Segundona: Português faz história e busca título com o Independente
Tiago Miguel também ressaltou uma característica que considera marcante no jogador brasileiro: a alegria dentro de campo
Na decisão do Campeonato Paulista Sub-23 da Segunda Divisão de 2026 contra o América, Thiago Miguel busca coroar uma trajetória construída no futebol brasileiro
Limeira, SP , 08 (AFI) – O português Tiago Miguel Gomes Fonseca Rodrigues Cardoso, conhecido no futebol como Thiago Miguel, vive um momento histórico na carreira. Aos 46 anos, o treinador do Independente de Limeira se tornou o segundo técnico português a chegar a uma final de campeonato estadual em São Paulo, feito alcançado anteriormente apenas por Abel Ferreira, comandante do Palmeiras.
Na decisão do Campeonato Paulista Sub-23 da Segunda Divisão de 2026 contra o América, Thiago Miguel busca coroar uma trajetória construída no futebol brasileiro. Além de garantir o acesso do Independente à Série A4 de 2027, o treinador implantou sua filosofia de trabalho em uma equipe de forte poder ofensivo, equilíbrio defensivo e números expressivos na competição.
Em entrevista exclusiva ao Futebol Interior, o técnico português falou sobre a final, os detalhes que podem decidir o confronto contra o América, sua adaptação ao futebol brasileiro, as diferenças entre Brasil e Portugal, a evolução do futebol português, a Seleção Brasileira e os caminhos para o futuro do esporte.
O treinador português destaca o momento histórico de disputar uma final estadual em São Paulo e também compara as características dos jogadores brasileiros e portugueses, ressaltando a qualidade técnica encontrada no futebol nacional, inclusive nas divisões menores.
SEGUNDO TREINADOR PORTUGUÊS NUMA FINAL
Tiago Miguel destaca o momento histórico de sua carreira ao chegar à decisão do Campeonato Paulista e comenta as diferenças entre o futebol brasileiro e português, ressaltando a qualidade técnica dos jogadores encontrados no Brasil.
“É uma curiosidade que eu não sabia, fico feliz. Vamos ver se eu vou conseguir levar de vencida o América, que é uma equipe muito boa. Eu tenho os meus objetivos, eles também têm os deles. Mas fico feliz por saber que, tirando o Abel, eu sou o segundo técnico português a chegar a uma final de um Paulista.
Sobre a minha avaliação da diferença do estilo de jogo que adoto aqui e o adotado no Brasil e em Portugal, é diferente. Mesmo nesta divisão aqui mais abaixo, a gente encontra jogadores muito bons, com muita qualidade. Quando me falam, ou quando falam, que no Brasil não há jogadores de futebol e que o Brasil já está a perder qualidade, eles também têm que olhar um pouco mais para dentro. Não só para estas equipes. Eu já trabalhei noutros estados também, mas eles têm que olhar um pouco mais para dentro, têm que olhar um pouco mais para o pessoal que joga aqui dentro.”
ALEGRIA DO JOGADOR BRASILEIRO
Tiago Miguel também ressaltou uma característica que considera marcante no jogador brasileiro: a alegria dentro de campo. Para o treinador português, além da qualidade técnica, a irreverência e a forma descontraída de encarar o futebol são diferenciais encontrados no Brasil.
“Em Portugal tem jogadores de qualidade, mas no Brasil tem muito mais jogadores de qualidade. E qualidade diferente, são irreverentes. É um jogador que joga com o sorriso nos lábios. O jogador brincalhão.
Eu, quando vim para o Brasil, vinha com aquela cultura formatada de Portugal. E o jogador ria, e eu não gostava, porque pensava que eles estavam brincando. Eu rapidamente me habituei a essa alegria no campo, nos treinos, no campo de jogo.
Além da qualidade, essa alegria com que o jogador tem para lidar com a bola, para lidar com os momentos difíceis, para lidar com o jogo de futebol propriamente dito. É muito diferente.
E um jogador alegre é um jogador fácil de trabalhar. É um jogador que gosta de aprender, gosta de trabalhar. E é um jogador irreverente. E isso torna estes campeonatos muito difíceis, porque qualquer equipe tem ótimos jogadores.
Você vai jogar contra uma equipe, até pode estar mal na tabela, mas vai ter a certeza de que vai encontrar um jogador muito bom pela frente. E isso é maravilhoso, essa maneira que o jogador brasileiro aborda o jogo em si. Essa alegria, essa irreverência. É algo que em Portugal a gente não encontra tanto, com tanta qualidade. É uma coisa excelente.”
ADAPTAÇÃO AO FUTEBOL BRASILEIRO
Tiago Miguel afirma que a adaptação ao futebol brasileiro aconteceu de forma positiva, mas aponta que a distância da família e a logística do país foram os principais desafios encontrados desde sua chegada.
