Palmeiras, Vasco e Atlético-MG podem chegar a mais de 70 jogos no ano

Palmeiras, Atlético-MG e Vasco se dividem entre diferentes frentes e podem se aproximar de 75 jogos no ano.

O Palmeiras é quem já soma mais partidas no ano entre os três times, com 56 jogos

Vasco e Palmeiras se enfrentam na Copa do Brasil
Vasco e Palmeiras se enfrentam na Copa do Brasil (Foto: Cesar Greco-SEP)

Campinas, SP, 21 – Três equipes brasileiras continuam na disputa de três competições na temporada de 2026. Palmeiras, Atlético-MG e Vasco se dividem entre diferentes frentes e podem se aproximar de 75 jogos no ano.

Após a Super Data Fifa, em uma rotina de partidas a cada três ou quatro dias, a capacidade de recuperar os jogadores se torna tão importante quanto o treinamento técnico e tático.

O Palmeiras é quem já soma mais partidas no ano entre os três times, com 56 jogos. Se avançar até as finais de Copa do Brasil e Libertadores, o número pode chegar a 73. Sendo campeão da América, com a disputa da Copa Intercontinental, é possível bater 76 até a final.

Vasco e Atlético-MG têm 54 cada. Ambos têm um jogo atrasado pelo Brasileirão e se encontram nas mesmas condições na Copa do Brasil e Sul-Americana, podendo fazer as finais das duas competições. Se isso acontecer nas duas frentes, vascaínos e atleticanos chegam a 72 partidas cada.

O cenário não é de hoje. Se o Palmeiras chegar ao máximo de jogos, iguala a marca de 2025, quando disputou o Mundial. O Vasco, vice-campeão da Copa do Brasil, fez 71 no ano passado. O Atlético-MG, vice da Sul-Americana, 75.

Embora compartilhem o calendário mais extenso, até aqui Palmeiras, Atlético-MG e Vasco se diferem nos números de lesões na temporada. Os mineiros registraram 20, segundo levantamento feito pelo Estadão. Os palmeirenses, 17; e os vascaínos, 13.

“Toda partida vai gerar algum nível de desgaste. E aí entram diferentes características da partida que vão influenciar isso: se é uma partida de copa, se é uma partida de Campeonato Brasileiro, se é contra um time que está lá em cima, se é um clássico…”, pondera Matheus Cioccari, gestor de performance que atua de forma particular com jogadores do Brasileirão.

“A fadiga do jogo é um somatório de coisas que acontecem durante a semana. A gente já pode cogitar que o jogador vem de um desgaste de partidas anteriores e vai jogar essa partida que tem algum nível de influência específica aí. Ainda mais para quem está disputando, como esses clubes, três campeonatos, muitas vezes todo jogo é uma final”, complementa.

Ainda em junho, o Palmeiras inaugurou o Centro de Recovery e Neurociência para aprimorar a recuperação de seus atletas. A ideia é auxiliar os trabalhos físicos em complemento ao Núcleo de Saúde e Performance. Há serviços como massoterapia, exercícios de eletroestimulação transcraniana, pilates e botas compressivas.

“Além do recovery, usamos esta nova área, principalmente, para as ativações mental, neural e neuromuscular. Por isso, o espaço é também de neurociência e conta com técnicas e equipamentos, como óculos inteligentes, que nos ajudam a melhorar a tomada de decisões e o foco dos nossos atletas, entre outras coisas”, diz o coordenador de saúde e performance do Palmeiras, Daniel Gonçalves.

O Atlético-MG também aponta para evoluções. No fim do ano passado, o clube divulgou um levantamento que mostrou queda de 42% na média de lesões por temporada entre 2018 e 2025.

“Quando cheguei ao Atlético, havia um fisioterapeuta. Passamos a ter cinco profissionais superespecializados, porque a fisioterapia evoluiu muito. Mas não só ela. Várias funções foram sendo inseridas, pela complexidade cada vez maior de um futebol profissional, esporte de alto rendimento. Na alta performance, algumas situações específicas e qualificações profissionais fazem a diferença”, disse Rodrigo Lasmar, diretor-médico que atua no clube desde 1999 e médico da seleção brasileira.

O cuidado com “a cabeça”, por exemplo, não é mero acessório da recuperação. Matheus Cioccari aponta o sono como base para a “pirâmide da recuperação”. “Se o atleta não dorme bem, pode fazer o que for que ele vai muito menos do que ele recuperaria se ele só tivesse dormido de uma maneira adequada”, sinaliza.

Entretanto, ele faz ressalvas sobre a rotina dos jogadores, que costuma impedir uma noite de sono de oito horas. “Isso não existe no mundo real, porque o jogador joga às 22h, acaba à meia-noite, ele vai dormir às 4h, quando ele não pega um voo de volta e chega na cidade dele às 4h ou 5h.”

As técnicas de recuperação evoluem ao passo que o contexto do futebol também é outro, mais intenso. Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine analisou 3.750 partidas ao longo de 10 temporadas da Premier League. Foram verificados aumentos expressivos em variáveis físicas.

A distância percorrida em alta intensidade subiu 27%; as corridas em alta velocidade, 23%; já a distância de sprints (pique) disparou 40%. A pesquisa foi conduzida entre 2015/16 e 2024/25 por representantes de Arsenal (Tom Allen e Mikhail Zhilkin), Liverpool (Matt Taberner) e da própria Premier League (Matthew Green).

Uma das conclusões apontadas foi que se deve dar ênfase em atividades neuromusculares e psicológicas, como aliadas da recuperação. “A análise regular de tendências, juntamente com a vigilância de lesões e enfermidades, o bem-estar dos jogadores e o monitoramento das respostas adaptativas individuais à carga, serão essenciais para compreender o impacto dessas demandas crescentes”, diz um trecho do artigo.

O trabalho individual é destacado por Cioccari como crucial junto aos avanços tecnológicos. “Eu acredito fielmente que a tecnologia serve como nossa aliada, mas, antes de tudo, a gente tem de refletir uma situação dentro dos clubes hoje. Porque nós podemos ter inúmeros dados e não estar sabendo interpretar o real valor de como o atleta está”, pondera.

“Eu prefiro hoje perguntar: ‘Como é que tu estás?’, ter uma conversa franca e aí pegar os dados”, argumenta, dizendo que não se pode “esquecer que se está lidando com um ser humano”. Há variáveis sociais, além da fadiga, que podem afetar o rendimento e exigir um trabalho de recovery adaptado.

Leonardo Catto