E agora? Queda deixa Ponte Preta diante de rombo, debandada e futuro ameaçado
Rebaixamento reduz receitas, e aumenta pressão sobre dívida milionária
A confirmação do rebaixamento é apenas o início de uma reconstrução cercada de riscos
Campinas, SP, 02 (AFI) – O rebaixamento para a Série C não encerra a crise da Ponte Preta. Pelo contrário. A queda amplia os problemas de um clube que já enfrenta dívida milionária, atrasos salariais, perda de jogadores e incerteza sobre o próprio modelo de gestão.
Em 2027, a Macaca terá pela frente a Série A2 do Campeonato Paulista e a terceira divisão nacional. O desafio será reconstruir o futebol com receitas menores e sem uma solução aprovada para o passivo acumulado.
Menos dinheiro e menor exposição
A primeira consequência estará no orçamento. A Série C oferece menos visibilidade, reduz o valor comercial dos patrocínios e não garante à Ponte as mesmas receitas relacionadas à presença na Série B.
A queda também pode afetar bilheteria, programa de sócios, propriedades publicitárias e poder de negociação com fornecedores.
O impacto torna-se ainda mais grave porque o clube já convive com um déficit mensal estimado pela própria direção em aproximadamente R$ 2,8 milhões.
Sem uma injeção imediata de recursos, a tendência é de novas dificuldades para pagar compromissos correntes e manter uma estrutura profissional compatível com a obrigação de buscar o acesso.
Dívida próxima de R$ 380 milhões
Dirigentes apontam um passivo próximo de R$ 380 milhões. A conta envolve débitos trabalhistas, tributários, cíveis, bancários e compromissos acumulados durante diferentes administrações.
A Ponte também enfrenta uma avalanche de processos. Levantamentos recentes identificaram dezenas de novas ações trabalhistas somente em 2026 e mais de 200 casos desde 2022.
Em processos movidos por atletas que sequer conseguiram estrear, os autores pediram que dirigentes respondessem pessoalmente pelas cobranças. A responsabilização dependerá da análise da Justiça, mas a solicitação mostra que a crise ultrapassou as finanças da associação.
Elenco terá de ser refeito novamente
A Ponte perdeu ao menos 19 jogadores desde o início da Série B até os primeiros dias de setembro. A debandada ocorreu por rescisões, devoluções, negociações e decisões judiciais relacionadas aos atrasos.
O grupo que terminar a competição será muito diferente daquele montado no começo do ano. Parte dos atletas pertence a outros clubes, outra parcela tem contratos próximos do fim e os jovens da base ganharam espaço mais por necessidade do que por planejamento.
A direção precisará definir rapidamente:
- quais atletas possuem contrato para 2027;
- quais empréstimos podem ser renovados;
- quem aceita disputar a Série C;
- quais jogadores poderão ser negociados;
- como evitar novas rescisões por falta de pagamento;
- quais jovens estão preparados para permanecer no profissional.
A reconstrução também exigirá atenção ao calendário. A Série A2 começará antes da terceira divisão nacional e servirá como primeiro teste de um elenco que não poderá ser montado às pressas outra vez.
O que acontecerá com Gilson Kleina?
Gilson Kleina assumiu a Ponte pela sexta vez em meio à greve do elenco e com a equipe praticamente condenada. O treinador recebeu um grupo reduzido e chegou a utilizar somente atletas da base em sua estreia.
A permanência para 2027 dependerá de uma definição da diretoria sobre orçamento, autonomia para montar o elenco e condições mínimas de trabalho.
Manter o treinador poderia oferecer continuidade durante a reconstrução. Uma nova troca, por outro lado, permitiria iniciar outro projeto desde a Série A2. A decisão precisa ser tomada antes do planejamento das contratações, evitando a repetição do improviso de 2026.
A SAF continua possível?
A criação da SAF foi rejeitada pelos associados em setembro. A proposta recebeu 234 votos favoráveis, 22 a menos do que o necessário para alcançar os dois terços previstos no estatuto.
A votação não tratava diretamente da venda para um investidor, mas da autorização para transformar o departamento de futebol em empresa. Sem essa aprovação, a negociação apresentada pela diretoria não poderia avançar.
Caso queira retomar o projeto, a Ponte terá de reiniciar os procedimentos estatutários, esclarecer os pontos contestados e tentar convencer parte dos associados que votou contra ou se absteve.
O pacote divulgado previa aproximadamente R$ 1,1 bilhão, dividido entre pagamento de dívidas, futebol, categorias de base e infraestrutura. A rejeição, porém, deixou o clube sem a solução financeira apresentada como principal caminho para evitar a insolvência.
Parceria com o Boavista
Durante a Série B, a Ponte recebeu ajuda do Boavista, do Rio de Janeiro. O grupo ligado à SAF do clube fluminense auxiliou no pagamento de transfer bans e disponibilizou jogadores para a reta final.
O acordo aumentou a influência externa sobre o futebol alvinegro e pode ser uma alternativa provisória para 2027. Ao mesmo tempo, exigirá transparência sobre valores, contrapartidas, vínculos e poder de decisão.
Em uma temporada de reconstrução, empréstimos podem reduzir custos. A Ponte, porém, não pode depender apenas de atletas cedidos e correr novamente o risco de perder praticamente todo o elenco ao fim dos contratos.
Série C terá novo tamanho
A terceira divisão de 2027 será disputada por 24 clubes, dentro do processo de ampliação anunciado pela CBF.
O aumento representa mais adversários, viagens e despesas operacionais. Também torna a competição ainda mais imprevisível, especialmente para um clube que precisará disputar simultaneamente uma batalha financeira e esportiva.
O nome, a torcida e a estrutura colocam a Ponte entre as equipes de maior peso da divisão. Nenhum desses fatores, entretanto, garante acesso. A própria campanha de 2025 mostrou como a classificação depende de regularidade, organização e capacidade de suportar momentos de pressão.
Os primeiros passos
A reconstrução precisa começar antes do encerramento da Série B. A Ponte terá de utilizar as rodadas restantes para avaliar jogadores, testar jovens e decidir quem realmente pode fazer parte do próximo projeto.
Fora de campo, as prioridades são mais complexas:
- apresentar um diagnóstico atualizado da dívida;
- estabelecer um cronograma para os salários atrasados;
- reduzir o risco de novas ações e rescisões;
- definir o futuro da SAF;
- montar um orçamento realista para 2027;
- escolher o comando técnico;
- preservar atletas da base;
- impedir novos transfer bans;
- recuperar a relação com funcionários e fornecedores;
- devolver credibilidade ao clube.





































































































