“Na parte da família é mais complicado, porque o Brasil é um país muito grande. Os clubes onde estou têm contratos de curta duração, então ficar longe da família é sempre difícil. Eu ainda não estou naquele patamar que quero estar, e que qualquer treinador quer estar também, que é assinar por um clube com mais tempo de competição e com maior estabilidade.
A adaptação ao futebol brasileiro não foi difícil. No início eu não entendia tanto os jogadores, mas eu me adaptei mais ao jogador brasileiro, não foi ele que se adaptou a mim. O que é mais difícil, principalmente em Minas Gerais e em São Paulo, são as viagens. As viagens são muito longas. Tivemos sorte de que este campeonato foi realizado com um jogo por semana.
Quando são campeonatos com duas partidas por semana, em clubes pobres como os nossos, nas divisões abaixo, que é algo normal, torna-se muito mais difícil”, destacou.
CALENDÁRIO E RECUPERAÇÃO DE ATLETAS
Tiago Miguel aponta que o calendário das divisões inferiores e as longas viagens são desafios importantes para os clubes brasileiros, principalmente pelo desgaste físico e pelo pouco tempo de recuperação dos atletas entre as partidas.
“Quando temos um calendário pesado, a recuperação dos jogadores fica complicada. As viagens são longas. Eu já cheguei a fazer viagem de 16 horas para jogar e depois mais 16 horas para voltar. Você imagina a dificuldade de jogar duas vezes por semana? A gente praticamente não tem tempo para descansar, quanto mais para treinar.
Mas eu não estou reclamando. A adaptação foi mais difícil nesse sentido. O restante a gente se adapta, porque os jogadores são tão alegres e têm tanta satisfação em vir treinar que fazem a gente esquecer as dificuldades que todos passam. No dia seguinte, quando vamos treinar, encontramos um grupo feliz, um grupo motivado, um grupo contente, e as dificuldades passam. Mas, principalmente, as distâncias aqui são muito grandes. O Brasil é um mundo. O Brasil é maior do que a Europa. Então é normal que as distâncias sejam grandes.”
BEM RECEBIDO NO BRASIL
Tiago Miguel afirma que não encontrou resistência por ser um treinador estrangeiro trabalhando no Brasil. O português destaca a boa relação construída com profissionais brasileiros, a troca de conhecimento entre treinadores e a importância do intercâmbio de culturas no futebol.
“Fui sempre bem recebido. Nunca tive nenhuma resistência. Fui sempre bem recebido por toda a gente, principalmente por aqueles que me contrataram, claro. Mas também pelos treinadores que enfrento. Já joguei contra muitos treinadores diferentes, muitos mesmo, nestes anos que passei por aqui. A maior parte deles são meus amigos. A gente troca contatos, eles pedem minha opinião, eu peço opinião a eles. A gente cria amizade porque o futebol é um intercâmbio.”
TREINADORES E CULTURAS DIFERENTES: SCOLARI, DESTAQUE EM PORTUGAL
O treinador português ressalta que diferentes escolas do futebol podem contribuir umas com as outras e cita Luiz Felipe Scolari como um exemplo de profissional brasileiro que marcou o futebol de Portugal.
“Eu não sou o dono da razão, o outro treinador também não é o dono da razão. Ele tem valências que eu não tenho e, provavelmente, eu tenho valências que ele não tem. Temos conhecimentos diferentes, culturas diferentes. Isso não quer dizer que a minha cultura seja melhor ou pior, ela é diferente.
Basta ver o exemplo que o senhor falou de treinadores estrangeiros. Se eu perguntar para qualquer português da minha geração qual foi o melhor treinador que Portugal teve, todos vão dar a mesma resposta: Luiz Felipe Scolari. Ele abordou o futebol português de uma maneira diferente de qualquer outro treinador que tinha abordado até então. Foi um treinador honesto, simpático, direto. Duro quando tinha que ser duro, mas a maneira dele ser fez com que o povo português se identificasse muito com ele.”
AMIZADE COM OUTROS TREINADORES
Tiago Miguel destaca a relação criada com outros treinadores no futebol brasileiro e afirma que a troca de experiências faz parte da sua forma de enxergar a profissão.
“Eu, praticamente em todos os jogos que faço, tento criar essa relação. Às vezes um treinador ou outro não tem tanto tempo para conversar, mas eu faço sempre amizade com eles. Todos me receberam bem. Fiz muitos amigos treinadores aqui no Brasil. A gente conversa depois do jogo, eu ganhando ou perdendo.
