Reforma Tributária pode mexer com as receitas do futebol brasileiro

Futebol brasileiro movimenta R$ 15 bilhões e reforma tributária acende alerta para clubes e SAFs

Os clubes brasileiros nunca arrecadaram tanto. No último ano, os 20 maiores em receita faturaram R$ 15 bilhões, recorde histórico e avanço de 36% em relação ao ano anterior.

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Ulisses Brondi (Foto: reprodução)

Campinas, SP, 29 – Os clubes brasileiros nunca arrecadaram tanto. No último ano, os 20 maiores em receita faturaram R$ 15 bilhões, recorde histórico e avanço de 36% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o endividamento chegou a R$ 16 bilhões, também o maior já registrado, de acordo com levantamento da Sports Value, consultoria de negócios esportivos. Ou seja, o aumento das receitas não resolveu o problema financeiro do futebol brasileiro.

Enquanto o faturamento bate recordes, outra variável começa a ganhar espaço nas decisões de presidentes, investidores e executivos do esporte: a reforma tributária.

“O futebol brasileiro nunca gerou tanta receita, mas continua convivendo com um elevado nível de endividamento. Desse modo, qualquer mudança na forma de tributação ganha peso porque pode influenciar justamente a capacidade dos clubes de transformar faturamento em resultado financeiro”, destaca Ulisses Brondi, CEO da ASIS Tax Tech, empresa brasileira de tecnologia tributária.

Para Brondi, a discussão alcança algumas das principais fontes de receita do futebol. “A reforma tributária não vai mexer apenas com a conta de impostos dos clubes, ela pode influenciar receitas que hoje sustentam o futebol, como a negociação de atletas, os patrocínios, os direitos de transmissão, os produtos oficiais e a exploração comercial das arenas. É por isso que os clubes estão acompanhando essa discussão tão de perto”.

E há uma razão adicional para essa discussão ter ganhado importância justamente agora. O futebol brasileiro não vem mudando apenas de tamanho; mas também sua estrutura empresarial. A expansão das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) aproximou definitivamente clubes, fundos, grupos econômicos e investidores de um mercado que passou a discutir com muito mais frequência governança, retorno sobre o capital, geração de caixa e valuation.

Clubes como Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Bahia e Fortaleza são exemplos. Eles adotaram o modelo SAF para atrair capital privado e reorganizar suas finanças. Agora, esse modelo também acompanha de perto a regulamentação da reforma tributária, já que alterações nas regras podem influenciar o retorno esperado pelos investidores.

O tema já faz parte das discussões acompanhadas pela ASIS. Na 20ª edição do Fórum de Gestão Fiscal promovido pela Confeb Live University em São Paulo, representantes do Internacional participaram do debate sobre os impactos da Reforma Tributária no futebol e os desafios de adaptação das estruturas dos clubes.

“A partir de agora, os clubes precisarão se enxergar como empresas e se organizar como tal. A Reforma Tributária traz mudanças que exigem mais disciplina de gestão, porque as decisões fiscais passam a ter reflexos cada vez maiores na operação e nos resultados”, afirmou Fabiano Demétrio, Gerente de Projetos da ASIS, durante o fórum.

Sobre as SAFs, o CEO da ASIS Tax Tech explica que o modelo já possui regras específicas e precisará ser compatibilizado com o novo sistema de tributação sobre o consumo criado pela reforma. “Essa transição precisa ser acompanhada de perto porque pode afetar a tributação de receitas, contratos e investimentos e, consequentemente, influenciar o planejamento financeiro dos clubes e a própria atratividade do modelo para novos investidores”, conta. A transição possui regras próprias e ocorre gradualmente.

Receita por Receita

A reforma tributária ganha ainda mais relevância porque o futebol possui uma composição de receitas bastante particular. Em 2025, somente as transferências de jogadores superaram R$ 4 bilhões entre os 20 maiores clubes brasileiros. Os direitos de transmissão chegaram a R$ 4,8 bilhões e as receitas de marketing atingiram R$ 3,2 bilhões.

Por isso, segundo Brondi, a análise precisa ser feita receita por receita e contrato por contrato. Patrocínios, direitos de transmissão, exploração comercial, licenciamento, negociação de atletas e outras operações possuem características diferentes e não devem ser tratadas como se produzissem o mesmo efeito tributário.

A discussão também alcança as entidades esportivas que permanecem estruturadas como associações sem fins lucrativos. Nesse caso, o diagnóstico precisa considerar as particularidades jurídicas e tributárias de cada organização.

Para o especialista, o principal erro seria esperar o fim da transição para entender os efeitos das novas regulamentações sobre as operações. “Os clubes precisam entender como cada receita será tratada no novo sistema tributário e antecipar os resultados sobre caixa e resultado. No futebol, contratos são fechados por vários anos e decisões tomadas hoje podem relevar impactos não vantajosos quando o novo sistema já estiver muito mais avançado”, conclui Ulisses Brondi.