O que o Guarani recebe — e entrega — no acordo bilionário pela SAF

Proposta prevê recursos para o futebol, pagamento de dívidas, novo estádio e CT; em troca, investidor assumiria 90% da empresa

Negociação com Roberto Graziano pode movimentar até R$ 1,075 bilhão e alterar profundamente o futuro do Guarani

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Guarani

Campinas, SP, 21 (AFI) – O Guarani está diante de uma das decisões mais importantes de seus 115 anos de história. A proposta apresentada pelo empresário Roberto Graziano, proprietário do Grupo Magnum, prevê a transformação do departamento de futebol em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e uma operação estimada em até R$ 1,075 bilhão.

O valor chama atenção, mas não representa um depósito imediato na conta do clube. A cifra reúne investimentos previstos para diferentes áreas, distribuídos ao longo dos próximos anos, além dos recursos destinados ao pagamento do passivo acumulado pelo Bugre.

Em contrapartida, o Guarani entregaria ao grupo ligado ao empresário 90% das ações da futura SAF. A associação permaneceria com 10%, mas deixaria de controlar diretamente o futebol profissional e as categorias de base.

Na prática, o investidor passaria a comandar as principais decisões esportivas, administrativas e financeiras do futebol. O clube associativo continuaria existindo e teria participação minoritária na nova empresa.

Como o dinheiro seria distribuído

A versão mais recente da proposta prevê R$ 400 milhões para a operação da SAF e do clube social ao longo do contrato. Esse montante seria utilizado para financiar o futebol, reforçar o elenco, manter a estrutura administrativa e ampliar a capacidade de investimento do Guarani.

Se o valor for distribuído igualmente durante 20 anos, corresponderá a uma média de R$ 20 milhões por temporada. A forma exata dos aportes, no entanto, ainda é um dos pontos analisados pelos conselheiros.

Outros R$ 350 milhões seriam reservados para o passivo incluído na recuperação judicial. Esse dinheiro permitiria ao Guarani enfrentar uma dívida que limita o funcionamento do clube e compromete receitas futuras.

A proposta também separa R$ 300 milhões para a construção de um novo estádio e R$ 25 milhões para um novo Centro de Treinamento. Somados, os quatro blocos chegam aos R$ 1,075 bilhão apresentados na versão atual da negociação.

Novo estádio e adeus ao Brinco

O projeto do investidor prevê que a nova casa do Guarani seja construída em uma região próxima à Rodovia dos Bandeirantes. A estimativa apresentada por Graziano é de que o estádio possa ficar pronto entre dois e três anos depois da obtenção das aprovações e licenças necessárias.

O local definitivo do Centro de Treinamento ainda está em discussão. A promessa é entregar uma estrutura superior àquela prevista no acordo firmado em 2015, quando o Grupo Magnum adquiriu o Brinco de Ouro.

A área do atual estádio deverá receber um empreendimento imobiliário com aproximadamente 1.200 apartamentos. O projeto seria desenvolvido gradualmente e poderia levar vários anos para ser concluído.

O destino do Brinco é uma das partes mais sensíveis da negociação. Isso porque a construção de uma arena, de um CT e de uma sede social já fazia parte das obrigações relacionadas à aquisição do estádio há 11 anos, mas os projetos ainda não saíram do papel.

Parte do Conselho Deliberativo entende que essas obrigações antigas precisam ser separadas dos novos compromissos assumidos na SAF. A preocupação é impedir que promessas feitas no acordo de 2015 sejam novamente contabilizadas como investimento adicional.

O que o Guarani entrega

Além de 90% das ações, o Guarani entregaria ao investidor o controle de seu principal ativo: o futebol. Contratações, vendas de jogadores, orçamento, formação do elenco e planejamento esportivo passariam a ser conduzidos pela empresa controladora.

A associação manteria 10% das ações e a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento do contrato. Sua influência direta sobre os rumos da equipe, porém, seria reduzida pela posição minoritária dentro da SAF.

Outro ponto sob análise é o tratamento dos R$ 350 milhões destinados às dívidas. Na documentação avaliada pelos conselheiros, o montante aparece como um adiantamento que poderia ser compensado no futuro com dividendos pertencentes à associação.

Isso significa que o pagamento do passivo não deve ser interpretado necessariamente como um aporte sem contrapartida. Dependendo da redação final, o Guarani poderá abrir mão de receitas futuras para compensar o valor empregado na recuperação judicial.

Também existem questionamentos sobre a duração do acordo. Versões discutidas durante a negociação mencionaram prazo inicial de 20 anos, com possibilidade de renovação, enquanto documentos mais recentes indicaram uma relação de até 40 anos. A definição deverá constar na proposta final submetida aos associados.

Garantias ainda estão em discussão

Os conselheiros também querem garantias concretas para o caso de o investidor não cumprir os aportes, a construção do estádio ou as demais obrigações. Uma versão anterior previa a alienação fiduciária de 45% das ações da SAF em favor do Guarani, mas o mecanismo não apareceu da mesma maneira na documentação posterior.

Outra cláusula questionada estabelecia multa equivalente a 10% do valor da operação caso o negócio não avançasse por responsabilidade do clube. Quando o projeto ainda era calculado em R$ 750 milhões, a penalidade poderia chegar a R$ 75 milhões.

Depois da reunião realizada no Brinco de Ouro, Graziano demonstrou disposição para negociar mudanças. Os integrantes do Conselho saíram satisfeitos com a abertura ao diálogo, mas ainda não houve aprovação definitiva.

A proposta será apresentada aos associados em 1º de setembro. Depois dos esclarecimentos e do parecer do Conselho Deliberativo, os sócios terão a palavra final em assembleia marcada para o dia 4.

A SAF oferece ao Guarani a possibilidade de reduzir as dívidas, recuperar sua capacidade de investimento e receber uma nova estrutura. Em troca, o clube entrega o controle do futebol e aceita uma relação que poderá atravessar várias décadas. Mais do que decidir sobre uma cifra bilionária, os associados escolherão quem comandará o futuro do Bugre.

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