A gente troca contatos e mantém esse contato ao longo dos anos. Eu acho que a vida tem que ser vivida assim. Quando preciso de ajuda, peço, porque um treinador brasileiro sabe mais do que eu sobre o país e sabe mais do que eu sobre o futebol brasileiro. Eu não sou mais do que ninguém. Fui sempre muito bem recebido, sempre muito bem aceito por toda a gente e especialmente pelos meus colegas de trabalho.”
ESTILO JORGE JESUS
O treinador analisa o estilo de jogo com o qual mais se identifica no futebol e compara os trabalhos de Jorge Jesus e Abel Ferreira. O treinador português também avalia a atual fase da Seleção Brasileira e defende que a essência ofensiva do futebol brasileiro ainda existe, mas precisa ser mais valorizada desde as categorias de base.
“Eu sou mais fã do futebol do Jorge Jesus do que do Abel. Isso não significa que o Abel não seja um grande treinador. Acho que ele é um treinador muito, muito bom. Ele planeja todos os momentos do jogo, é muito trabalhador, muito metódico. É difícil uma equipe dele ser apanhada em um momento de jogo aleatório. É diferente do Jorge Jesus, mas são dois treinadores vencedores, com grandes trabalhos.”
FÃ DO FUTEBOL BRASILEIRO
O treinador português, que acompanha o futebol brasileiro com admiração, analisa o momento da Seleção Brasileira e fala de uma equipe mais ofensiva, aproveitando a qualidade técnica existente no país.
“Em relação ao Brasil, como fã do futebol brasileiro, eu gostaria de ver a equipe mais para frente, sim, até porque tem jogadores para isso. Mas este treinador também pegou um ciclo de Copa do Mundo já quase no final, teve muitas lesões, e isso acabou prejudicando. Eu gostaria de ver a Seleção Brasileira mais solta, mais ofensiva, porque tem jogadores para isso. E não são apenas aqueles que foram para a Copa.
O Brasil é uma fábrica gigante de jogadores.”
OLHAR ESPECIAL PARA A BASE
Para o treinador português, o caminho para recuperar ainda mais a força ofensiva do futebol brasileiro passa por uma atenção maior às categorias de formação e pela valorização dos atletas que atuam nas divisões inferiores.
“Talvez se passasse a olhar mais para dentro (base), com outro carinho e outro amor, poderiam ser descobertos mais jogadores. Muitos atletas das divisões mais abaixo poderiam estar em clubes maiores, porque têm qualidade para isso. E talvez fosse possível fazer um futebol mais ofensivo. Eu não acredito que a essência do futebol brasileiro foi esquecida. Eu acho que ela está mais escondida nas divisões mais abaixo. Hoje o resultado é mais importante do que a exibição, principalmente na formação. E aí está o problema. A base é a raiz do futebol.”
EXEMPLO DA ITÁLIA E O TALENTO BRASILEIRO
Tiago Miguel usa a situação da seleção italiana como exemplo para defender um trabalho de formação com mais planejamento e menos cobrança imediata por resultados.
“Um exemplo é a seleção italiana, que ficou fora de duas ou três Copas do Mundo seguidas porque deixou de investir tanto na formação. O problema não está apenas lá em cima, ele vem de trás. Talvez o futebol brasileiro precise olhar com mais carinho para a base e não ser tão resultadista. É preciso ter mais paciência, principalmente com os treinadores das categorias de formação, para que os jogadores possam se desenvolver mais e melhor. O Brasil tem muito jogador bom, muito mesmo. É preciso dar oportunidade para aqueles que estão aqui e deixá-los fazer aquilo que sabem fazer melhor: jogar futebol. Deixá-los ser um pouco mais livres.”
CRESCIMENTO DE PORTUGAL NÃO É SOMENTE CR7
Tiago Miguel destaca que a evolução do futebol português não está ligada apenas ao surgimento de grandes jogadores como Cristiano Ronaldo, mas também a uma estrutura de formação que aumentou a competitividade desde a base. Para o treinador, CR7 continua sendo uma referência, mas Portugal criou uma geração forte por meio de um processo de desenvolvimento.
“Primeiro, a evolução não é só da Seleção de Portugal. O futebol português evoluiu. Temos o Cristiano Ronaldo, o grande nome do futebol português e um dos grandes nomes do futebol mundial. Apesar da idade, ele ainda é uma figura muito importante no futebol português e mundial. Claro que já não é o mesmo Ronaldo de antigamente, mas continua sendo uma referência.”
COMO VEIO A EVOLUÇÃO PORTUGUESA
O treinador Tiago Miguel explica que o crescimento do futebol português aconteceu a partir de uma estrutura construída desde a base, com mais oportunidades de treinamento, aumento da competitividade e organização das competições de formação.
