, Libertadores e agora o Mundial dentro do Brasil). Alguém vai lembrar da Copa das Confederações, onde enfrentamos as poderosas Itália e Espanha, que não passaram da primeira fase da Copa do Mundo. Foi apenas mais um entre tantos enganos.

A lição é simples. Enquanto o futebol brasileiro for vítima dos sanguessugas que o dirigem, continuará doente, fraco das pernas e da cabeça, vivendo das glórias passadas e do peso da camisa amarela, que hoje nem todo mundo mais respeita. Com toda razão.