“Mas como Portugal conseguiu evoluir o seu futebol? Primeiro, Portugal é um país pequeno, mas tem muitas cidades, e praticamente cada cidade tem um campo de futebol. Antigamente, muitos desses campos eram de terra, com areia e pedra. Quando os campos sintéticos começaram a ficar mais acessíveis, muitos clubes passaram a ter essa estrutura.
Como em Portugal as crianças estudam de manhã e à tarde, à noite elas conseguem treinar. Quando comecei a treinar em Portugal, nós treinávamos em um quarto de campo, muitas vezes nem tínhamos meio campo inteiro disponível, mas era sintético e permitia treinar mais vezes sem prejudicar o gramado.
Essa possibilidade de treinar mais tempo ajudou muito no desenvolvimento do futebol português.
Outro fator importante é a competição. Aqui no Brasil existe o estadual, enquanto em Portugal temos os distritais. O distrito de Lisboa, por exemplo, é pequeno. São Paulo é maior do que Portugal. Mas lá as competições são anuais. Sub-15 é o ano inteiro, Sub-17 é o ano inteiro, Sub-19 é o ano inteiro, assim como no futebol profissional. Isso aumenta muito a competitividade. Outro ponto importante são as associações de futebol, que funcionam como as federações estaduais no Brasil. Elas montam suas seleções de base.”
SELEÇÕES REGIONAIS, EXEMPLO PARA O BRASIL
O treinador português aponta o modelo das associações de futebol de Portugal como um dos fatores para a evolução do país e sugere que uma estrutura semelhante poderia ajudar na formação de jogadores no Brasil.
“Por exemplo, em vez de existir apenas uma competição estadual, como uma seleção de São Paulo Sub-15 ou Sub-17, em Portugal existe a Associação de Futebol de Lisboa enfrentando a Associação de Futebol de Aveiro, Santarém, Porto e outras regiões. Essas associações fazem torneios entre si, aumentando a competitividade e criando uma seleção natural para a Seleção Portuguesa.
Imagina se no Brasil existisse uma competição entre as associações. No final do ano, a Associação de Futebol de São Paulo teria um treinador, faria uma convocação Sub-15, Sub-17, Sub-20 e disputaria torneios contra outras associações pelo país. A Seleção Brasileira poderia buscar jogadores nesses grupos, assim como Portugal faz. São esses pequenos detalhes que fizeram o futebol português evoluir. Mesmo sendo um país com cerca de 11 milhões de habitantes, conseguimos formar grandes jogadores. E por quê? Porque eles competem cada vez mais uns contra os outros. Quando existe mais competição, existe mais evolução.”
FINAIS DA BEZINHA
Tiago Miguel destaca que a decisão da Bezinha contra o América será definida nos detalhes. O treinador português também compara o formato das finais no Brasil com o futebol de Portugal, onde as competições são disputadas em pontos corridos, e fala sobre sua relação com os vinhos portugueses.
“Em Portugal não temos esse tipo de final de campeonato. Lá é tudo por pontos corridos, então é diferente. O que vai decidir essa final são os detalhes. O América é uma grande equipe, muito bem treinada, com ótimos jogadores. É uma equipe muito forte. As duas equipes vão querer ganhar. Nós vamos querer ganhar, eles também vão querer. Cada um vai jogar na sua casa, então não existe vantagem para ninguém.
Não há vantagem de jogar em casa ou fora. O América mostrou isso na semifinal, quando empatou em casa e depois ganhou fora por 3 a 0 de uma equipe que ainda não tinha perdido. Isso mostra o valor que eles têm, que são muito competitivos e muito bem treinados. Além das qualidades individuais, eles têm uma força coletiva muito grande. Por isso, acredito que serão os detalhes que vão decidir.”
BOM VINHO PORTUGUÊS
Além do futebol, Tiago Miguel também falou sobre uma tradição portuguesa conhecida mundialmente: os vinhos. O treinador brincou sobre sua relação com a bebida e destacou a qualidade dos produtos de seu país.
“Sobre o vinho, vinho é bom. Eu não sou muito apreciador, não bebo tanto assim. Mas ainda agora estava em um almoço, vi alguns vinhos portugueses e perguntaram se eu gostava. Eu gosto de vinho bom, mas não é algo que eu beba com tanta frequência. Portugal também é conhecido pelos seus bons vinhos.”





































































































































